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terça-feira, julho 08, 2014
Rise of the Footsoldier (2007)
"Rise of the Footsoldier" segue a ascenção impiedosa de Carlton Leach desde um dos hooligans mais temidos do futebol inglês até tornar-se membro de um gangue criminoso que espalhou o pânico e o terror em Londres durante o final dos anos oitenta e o início dos anos noventa do século passado. Interpretado por Ricci Harnett, Leach é retratado como um criminoso desequilibrado que encontra prazer nos seus actos violentos, os mesmos que, literal e metaforicamente, o irão levar à sua destruição. Realizado por Julian Gilbey, "Rise of the Footsoldier" custa a arrancar mas rapidamente se torna numa espécie de Goodfellas rasca de série B britânico, visualmente intenso e incómodo, que usa e abusa da violência para chocar (ou conquistar, dirão alguns) o espectador. Sem papas na língua - Scorsese teria vergonha -, não se percebe, no entanto, como é que numa biografia cinematográfica de Carlton Leach, o mesmo desaparece de cena a meio do filme. Drogas, sexo, pancadaria e mais drogas num filme em que a caracterização das personagens é baseada na quantidade de palavrões que cada um diz e não num aprofundamento lógico das relações entre as mesmas. Algumas referências culturais nostálgicas às saudosas décadas de oitenta e noventa não chegam para compensar outro filme de hooligans que se perde nos clichés do género. Ainda assim, justiça seja feita a algumas interpretações de qualidade, com destaqe para Harnett e Craig Fairbrass.
sábado, novembro 20, 2010
Meet Bill (2007)
Bill (Aaron Eckhart) está a ver a vida passar-lhe ao lado. Com um emprego sem quaisquer perspectivas futuras no banco do sogro, um casamento de aparências assombrado por um relacionamento extraconjugal da sua mulher (Elizabeth Banks) com um pivot da televisão local (Timothy Olyphant) e um vício ao chocolate que em nada ajuda a manter a forma, tudo vai, no entanto, mudar quando Bill é escolhido pelo patrão para ser o mentor de um adolescente confiante e destemido. Numa rápida inversão de papéis, Bill torna-se discípulo e, com a ajuda de uma jovem vendedora de lingerie (Jessica Alba), começa a transformar-se num homem independente e astuto.Comédia? Drama? Dramédia? Provavelmente nem Melisa Wallack e Bernie Goldmann, dupla realizadora de “O Meu Nome é Bill” sabe ainda hoje o que queria fazer de uma narrativa potencialmente interessante e de um elenco mais do que hábil para gerar um produto final minimamente satisfatório. Infelizmente, a verdade é dura e crua: “Meet Bill” é desnecessário e inútil, as suas personagens são supérfluas e, sem apelo nem agrado, estampa-se ao comprido ao tentar reinventar o estilo de fitas como “American Beauty”, enquanto desenvolve clichés cómicos estúpidos e banais. Mais do que um desperdício de tempo, “O Meu Nome é Bill” é um desperdício de talentos. Próximo.
sexta-feira, outubro 01, 2010
Paranormal Activity (2007)
Katie e Micah são um jovem casal de classe média americana que acabou de se mudar para uma casa nos subúrbios da cidade onde trabalham. Com Katie desconfiada da presença de forças paranormais na casa ao final de algumas noites, Micah decide comprar uma câmara de vídeo de alta definição para filmar o casal enquanto dorme e, assim, descansar a paranóia sobrenatural da namorada. Mas não tardará ele próprio a ficar convencido de que algo demoníaco persegue mesmo Katie. Agora, o que fazer contra o que não se vê?Com uma realização minimalista do desconhecido israelita Oren Peli, “Actividade Paranormal” é uma fita de terror ao bom estilo “Blair Witch”, numa receita vencedora que já provou conseguir transformar qualquer orçamento diminuto – neste caso, 15 mil dólares - num projecto milionário, com uma margem de lucro elevada a expoentes máximos. Mas o sucesso arrebatador de “Paranormal Activity” em todo o mundo deveu-se também, verdade seja dita, à sua qualidade e excelência enquanto thriller supernatural, agarrando o espectador à cadeira com uma trama equilibrada de suspense e falsas expectativas, que não se vende aos sustos baratos e a sons inesperados e elevados para provocar uma reacção apropriada ao contexto da obra. Produto criativo tão básico na sua premissa quanto original – finalmente um bom filme de terror norte-americano que não cedeu à onda recente de remakes/reboots que atingiu Hollywood na última década -, “Actividade Paranormal” é uma excelente proposta para qualquer casal com uma sala escura e uma boa televisão, numa sexta-feira à noite de chuva e lua nova. A inevitável sequela já está a caminho – desta vez com a realização de Tod Williams, o mesmo do intragável “The Door in the Floor” -, mas por aqui esperamos ansiosamente é pelo novo filme de Oren Peli, intitulado “Area 51”.
sexta-feira, setembro 10, 2010
Boot Camp (2007)
Adolescentes problemáticos de todo o mundo, ano após ano, são enviados pelos pais para um programa de reabilitação moral e social nas exóticas ilhas Fiji. No entanto, os métodos do ASAP – Advanced Serenity Achievement Program – estão longe de serem consensuais e, numa mistura de “Battle Royale” com “The Island of Dr. Moreau”, o conceituado médico e líder espiritual Normal Hail (sordidamente interpretado pelo brilhante Peter Stormare) aplica técnicas militares abusivas de treino para “endireitar” os jovens delinquentes.Os fins justificam os meios? A resposta, durante o filme, ficará certamente ao critério de cada espectador. Numa espécie de documentário ficcional – estes campos existem na realidade e foram já motivo de vários debates públicos nos Estados Unidos da América -, o canadiano Christian Duguay, realizador de “The Art of War” e “Screamers” orquestra um thriller psicológico competente, com uma narrativa repleta de conflitos internos relacionados com questões de justiça, corrupção e poder. Além do já referido Peter Stormare, destaque positivo para a atraente Mila Kunis, que cumpre com sobriedade o seu papel.
segunda-feira, abril 12, 2010
My Kid Could Paint That (2007)
Em “A Minha Filha Podia Pintar Isso”, o documentarista americano Amir Bar-Lev propõe-se a acompanhar de perto um fenómeno extraordinário que começava a fascinar milhares de famílias norte-americanas, através de diversos talk-shows “Oprah style”, mas também os mais conceituados críticos de arte de todo o planeta: a história de uma criança de quatro anos, a pequena Maria Olmstead, cujos quadros abstractos rendiam já centenas de milhares de dólares (aos pais), sendo a sua técnica de pintura já comparada aos maiores artistas da história da arte moderna. No entanto, quando em pleno processo de filmagens do documentário, o conceituado “60 Minutos” elabora uma reportagem que lança a dúvida da autoria das obras - graças a uma gravação de uma câmara oculta de Maria a pintar - atribuindo o esmero ao pai, também pintor, Bar-Lev fica sem saber para onde se virar. E o que era suposto ser um documentário de exaltação de uma criança prodígio rapidamente transforma-se num projecto ambíguo sobre a verdade. Seja ela qual for.Analiticamente, a verdade indiscutível é que acaba por ser esta revelação escandalosa que dita não só o sucesso comercial e mediático do filme, mas que também coloca a nu as fragilidades técnicas e narrativas de Bar-Lev, que não só não consegue descobrir – ou pelo menos supor - tal falcatrua após semanas a acompanhar os Olmstead, como depois de ser surpreendido pela reportagem da CBS não tem coragem suficiente para decidir um rumo a tomar, acabando o seu documentário por deixar mais dúvidas em relação à honestidade da genialidade de Maria do que respostas. Porque se os Olmstead não tinham mesmo nada a esconder, porque não pedir-lhes para instalar uma câmara oculta – já que na presença de estranhos, Maria supostamente distraí-se demasiado e não conseguia “fazer das suas” - que cobrisse as criações da pequena rapariga? Em suma, “My Kid Could Paint That” é uma história/conspiração fascinante que merecia no leme alguém com coragem suficiente para assumir um genuíno trabalho de investigação que respondesse a uma simples questão: seria – ou será ainda – Maria uma verdadeira criança-prodígio ou vítima ingénua de uma fraude parental?
sexta-feira, julho 10, 2009
King of California (2007)
Estreia absoluta na realização do desconhecido Mike Cahill – que até aqui não tinha feito nada mais na indústria além da edição de alguns documentários de segundo plano e a escrita de uma ou outra obra literária ficcional -, “O Rei da Califórnia” é uma película típica do cinema independente norte-americano, apadrinhada – que é como quem diz, produzida – por Alexander Payne, um dos nomes mais fortes desta corrente nos últimos anos. A história, para não fugir a uma das regras-chave recentes de sucesso para as fitas independentes, foca-se nas relações interpessoais de uma família disfuncional, neste caso entre uma uma filha que é adulta e um pai que é criança.A razão para tal é simples. Miranda (a sensacional e então promissora, agora certeza, Evan Rachel Wood) é, aos dezasseis anos, uma rapariga que já sofreu todas as desilusões possíveis na vida e, mesmo assim, sobreviveu e continua a lutar por uma existência feliz. Abandonada pela mãe e sem a companhia do pai (Michael Douglas) – internado num manicómio -, abandonou a escola, comprou o seu carro pelo eBay e trabalha num McDonald’s para pagar a renda da casa. O pai, agora de regresso a casa, não parece ter melhorado. Aliás, muito pelo contrário: veio obcecado com a possível existência de um tesouro espanhol na região da Califórnia, onde os dois moram. Sem coragem para contrariar a felicidade e a odisseia do pai, Miranda vai acompanhá-lo numa aventura surreal que, aos poucos, vai ganhando forma.
A primeira nota – e logo de desagrado - vai para a distribuição nacional do filme. Com estreia absoluta internacional em Janeiro de 2007, “King of California” esteve inicialmente para estrear nos cinemas portugueses no primeiro semestre de 2008. Não o fez e foi sendo consecutivamente adiado, mês após mês, até Maio de 2009. Não há muito a ser dito que não fique explícito no intervalo temporal descrito. Para fechar a questão, basta relembrar que o filme foi lançado em DVD no restante continente europeu entre Janeiro e Maio... de 2008. Não será este “nim” das distribuidoras – que não deixa o filme estrear nos cinemas nem saltar logo para o mercado de DVD – o maior incentivo possível à tão combatida pirataria?
Outra consequência – e essa ainda mais desagradável – é não ter tido a oportunidade de acompanhar o crescimento de uma grande actriz. Evan Rachel Wood demonstrava aqui, ao lado do talentoso e multi-dimensional Michael Douglas, ser um das figuras de maior potencial na sua geração. A confirmação – “The Wrestler” -, no entanto, chegou primeiro que o testemunho de uma promessa. Em suma, uma comédia simples e simpática, que não deslumbra mas serve para espairecer dentro de um género cada vez mais comercial e rotulado por fórmulas de bilheteira.
terça-feira, março 10, 2009
Next (2007)
Ilusionista em Las Vegas, Cris Johnson (Nicolas Cage) tem um segredo que é tanto um dom como uma maldição: antever com frequência o que vai acontecer alguns momentos após as suas visões. Quando um grupo terrorista ameaça detonar uma bomba nuclear em Los Angeles, Callie Ferris (Julianne Moore) vê-se obrigada a convence-lo a ajudar o governo, de modo a que as intenções do grupo terrorista saiam furadas. O problema é que, mais cedo ou mais tarde, Cris terá que escolher entre salvar a vida da mulher que ama (Jessica Biel), ou a de milhares de norte-americanos.Por mais interessante – apesar de batida – que pudesse ser a premissa do filme do neo-zelandês Lee Tamahori (“Die Another Day” e “XXX: State of the Union”), poucos minutos bastaram para se perceber que pior que a banalidade dramática da intriga, Cage só teria para oferecer outro dos seus intrigantes penteados. Repleto de lugares comuns no género, “Next – Sem Alternativa” é um fósforo em chama que rapidamente se incinera a si próprio, numa mistura insonsa de desenvolvimentos românticos com fogo-de-artifício artístico. Uma tentativa frustrada de filme-puzzle sem categoria para deixar marca no espectador.
segunda-feira, fevereiro 09, 2009
Teeth (2007)
“Todas as rosas têm espinhos”, afirma uma das premissas do filme. Uma noção simplista, no entanto, para aquilo que o realizador Mitchell Lichtenstein apresenta em “Teeth”, uma comédia de terror que surpreendeu o público e a critica independente no Festival de Sundance em 2007. De resto, a actriz principal Jess Weixler, detentora da mutação mitológica que dá asas à narrativa de Lichtenstein, acabou mesmo por vencer a categoria de melhor actriz dramática, contrariando todas as previsões que atiravam a estreante norte-americana para as segundas linhas da competição.A sinopse é original – e realmente baseada, tal como uma rápida pesquisa confirma, num mito denominado “Vagina Dentata” - e assenta perfeitamente no género estilístico da obra. Dawn é uma rapariga católica que acredita que deve manter a sua virgindade até ao casamento, mesmo que os impulsos do seu corpo a incentivem em direcção contrária. Ao ser violada por um dos seus melhores amigos, descobre que os seus genitais não são bem como o de todas as outras mulheres, quando o capa impiedosamente (Lichtenstein não tem problemas em mostrar na grande tela o que resta e o que não resta), num festival femininista ambíguo que satiriza a noção de pureza cristã ao mesmo tempo que dá à mulher o poder bruto usualmente machista dos abusos sexuais. Uma proposta interessante para quem pretende fugir à normalidade, apesar de, enquanto comédia negra, “Teeth” ter sido claramente alvo de uma abordagem desequilibrada.
domingo, fevereiro 01, 2009
The Air I Breathe (2007)
“O Ar qur Respiramos” - obra de estreia do realizador nova-iorquino Jieho Lee – é uma fábula cinematográfica que se baseia num egrégio provérbio chinês que divide a vida em quarto emoções principais: Felicidade, Amargura, Amor e Prazer. Desta forma, a película é composta por quatro segmentos conexos que se centram em personagens que representam cada uma dessas emoções. Aliás, os próprios segmentos podem ser tidos em conta como as emoções que simbolizam. Num estilo narrativo semelhante ao de “Babel” ou “Crash”, “The Air I Breathe” é um filme filosófico em muitos sentidos, que acompanha o romance arriscado entre Pleasure (Brendan Fraser), um gangster que consegue ver o futuro, e Sorrow (Sarah Michelle Gellar), uma estrela de música pop em ascensão. Mas também a história de Happiness (Forest Whitaker), um honesto banqueiro que anda a tentar escapar da morte lenta que é o seu trabalho quotidiano. E, por fim, o enredo que envolve Love (Kevin Bacon), um médico que está apaixonado por Gina (Julie Delpy), a mulher do seu melhor amigo. Apesar das personagens acreditarem que as suas vidas são subordinadas pela sorte e pelo o acaso, as suas decisões irão provar que o destino é construído pela personalidade e pelas escolhas de cada um. Em suma, a questão não é como vamos morrer, mas sim como vivemos até esse dia.Entre muitas virtudes e alguns defeitos, pertence a Fraser a principal nota de destaque do filme de Jieho Lee: é a sua personagem que interliga todas as outras. É ele o anti-herói que prevê o futuro de todos aqueles com quem contacta, mas que não o consegue alterar por mais devastadoras que sejam as previsões. Numa interpretação poderosa, Fraser domina a narrativa com a atitude e o talento de alguém que gosta de se destacar nas produções independentes, só para mais tarde se afundar em aventuras megalómanas de estúdio, sem cabeça nem coração. Um desempenho de elite, filosófico na sua essência. Tecnicamente, a realização não desilude de todo, mas a forma como as diferentes narrativas acabam por ser interligadas demonstra alguma imaturidade e incoerência estrutural. E quando se dispõe de um elenco portentoso, com vários nomes capazes de envergonhar algumas das maiores produções de Hollywood, não se deve menosprezar nenhum deles, correndo o risco de, um pouco por todo o lado, alguém como eu apontar essa falha. É que deixa um pequeno travo de desilusão apenas sermos presenteados com alguns escassos minutos de actores com o calibre de Delpy ou Bacon.
sábado, janeiro 24, 2009
Son of Rambow (2007)
Will Proudfoot é um rapaz com uma originalidade criativa desmedida. O seu caderno, onde página após página esboça alguns desenhos que, em sequência, narram uma breve história, é exemplo maior disso mesmo. No entanto, Will vive sobre a alçada de uma família extremamente religiosa, que lhe interdita o acesso à televisão, ao cinema e a todas as restantes tentações do mundo moderno. O controlo é tão restrito que, mesmo na escola, Will é obrigado a sair da aula sempre que um documentário é passado na sala de aulas. E é numa dessas ocasiões, quando espera no corredor pelo fim de um visionamento, que conhece Lee Carter, um dos mais problemáticos rufias da escola. Entre artimanhas e ciladas de Carter – que precisava de alguém que o ajudasse num vídeo caseiro que pretendia mandar para um concurso da BBC -, Proudfoot acaba por ir passar a tarde à abundante mansão do “novo amigo”, onde vê pela primeira vez um filme: uma cópia pirateada de “First Blood”. Enamorado de imediato pela Sétima Arte, decide encarnar o herói da fita e ajudar Lee Carter no seu “filme”.“Filho de Rambow – Um Novo Herói” é uma obra encantadora mas também infantilmente desequilibrada. Com vários altos e baixos na sua linha narrativa – tanto somos presenteados com vários momentos de genialidade, como com alguns períodos ligeiramente prolongados de aborrecimento, com pouca substância que realmente contribua para o desenrolar dos acontecimentos ou para o estudo das personagens –, o britânico Garth Jennings volta a evidenciar algumas das lacunas estruturais que marcaram pela negativa a adaptação cinematográfica de “The Hitchhiker's Guide to the Galaxy”, a sua primeira experiência de realização. No entanto, a forte premissa de uma odisseia juvenil na era do VHS – e quantos de nós não nos identificamos com os desejos e as motivações da personagem principal – e um conceito artístico bem trabalhado, que mistura, por variadas vezes e de forma eficaz, a acção real com o mundo da animação asseguram que a verdadeira alma de “Son of Rambow” prevaleça sobre as eventuais falhas da fita.
Ainda para mais, ou muito me engano ou “Son of Rambow” será posteriormente recordado como o filme que lançou para as feras uma estrela do cinema britânico: não o principal Bill Milner, algo inseguro na primeira metade da obra, mas sim Will Poulter, que, apesar de interpretar uma personagem problemática, consegue conquistar o coração da audiência e executar na perfeição as transições entre as suas facetas ambivalentes de brigão e de “companheiro de sangue”. Esta sua auspiciosa performance de estreia valeu-lhe já inclusive um importante papel no próximo capítulo cinematográfico de “The Chronicles of Narnia”. Em suma, e apesar do caminho algo acidentado, o delicioso final da obra conquista os mais nostálgicos e justifica alguma sobrevalorização por parte da crítica virtual – território da geração da cassete pirata.
quarta-feira, janeiro 14, 2009
Captivity (2007)
Jennifer Tree - a promissora Elisha Cuthbert - é uma modelo em voga nos Estados Unidos. A sua imagem faz parte do quotidiano de milhões de pessoas, invadidas pela sua forte presença mediática e publicitária. No entanto, uma vida de sonho pode tornar-se motivo e razão para o mais caliginoso dos pesadelos: o de um cativeiro mórbido, aparentemente provocado por um admirador sem escrúpulos. Exercício pouco autoral do britânico Roland Joffé, responsável por obras tão importantes na década de oitenta como “The Mission” ou “The Killing Fields”, “Captivity” é, mais do que um projecto falhado de um realizador que perdeu-se pelo caminho, uma ode ao desaproveitamento de uma ideia interessante, sem bases de suporte num argumento atonitamente previsível.Do desvendar do assassino - enquanto os motores ainda aqueciam - através do olhar característico do actor Pruitt Taylor Vince, à trivialidade e vulgaridade do desfecho, que devido à falta de personagens alternativas apresentadas é facilmente descortinado, tudo em “Cativeiro” parece artificial. Não há um pingo de inteligência ou sentido nos quebra-cabeças apresentados e nem a sensualidade de Elisha Cuthbert é suficiente para salvar o filme da calamidade narrativa. Resta esperar que Roland Joffé não cometa os mesmos erros e faça de “You and I”, uma vez mais, uma simples passadeira de exibição de uma actriz televisiva em ascensão – neste caso, Mischa Barton.
quinta-feira, dezembro 25, 2008
Awake (2007)
Por vezes quem pensa que tem tudo esquece-se que a sua condição de ser humano o coloca automaticamente numa esfera de fragilidades infinitas. Dinheiro, amor e felicidade podem, de um momento para o outro, ser supérfluos, quando um coração falha e a única hipótese de sobrevivência resume-se a um transplante urgente e perigoso. No entanto, Clay Beresford não esperava que a sua operação fizesse parte de um esquema que colocará em causa, não só os seus sentimentos, como sua a própria vida.“Acordado” foi mal recebido pela crítica um pouco por todo o lado. Classificado como irritante e pouco credível por alguns dos mais conceituados jornais norte-americanos, “Awake” baseia a sua linha narrativa na premissa supostamente verídica de que uma em cada quinhentas pessoas que são anestesiadas permanecem conscientes durante as cirurgias a que são submetidas. Com este interessante ponto de partida e um elenco jovem mas competente, a verdade é que “Acordado” acabou por ser, segundo uma perspectiva pessoal, uma das mais agradáveis surpresas do ano.
Sob a surpreendente batuta de Jody Harold, que com “Awake” estreou-se duplamente na indústria como realizador e guionista, a fita surpreende por variadas vezes ao revelar frequentemente segredos inesperados de várias personagens, que acabam por se interligar pelas piores razões possíveis. Com um espaço limitado de actuação – o bloco operatório e a sala de espera -, o talento da veteraníssima Lena Olin e do “anjo negro” Jessica Alba asseguram no entanto que a obra nunca caia em aborrecimento. Pena apenas que grande parte das intenções das personagens derivem de uma conjugação de factores demasiado fortuitos para serem aplicados a nível dramático.
sábado, outubro 11, 2008
Transformers (2007)
A guerra deles, o nosso mundo. Uma curta mas perspicaz premissa que sustenta a adaptação de uma das mais famosas sagas de animação dos anos oitenta, com ajuntamentos gigantescos de admiradores um pouco por todo o lado. Uma guerra, que, como tantas outras, opõe o Bem e o Mal. Autobots contra Decepticons. Extinção versus sobrevivência. Sam (Shia LaBeouf) e Mikaela (Megan Fox) são dois estudantes que, inconscientemente, se tornam peças fundamentais nesta batalha. Uma batalha visual delirante que, para infortúnio dos cinéfilos mais exigentes, derrota o desígnio do equilíbrio estrutural de uma narrativa cabal.Entretenimento fantasista desmiolado com pinta revivalista. Eis uma boa síntese do que Michael Bay nos oferece em Transformers, um blockbuster em todos os sentidos – até na parte da rapariga de sonho, representada na perfeição pela lasciva Megan Fox -, carregado de sequências de acção que deleitam mesmo qualquer protestante activo dos baldes de pipocas na escuridão de uma sala de cinema. No seu estilo clássico de realização, Bay oferece um subtil toque de humor à película, tornando-a mais tolerável e menos esquecível. O conceito irrisório acaba por entranhar-se no espectador, privilegiando a recepção sensorial, mas também contribuíndo para uma maior desilusão devido à vacuidade dramática da fita. Em suma, estamos perante um filme trivial que, ao contrário do que é dito a certa altura no filme, não bate, nem de perto nem de longe, Armageddon. Fica o franchise.
domingo, setembro 14, 2008
Breach (2007)
Eric O’Neill (Ryan Phillippe) é um jovem e ambicioso agente do FBI, usualmente destacado para trabalhos menores de vigilância, que um dia é chamado ao gabinete de Kate Burroughs (Laura Linney) para ser destacado para a sua primeira missão de campo: infiltrar-se junto de Robert Hannsen (Chris Cooper), um dos mais antigos agentes da casa, enquanto secretário deste e reportar todos os seus passos, de modo à agência arranjar provas de que este era um prevaricador sexual, que não merecia ostentar o estatuto de director. Mas será esse o verdadeiro motivo de toda esta investigação?"Quebra de Confiança" é uma obra baseada na história verídica do maior espião da história dos Estados Unidos da América, que durante décadas forneceu aos russos informações privilegiadas e alguns dos segredos mais importantes do governo norte-americano. Realizado pelo inexperiente e desconhecido Billy Ray – que até este projecto, apenas tinha trazido ao grande ecrã outra história baseada em acontecimentos reais, "Shattered Glass – Verdade ou Mentira"-, "Breach" proporciona a Chris Cooper a melhor interpretação da sua carreira. Arrogante, paranóico, altivo e insolente, Cooper assina um desempenho brilhante que leva a narrativa a um nível ímpar, que foge da banalidade graças à intensidade e ao realismo que este confere à sua personagem.
Aliás, podemos mesmo pensar o que teria sido de "Quebra de Confiança" se, em vez de olhar para a história do ponto de vista de O’Neill, o tivesse feito da perspectiva de Hannsen. Assim, perdemos um estudo psicológico aprofundado da sexualidade pouco ortodoxa do espião e das suas convicções enquanto traidor de uma pátria que jurara defender e proteger. Apesar disso, há que dar crédito a Billy Ray por, pela segunda vez na sua carreira, saber construir um thriller interessante, mesmo depois de oferecer ao espectador o seu desfecho logo à partida. A trivialidade da reconstituição é disfarçada com a inteligência de um trio de personagens que fogem aos esteriótipos deste género de adaptações. E, já agora, pelo ambiente sombrio e frio que a direcção de fotografia consegue criar.
terça-feira, setembro 09, 2008
Fracture (2007)
Ted Crawford (Anthony Hopkins) é um astuto engenheiro de estruturas que, ao descobrir que a sua mulher o trai com um detective da polícia, decide assassiná-la a sangue frio, na sua própria casa. Com uma serenidade impressionante e esquiva, aguarda pacientemente pela chegada da polícia e deixa-se prender com a suposta arma do crime na mão. Em vias de subir na carreira, o advogado Willy Beachum (Ryan Gosling) aceita ficar com o processo de acusação, que toma como certo, já que uma confissão verbal e escrita de Crawford dão a entender que este já era um caso encerrado, sem volta a dar. Mas a batalha pela verdade nem sempre está em harmonia com a guerra da justiça, e os jogos psicológicos entre o lobo e a raposa só agora vão começar.Gregory Hoblit é uma figura intermitente na esfera cinematográfica de Hollywood. Responsável pelo primoroso “A Raiz do Medo”, e pelos aceitáveis “Em Defesa da Honra” e “Frequência”, Hoblit gosta de basear as suas narrativas em pressupostos judiciais e legais, sem falsas pretensões nem tiques de estrela – leia-se planos ousados e moralismos irrisórios. Em “Ruptura”, no entanto, Hoblit desilude quem esperava por um digno sucessor da obra que catapultou Edward Norton para a ribalta – a espera era justificada, já que a temática era a mesma - e oferece desde os primeiros minutos ao espectador os contornos de um crime cuja solução só às personagens adjacentes escapa. Independentemente da porta de saída escolhida, sabemos desde o início qual será o resultado final do desfecho da trama. Prova disso são os dois finais alternativos – disponíveis da versão em DVD -, que demonstram a total falta de imaginação – ou será capacidade? – em fugir ao destino previsível de um thriller que surpreende a espaços, mas que nunca deslumbra o mais exigente dos cinéfilos.
Assim sendo, o grande trunfo de “Fracture” é mesmo a recriação “Lecteriana” de Hopkins, que de forma fria e calculista, domina o elenco e, para infortúnio da obra, a própria narrativa. Provocante, Anthony Hopkins ofusca por completo o jovem Ryan Gosling, que não dá vazão a uma personagem rica em detalhes e maneirismos. Apesar da presença de vários elementos desnecessários e supérfluos ao desenvolvimento da história – como por exemplo a encantadora Rosamund Pike, que é usada como instrumento quase carnal de transições -, especial destaque para a curta participação de David Strathairn que, a entrar na casa dos sessenta, demonstra ser um actor que passou ao lado de uma excelsa carreira que só tem sido brilhante na última década.
sábado, agosto 16, 2008
Funny Games US (2007)
“Brincadeiras Perigosas” é um objecto raro e estranho. Um jogo provocatório de Haneke, que usa o espectador como um elemento indefeso e impotente que nada pode fazer perante as suas escolhas narrativas. A narrativa, bem como a audiência, são manipuladas de forma escandalosa e é esse desejo de poder do sexagenário realizador alemão – autor de “Caché” e de “La Pianiste” – que acaba por destituir “Funny Games US” de qualquer credibilidade enquanto obra cinematográfica. O que não invalida que enquanto jogo de expectativas e experiência artística, este remake homónimo de Haneke não seja uma sugestão portentosa para fugir às regras argumentativas tão banais quanto repetitivas do cinema moderno.A premissa é tão simples como chocante: dois jovens rapazes – interpretados magníficamente por Michael Pitt e Brady Corbet – decidem torturar, por puro prazer, um grupo de famílias que passam férias nas suas afastadas casas junto a um belo lago. Longe da cidade e sem fuga possível, este é um espectáculo de intrépida violência, moldado segundo as regras do realizador – e não as da audiência – que aproveita, segundo alguns dos mais reputados analistas cinematográficos, para criticar de forma pungente o desejo comum e trivial das audiências por violência gratuita. Mas fará sentido censurar um determinado contexto, utilizando a mesma fórmula que se repudia?
No meio de tantas questões controversas e, porque não, contraditórias, existem aspectos técnicos que, no entanto, merecem ser enaltecidos e glorificados. A realização de Michael Haneke, apesar de obsessiva, é tremendamente eficaz e segura, sabendo o alemão escolher sempre o plano mais eficaz para transmitir a sua mensagem, ocultando a irascibilidade sem encobrir o pânico e todos os sentimentos adjacentes aos actos tirânicos de Pitt e Corbet. As interpretações de todo o elenco, sem excepção nem privilégio individual, são convincentes e exímias. Escolhas que, tal como o propósito da obra, não são inocentes: poucas dúvidas há que o facto de nomes como Tim Roth ou Naomi Watts já nada terem a provar ao público de todos os quadrantes certamente serviu para “comercializar” o intelectualismo de Haneke.
sábado, julho 05, 2008
El Orfanato (2007)
Laura - a sensacional actriz espanhola Belén Rueda, que já recentemente havia brilhado em “Mar Adentro” – passou grande parte da sua infância num gigantesco mas acolhedor orfanato. Três décadas mais tarde, regressa com o seu marido e com o jovem filho adoptado seropositivo do casal ao mesmo local onde viveu os seus momentos mais felizes e compra a agora velha e abandonada mansão, sonhando construir ali a sua própria casa, bem como um lar de apoio a crianças com necessidades especiais. Mas em poucos dias, a alegria de um sonho que está prestes a concretizar-se é substituída pelo pânico de um filho desaparecido, num suposto rapto sem explicação lógica que, por isso mesmo, toma contornos misteriosos e fantasmagóricos.Com “El Orfanato”, o estreante realizador catalão Juan Antonio Bayona deixa no espectador uma marca de idoneidade inegável, que o atira de imediato para o escalão de “nome a seguir com muita atenção nos próximos anos”. Com claras influências directoriais do chileno Alejandro Amenábar e, mais propriamente, do seu “The Others”, a película de Bayona é audaz, meticulosamente eficaz no que concerne aos momentos de suspense e não entra nunca por caminhos fáceis mas previsíveis de sobressaltos repentinos. Da luminosidade aos ângulos de filmagem, passando pela cuidada sonoplastia, Bayona prova que é mais do que um simples tarefeiro competente sobre as ordens do mexicano Guillermo del Toro – que produziu e lançou o filme no mercado norte-americano -, orquestrando uma obra que acaba por ser mais inteligente na sua execução do que no seu desenvolvimento narrativo. Em “O Orfanato”, não há elementos ficcionais nunca antes vistos: apenas uma hábil utilização do que, normalmente, é transformado em demência noutras indústrias cinematográficas.
Assim, assustar a audiência não é, de longe, o único objectivo de “El Orfanato” – apesar de este o conseguir por variadas vezes ao longo das quase duas horas de fita. Ao contrário do que é costume no género, Bayona dá mais importância à angústia de uma mãe desesperada do que aos fantasmas que a ameaçam. Por isso, as suas prioridades surpreendem e convencem todos aqueles que, mais do que uma carnificina inócua instantânea, procuravam um filme enigmático e obscuro. Deste modo, podemos considerar que estruturalmente o filme é bastante sólido e, tal como o já referido “The Others”, sabe sempre sugerir mais do que aquilo que realmente relata, permitindo assim um desfecho excelso e inesperado que implora ao espectador por um encadeamento de juízos e pequenas pistas que, mais cedo, pareceram ser insignificantes.
Em suma, “O Orfanato” ressuscita um género que ainda não foi devidamente explorado para merecer ou justificar uma denominação genérica. Depois de “O Sexto Sentido” do indiano M. Night Shyamalan e de “The Others – Os Outros” de Amenábar, o trabalho de Bayona seis anos mais tarde encaixa novamente num estilo que se apresenta como de terror, mas que não o é: os espectadores são pura e simplesmente presenteados com estímulos descritivos que os levam a construir na sua própria mente uma hipótese terrivelmente assustadora, sem que para isso tenha sido necessário espetar com um monstro de faca em punho e dois metros de altura escondido na despensa da cozinha. Depois? Depois basta somar o desempenho notável de Belén Rueda enquanto mãe desesperada, mulher céptica e heroína destemida e esperar que o mundo não fique, uma vez mais, a aguardar por uma reinvenção norte-americana da película espanhola para colocar os olhos na história de Sergio Sánchez. É que quando miúdos de palmo e meio conseguem intimidar uma plateia inteira, temos a certeza que é esta a versão que queremos desfrutar.
segunda-feira, maio 26, 2008
[Rec] (2007)
Numa noite como tantas outras, uma equipa de reportagem de uma estação espanhola de televisão decide acompanhar a vida de um quartel de bombeiros local. Durante a madrugada – que estava a ser demasiado calma e apática para o gosto da jornalista de serviço - eis que surge finalmente uma chamada de emergência. Apesar de ser, segundo o telefonema, apenas uma senhora de idade presa no seu apartamento, sempre era algo para mostrar mais tarde. Mal sabiam eles que acabariam por ser encarcerados no prédio pelas autoridades, que isolam o edifício de forma célere e tresloucada. “Mas que raio se passa aqui?”, pergunta, a certa altura, o operador de imagem. “Não faço ideia! Mas não desligues essa camerâ, aconteça o que acontecer, ouviste?”, replica a jornalista. E é esta mesma a perspectiva que nos é dada: imagens aparentemente não editadas, com uma tremedeira intolerável, num estilo semelhante ao recente “Nome de Código: Cloverfield” ou ao semi-pioneiro do modo artístico representado, “O Projecto Blair Witch”.“[Rec]” foi o heróico vencedor da última edição do Fantasporto ao arrecadar o Grande Prémio de Melhor Filme, batendo o favorito à partida “El Orfanato” - outra produção espanhola - na corrida final pelo galardão. Apesar da sua curta duração – cerca de setenta e cinco minutos limpos (sem contabilizar os créditos finais, portanto) -, “[Rec]” é um mockumentário de zombies eficaz e compacto, que consegue criar, de modo incessante e de forma equilibrada um nível de tensão que se torna mais angustiante a cada minuto que passa e que culmina numa cuidada cena dramática final, que oferece ao espectador o que havia sido preterido até então: o domínio da paranóia de sugestão ao invés do medo violento e carnal que tomou, a certa altura, a fita por completo. E deste modo, Jaume Balagueró – responsável pelos levianos “Darkness” e “Fragile” - e Paco Plaza conseguem ofuscar algumas debilidades estruturais que colocavam “[Rec]” ao nível de tantas outras obras modernas de terror.
Sem grande preocupação em levar as personagens a uma plataforma mais íntima, a dupla espanhola não cai por isso mesmo no erro de recorrer a uma ligação excessivamente sentimental entre as personagens principais para dar qualquer tipo de profundidade emocional que seria desnecessária à trama. Com um elenco de cariz realista comandado pela berrante Manuela Velasco – que conquistou o Goya de Melhor Actriz com este papel -, resta regozijar o formidável esforço colocado ao serviço da sonoplastia da fita, bem como o muitas vezes desprezado trabalho de caracterização estética das monstruosidades perversas de “[Rec]”. Com remake norte-americano já com estreia marcada – e pelo que o trailer dá a entender, muito fiel à produção espanhola -, “[Rec]” é a prova de que o cinema espanhol está a ganhar notoriedade (merecida) em várias frentes, ficando cada vez menos dependente do rótulo “Pedro Almodóvar”.
terça-feira, maio 20, 2008
Youth Without Youth (2007)
“Uma Segunda Juventude” narra a história de Dominic Matei, um erudito notável que, na recta final da sua existência, desespera por não ter conseguido acabar o livro ao qual dedicou toda a sua vida. Portador e reflexo da sua impotência enquanto ser humano, Matei decide suicidar-se. Mas como que por vontade divina, nesse mesmo dia é atingido de forma fulgurante por um raio, ficando gravemente queimado mas também na posse, inexplicavelmente, de poderes rejuvenescedores nunca antes vistos. Tal caso indelével acaba por atrair atenções pouco desejadas, mas também possibilitar-lhe uma vida eterna em busca de um final para a sua obra sobre as origens da linguagem humana. Até chegar o dia em que terá que escolher entre o trabalho de uma eternidade e o amor de uma vida.“Youth Without Youth” é uma obra estranha e misteriosa, repleta de simbolismos e de pretensiosismos. Com uma liberdade criativa própria de quem vive sobre a sombra de um passado de peso, o imortalizado Francis Ford Coppola tira da empoeirada cartola uma exposição artística sem coerência narrativa nem qualquer espécie de funcionalidade enquanto sistema. Focando a personagem de Tim Roth – que esplendoroso e rutilante, encerra em si toda e qualquer virtude da fita – nas inquietações que o perturbam, Coppola demonstra ser hoje uma sombra do monstro que arquitectou nos anos setenta algumas das obras mais importantes da história do cinema norte-americano.
Sem a harmonia de outras obras recentes que abordaram conceitos como a velocidade impetuosa do tempo, a imortalidade e a morte – contemplemos o recente poema divino e transcendental de Aronofsky, “The Fountain” -, o melhor elogio que pode ser feito a “Uma Segunda Juventude” é que a sua fragmentação excessiva e exagerada da narrativa causará tanto repulsão hostil da parte de alguns como entusiasmo confuso por parte de cinéfilos mais experimentais. E porque só muito injustamente a decomposição subtil de um mito através de planos invertidos sofríveis e desconexos colocaria em causa uma filmografia digna de figurar na biografia fundamental da sétima arte, “Tetro” (o próximo filme de Coppola) continuará a ser alvo das mais altas expectativas entre todos aqueles que desta vez se sentiram defraudados. Ninguém mais do que Coppola merece uma nova oportunidade.
sexta-feira, abril 25, 2008
Death Sentence (2007)
Depois de revigorar recentemente o género de terror com o portentoso “Saw – Enigma Mortal”, o jovem realizador James Wan constrói em “Sentença de Morte” um não mais do que interessante thriller urbano de série B. Tudo começa com um genérico construído a partir de gravações caseiras, que mostram vários momentos marcantes de uma família unida e feliz. Elaborada esta introdução, Wan coloca nas suas mãos a capacidade de saltar imediatamente para o primeiro ponto de viragem – que normalmente só aparece perto do trigésimo minuto -, momento em que Nick Hume assiste ao assassinato bárbaro e demente do seu primogénito numa estação de serviço, por mero apetite voraz de um gangue local. Com a sua vida virada do avesso, Hume é ainda informado algum tempo depois que o responsável pelo crime apenas foi condenado a uma pena de prisão de meia dúzia de anos. E é nesse momento que decide retirar todas as acusações e fazer justiça pelas suas próprias mãos.“Death Sentence” é a prosopopeia cinematográfica de um maratonista que arranca em grande velocidade, ganha destaque inicial na frente da corrida, mas que acaba por não ter pedalada para manter o ritmo e chegar à meta junto dos melhores. Baseado num dos livros de Brian Garfield, o mesmo autor da obra literária que inspirou “O Vingador da Noite”, de 1974 - e que imortalizou Charles Bronson -, o filme transforma-se aos poucos numa banda desenhada negra e distante sobre a vingança como obsessão e estilo de vida. Seguindo uma relação de “violência que gera violência”, Kevin Bacon acaba por se tornar na própria escumalha que persegue, ao contrário de Bronson, que nunca abandonava moralmente o flanco dos bons da fita. E apesar de essa ter sido uma batata quente com a qual Wan não soube ainda lidar – já dizia Clint Eastwood numa das suas obras mais notáveis, “um homem tem que saber quais são as suas limitações” -, foi esse mesmo aspecto que permitiu que a grande lição a retirar do filme não tombasse para nenhum dos lados. Não há final feliz – nem sequer um final de jeito, imagine-se – nem vitória dos heróis; apenas a conclusão de que a vingança fria e crua acaba por resultar num círculo vicioso de raiva e ódio, com proventos fúteis, senão mesmo perversos.
Estamos então perante uma fita desequilibrada, onde o genial – por exemplo, aquela perseguição insigne a pé, num parque de estacionamento de vários pisos, construída e editada posteriormente de forma exímia – oscila muitas vezes com o banal – diálogos pouco trabalhados e aquele final medonhamente poético, tão grotesco como decepcionante. No entanto, subsiste a valentia enquanto entretenimento dramático desfocado de um julgamento moral dogmático. E só assim, sem grandes pretensões ou exigências, é que “Sentença de Morte” consegue ser apreciado. Caso contrário, terá simplesmente que se contentar com um par de cenas memoráveis, uma homenagem visível a “Taxi Driver” e um cameo ou outro delicioso de John Goodman, um actor constantemente esquecido por quem de direito.
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