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sábado, novembro 24, 2018

Benfica-Torino 4-3 (2012)

Documentário sem chama nem glória sobre o "Grande Torino" dos anos quarenta, considerada por muitos uma das melhores equipas da história - a selecção italiana chegou a apresentar-se com dez titulares da equipa de Turim, que levava na altura do fatídico acidente de aviação uma série de cinco campeonatos consecutivos conquistados -, a dupla luso-italiana Nuno Figueiredo/Andrea Ragusa parece nunca saber no que focar-se: no acidente, na grandiosa equipa italiana, no Benfica de Francisco Ferreira, no jogo de homenagem em si ou nas repercussões da tragédia - reduzidas a uma simples homenagem de um clube do interior, quando tanto mudou no futebol em Itália nos anos seguintes devido ao desaparecimento súbito das máquinas do Torino. Para colocar de lado - tanta entrevista sem sumo nem nada mais do que lugares comuns e memórias vazias - e procurar "Il grande Torino", telefilme de 2005 que anda por aí no videoclube do Sr. Joaquim.

sexta-feira, outubro 05, 2018

Safety Not Guaranteed (2012)

Comédia romântica repleta de charme, num tom tão intimista e minimalista quanto divertido e insólito. Um maluquinho - ou serão todos os outros que não o sabem que são - e uma jornalista estagiária em busca de uma história peculiar criam uma relação única, repleta de química graças à entrega do sempre irrepreensível Mark Duplass e da singular Aubrey Plaza, que primeiro estranha-se e depois entranha-se. Ah, e viagens no tempo. Que maravilha.

sábado, julho 21, 2018

Ruby Sparks (2012)

Uma comédia negra com uma mensagem importante, divertida e relevante sobre o amor, amar e ser amado. O poder da imaginação leva a uma conclusão óbvia - para amar é preciso ceder à intenção do poder, do controlo, das expectativas de um ser - neste caso mulher - moldado segundo os nossos ideais. Uma narrativa original, que desafia as nossas percepções, não sabe bem como responder às nossas dúvidas e prova que não existe tal coisa como um par perfeito, por mais óbvios que sejam os nossos gostos ou conceitos de um amor utópico.

quinta-feira, maio 10, 2018

John Dies at the End (2012)

Todos sabemos que Don Coscarelli criou o seu próprio sub-género de culto como realizador e guionista, com dimensões alternativas repletas de situações atípicas, personagens maradas e objectos/criaturas invulgares. "John Dies at the End", a última aventura cinematográfica de Coscarelli, não foge à regra, arranca em grande estilo com meia dúzia de cenas deliciosas capazes de arrancar um sorriso ao mais sisudo dos cinéfilos, mas rapidamente perde-se na explosão descontrolada de ideias loucas da mente labiríntica por detrás do criador da saga "Phantasm". Uma comédia de terror sobrenatural com CGI de algibeira - o que, no fundo, faz parte do seu charme - onde Chase Williamson e Rob Mayes nunca parecem estar na mesma nota, num universo sem regras que acaba por sofrer disso mesmo; a certa altura, tudo parece demasiado aleatório para construir algo minimamente coerente ou, no mínimo, consistente. Ficam as homenagens a Sam Raimi e uma maçaneta de forma fálica. E não, John não morre no final.

terça-feira, novembro 10, 2015

Spring Breakers (2012)

Mamas, mamas e mais mamas. Miúdas giras a abanarem o rabo, dólares a voar, álcool e drogas a rodos. Se "Spring Breakers" fosse um videoclip musical de um rapper qualquer em crise de pós-adolescência, esta experiência visual excêntrica passava incólume. Mas a verdade é que alguém decidiu espetar hora e meia deste excremento cinematográfico em muita gente que não estava preparada para tal e agora chegou a hora de fazer alguma justiça em nome de todos os que perderam um serão da sua vida nesta bodega. Realizado pelo guionista do revolucionário "Kids", esta viagem de finalistas não tem ponta por onde se pegar; descoordenado, confuso, despropositado, mal interpretado, pessimamente filmado e demasiado estúpido para ser socialmente relevante ou caracterizador de qualquer geração, a quem orquestrou "Spring Breakers" faltou perceber que não basta ser diferente para chocar, ter um look pop-cool para ser arte. Dar face a uma juventude perdida implica caracterizá-la, dar-lhe motivações e diligências, oferecer uma ligação emocional ao espectador que justifique uma inquietação. Imagens soltas atrás de imagens soltas, um ménage à trois aquático e o energúmeno do James Franco com uma dentadura falsa e uma cabeleira ridícula não são, nem nunca serão, sinónimos de cinema. Uma nulidade.

terça-feira, maio 19, 2015

Columbus Circle (2012)

Realizado por George Gallo - responsável por "Trapped in Paradise" e "Middle Men" e guionista de clássicos como "Bad Boys" ou "Midnight Run" - "O Apartamento de Columbus Circle" é uma experiência cinematográfica agridoce: um twist intermédio demasiado óbvio - a ausência do mesmo faria com que não houvesse qualquer história ao fim de trinta minutos de fita -, uma reviravolta final bem esgalhada; meio elenco com prestações de luxo - Selma Blair, Kevin Pollak e Giovanni Ribisi -, outros tantos em medonho piloto automático - Amy Smart, Beau Bridges e Jason Lee à cabeça. Depois, a habilidade intelectual de alguns momentos narrativos arruinada pela necessidade estranha de a explicar ao pormenor, como se o espectador fosse demasiado burro para perceber a artimanha dolosa de uma ou outra cena. Sal e açúcar na mesma receita. Uma pena quando uma actriz assombrosa como Selma Blair deixa tudo em campo.

sábado, março 14, 2015

Bekas (2012)

Dois irmãos órfãos de sete e nove anos a viver nas ruas do Curdistão iraquiano no início da década de noventa. Um filme norte-americano visto através de uma janela de um cinema de bairro que dá-lhes um objectivo de vida: atravessar o mundo e conhecer o Super-Homem, personagem forte e justa que irá resolver todos os seus problemas. Eis que pegam na sua mula (chamada Michael Jackson e com o símbolo da BMW na testa) e seguem viagem rumo aos EUA, naquele que parece ser um objectivo simples, uma road trip sem grande margem para erro na visão fantástica dos dois rapazes. Pelo caminho, nada como pensar numa lista de pessoas que o super-herói terá de castigar em seu nome, com Saddam Hussein à cabeça. Escrito e realizado pelo jovem realizador curdo Karzan Kader, "Bekas" é uma cândida e emotiva comédia dramática que usa o humor para reflectir sobre o impacto de uma guerra na vida de tantas crianças inocentes. Um certo encanto bárbaro que transforma uma narrativa simples numa epopeia de estrada tão magnífica como cruel, de amor e resiliência. Cinematografia hábil num filme-homenagem à sétima arte que merecia maior reconhecimento nacional e internacional e um final não tão aberto e frustrante.


segunda-feira, agosto 04, 2014

The Expendables 2 (2012)

Numa missão aparentemente tranquila de recuperação de um objecto misterioso localizado num avião despenhado algures na Albânia, os Mercenários são alvo de uma armadilha orquestrada pelos homens do vilanesco Jean Vilain (o delicioso Jean-Claude Van Damme, naquela que é provavelmente a interpretação mais surpreendente do grupo) e acabam por ver o seu mais jovem elemento (Liam Hemsworth) ser escusadamente degolado naquela que seria a sua última missão antes de ir viver com a namorada para França. Decididos a vingar e honrar “The Kid”, os Mercenários partem numa volta ao mundo que só pode acabar com Vilain morto. E, pelo caminho, ajudam ainda a colocar cinco mil toneladas de plutónio nas mãos certas, de modo a evitar a terceira Guerra Mundial.

Realizado desta vez por Simon West (“Con Air” e “Tomb Raider”), esse é logo à partida o grande trunfo desta sequela em relação ao capítulo de abertura da saga: West filma e edita melhor que Stallone e a fluidez narrativa agradece, mesmo no meio de tanta pancadaria e espectáculo pirotécnico. Com um elenco ainda mais utópico, “Os Mercenários 2” revela-se uma ode vaidosa – são infindáveis as referências cómico-culturais a diversos símbolos e expressões de referência dos actores em cena - ao cinema de acção dos anos oitenta e noventa, uma que mesmo caindo na previsibilidade irritante do guião crowd-pleasing, consegue construir estímulos vários nas suas cenas de acção coreografadas ao pormenor, que tornam este um exercício nostálgico e reconfortante no meio de tanto blockbuster moderno que privilegia os efeitos especiais computorizados sobre a autenticidade dos duplos e o calor agonizante das chamas. Um exemplo modesto e circunspecto de uma sequela superior ao original.

sábado, abril 19, 2014

Compliance (2012)

Baseado num caso verídico que chocou os Estados Unidos da América em 2004, “Compliance” retrata fielmente a história de uma funcionária de um restaurante de fast food que foi humilhada, espancada e obrigada a cometer actos sexuais contra a sua vontade por ordem de uma voz autoritária ao telefone que se identificava perante a gerente do estabelecimento como um agente policial com uma queixa de roubo ao balcão em mãos. Com ameaças constantes de encarceramento, investigações policiais a familiares e muitas outras balelas dominadoras previamente estudadas, o desconhecido ao telefone consegue fazer com que todos os limites do bom senso sejam ultrapassados, aproveitando o respeito da sociedade perante forças da autoridade e consequente medo de represálias em caso de irreverência.

Estreado recentemente em território nacional graças à Vendetta Filmes, distribuidora que em boa hora apareceu e recuperou para as salas de cinema lusitanas alguns produtos independentes de qualidade que caso contrário estariam condenados ao anonimato, “Obediência” revela-se um docudrama controverso – a realidade retratada é tão cruel e surreal que levou a que vários espectadores e jornalistas abandonassem a meio a première do filme no Festival de Sundance – filmado de forma magnânima pelo desconhecido Craig Zobel (“Great World of Sound”), que entre a frieza ácida das fragilidades humanas reflectidas em personagens tão débeis de espírito quanto complacentes com um comportamento em sociedade tido como exemplar – o respeito incondicional às autoridades -, e simbolismos vários que permitiram evitar o choque visual de momentos sufocantes – o enfoque numa palhinha e num balde de água suja, por exemplo, numa cena de sexo oral forçada -, consegue providenciar alguma subtileza artística a uma narrativa hedionda sobre uma sociedade alienada de valores básicos – o incidente retratado foi apenas um dos setenta similares que ocorreram em mais de trinta estados norte-americanos.

No elenco, destaque justo para a secundária Ann Dowd enquanto gerente do restaurante, que lhe valeu um galardão da National Board of Review e que, providenciam os vídeos disponíveis no Youtube sobre o caso real, assentou-lhe que nem uma luva, bem como para Dreama Walker, num papel altamente emocional e fisicamente desafiante, ao qual a jovem actriz regular em séries como “The Good Wife” ou “Apartment 23” respondeu com uma robustez e susceptibilidade impressionantes. No fim, fica o sentimento de que um documentário sobre o assunto poderia ter sido melhor recebido, mas seria sempre o drama de Zobel o melhor veículo para um McMenu de emoções. E quem quer um Happy Meal quando pode levar uma dose super de batatas?

segunda-feira, abril 07, 2014

Taken 2 (2012)

Antigo agente dos serviços secretos norte-americanos, Bryan Mills (Liam Neeson) e a família parecem já ter recuperado do trauma que os envolveu quando, alguns anos antes, a filha foi raptada em Paris por um grupo mafioso do leste da Europa, despoletando uma série de acontecimentos dramáticos que obrigaram Bryan a um one-man show de tiroteios, pancadaria e tortura de modo a conseguir salvar a sua mais que tudo de uma rede internacional de prostituição. Agora de férias em Istambul, na Turquia, mal imaginam os Mills que alguém os procura para um ajuste de contas.

Realizado por Olivier Megaton - responsável pelo simpático e competente "Colombiana" -, "Taken - A Vingança" fica a milhas do seu predecessor, a todos os níveis, por uma mão cheia de razões: para começar, falta-lhe o efeito surpresa do original de 2008, digno autor de algumas das cenas de acção - e tensão - mais carismáticas da última década; consequentemente, as expectativas elevadas de uma sequela meritória revelam-se inevitáveis, provocando um desgosto maior no espectador quando, na verdade, enquanto produto isolado "Taken 2" nem é mau de todo; depois ainda temos uma narrativa que trata como adolescente inocente uma actriz trintenária que, de miúda, pouco ou nada tem; e, pior ainda, quando a mesma criança passa de uma total aselha ao volante, daquelas que chumba no código tentativa após tentativa, para uma autêntica ás das estradas e da borracha queimada quando o perigo assim obriga. Outras incongruências narrativas mancham uma premissa ainda assim interessante - mesmo que pouco credível -, valendo-nos Neeson sentir-se quem nem peixe na água nesta personagem que lhe é indissociável. De resto, cenários ricos, ricos cenários nas bilheteiras (400 milhões contra os 45 de orçamento) e a falta de uma saga de características semelhantes à sua altura - quase todas série B as que por aí andam - levam-nos à conclusão que, para a glória ou para a desgraça, um terceiro capítulo é inevitável.

segunda-feira, março 17, 2014

21 Jump Street (2012)

Morton Schmidt (Jonah Hill) e Greg Jenko (Channing Tatum) são como azeite e água no secundário: simplesmente não se misturam, ou não fosse o primeiro um marrão de laboratório que usa as duas alças da mochila e, o segundo, um garanhão calinas cujo único objectivo é ser o rei do baile de finalistas. Mas a vida dá muitas voltas e, anos mais tarde, encontram-se na academia de polícia, onde tornam-se unha e carne ou, melhor dizendo, cérebro e músculo em conjunto. Dependentes um do outro - o primeiro não consegue correr mais do que trinta segundos, o segundo não decora sequer, de uma vez por todas, o "Miranda Warning" ("You have the right to remain silent..."), acabam por qualificar-se e ser enviados para a "21 Jump Street", um departamento secundário de investigação policial sob disfarce civil. Primeiro trabalho de infiltrados? Numa escola secundária, sítio onde não se suportavam no passado, para descobrir o distribuidor de uma nova droga. Só que agora ser nerd é cool e, inesperadamente, é Schmidt quem atrairá os holofotes nos corredores. Irá Jenko aguentar a pressão?

Comédia realizada pela dupla responsável pelas animações "Cloudy with a Chance of Meatballs" e "The Lego Movie", "Agentes Secundários" revela-se uma adaptação cinematográfica pouco fiel à série televisiva do final dos anos oitenta que lançou Johnny Depp para o estrelato. É verdade que a produção televisiva tinha os seus momentos divertidos - quase todos a cargo da personagem de Peter DeLuise -, mas a essência do seu sucesso baseava-se também na abordagem dramática e emocional que fazia sobre vários assuntos sérios como a toxicodependência ou a violência doméstica, muitas vezes com episódios sem uma única gargalhada no guião. Para vender melhor ou simplesmente por decisão artística, a verdade é que este reboot cinéfilo dedica-se somente a fazer rir o espectador e, verdade seja dita, consegue-o durante vários momentos. Seja nas homenagens à série (o gang de motards), na sequência em que a dupla principal está drogada ou na luta constante aos clichés e às convenções do género (os carros que teimam em não explodir, por exemplo), "21 Jump Street" desenrasca-se bem. Tão bem que aquele final a implorar por uma sequela era desnecessário.

domingo, janeiro 26, 2014

Room 237 (2012)

Room 237” é um documentário norte-americano de 2012 sobre possíveis interpretações e significados escondidos de alguns filmes de Stanley Kubrick, com especial enfoque na análise de “The Shining”. Um grupo de entusiastas cinéfilos - para não dizer mesmo cismáticos e extravagantes - explana as suas teorias em nove segmentos separados, focando-se cada um deles em diversos elementos na adaptação cinematográfica da obra de terror de Stephen King que, defendem, podem esconder pistas para um universo macabro de teorias e conspirações relacionadas com o mundo e com o própria vida de Kubrick.

Tributo ao amor ao cinema em geral e à obra do realizador norte-americano em particular, os conspirad…, perdão, os Kubrickistas entrevistados defendem as mais variadas conjecturas: do holocausto ao genocídio da população índia norte-americana, da participação de Kubrick na simulação da aterragem do Apollo 11 na Lua (1969) - esta foi, a nível pessoal, a que mais me prendeu ao ecrã, fazendo com que as dicas visuais sobre o assunto em “The Shining” se associassem, na minha cabeça, ao domínio pela técnica de projecção frontal que Kubrick possuía e tão bem usou de modo revolucionário em “2001: Odisseia no Espaço” (1968) - ao modo de governação norte-americano, em que o presidente é só uma fachada e quem controla serão outros nos bastidores, tornando “Room 237” uma obra de nove segmentos de difícil digestão para os mais cépticos, mas de tremendo interesse para todos aqueles que, no fundo, estão receptivos a querer perceber a lógica de raciocínio de um homem com uma inteligência fora do normal.

Sim, muitos apontamentos são completamente forçados - da história do minotauro à cara de Kubrick nas nuvens na sequência inicial - e foi o próprio assistente de realização de Kubrick em “The Shining”, em entrevista recente ao The New York Times, o primeiro a descredibilizar o documentário, afirmando que setenta a oitenta porcento das ideias apresentadas no mesmo são uma “treta completa”. O que, no meu ponto de vista, apenas significa que algumas outras estarão assustadoramente correctas. Quais? Fica a dúvida. O que importa é que ainda há quem se interesse em analisar a beleza de um filme complexo de forma tão apaixonada, mesmo que muitas vezes algumas supostas denotações escondidas não o sejam, manipulando um pouco o espectador para uma análise surpreendente e coerente que, no fundo, não o é. Ainda assim, não deixa de ser divertido e curioso descobrir a forma que Kubrick encontrou para, em pleno filme, espetar o dedo do meio a Stephen King e a todas as suas críticas durante a produção do filme.

quinta-feira, janeiro 02, 2014

Arbitrage (2012)

A festejar o seu sexagésimo aniversário, Robert Miller (Richard Gere) é presenteado com a sua cara na capa da conceituada revista Time, ou não fosse ele um dos empresários de maior sucesso nos Estados Unidos da América, milionário a pulso e pai de família respeitado. O que ninguém sabe, nem mesmo os que lhe são mais próximos, é que o seu império está à beira da falência e a sua sobrevivência depende de um último negócio, no qual a sua imagem de homem íntegro e intocável será fundamental para desvalorizar algumas incongruências financeiras que serão descobertas no processo. O problema é que nessa mesma semana, Robert irá envolver-se num trágico e fatal acidente de viação com a sua... amante, o que irá obrigá-lo a refugiar-se numa teia de mentiras e contradições que podem levar não só ao fim do seu casamento e da sua empresa, mas também ditar o seu encarceramento vitalício.

Thriller riquíssimo a vários níveis, dos valores de produção - ainda para mais se tivermos em conta o seu modesto orçamento - à magnânima interpretação de Richard Gere - sem dúvida alguma a sua melhor desde "Pretty Woman" -, "Arbitrage - A Fraude" concilia de forma muito competente duas linhas narrativas díspares (uma profissional e outra pessoal), orquestrando um sentimento omnipresente de tensão e condescendência do espectador perante uma personagem que, à primeira vista, teria tudo para ser odiada e repugnada nos seus propósitos criminosos e de ganância exacerbada. Escrito e realizado pelo promissor Nicholas Jarecki, o nova-iorquino coloca-nos várias vezes a pensar que, estivéssemos nós na pele de Robert, provavelmente faríamos exactamente o mesmo que o vilão-herói desta história, de modo a proteger todos aqueles que amamos. Se o final aberto acaba por ser algo frustrante e intelectualmente pouco recompensador depois de hora e meia de suspense em alta voltagem, destaque obrigatório deve ser dado para a forma sublime em como os vinte minutos iniciais da fita colocam-nos completamente a par da personalidade, feitio e carácter de Robert. Pena apenas que o mesmo não tenha sido feito em relação ao detective interpretado por Tim Roth, personagem esta completamente desaproveitada na sua dicotomia entre caçador e presa; uma única cena de diálogo intenso entre Gere e Roth soube a muito pouco. Moral da história? O dinheiro e o poder são um bom álibi.

terça-feira, agosto 06, 2013

This Means War (2012)

Tuck e FDR são dois dos mais competentes e polivalentes agentes da CIA. Quase sempre envolvidos em trabalhos de equipa no campo, salvando-se por várias vezes um ao outro, criaram uma amizade fortíssima que ultrapassa as portas da agência governamental norte-americana. Tudo uma maravilha até ao dia em que descobrem que estão apaixonados pela mesma rapariga e entram em competição para conquistar o coração da indecisa loira que, após muito tempo sem um relacionamento, vê-se desejada por dois homens com poucas ou nenhumas falhas - pudera, ou não tivessem eles acesso a vigilância constante a Lauren e acesso a todos os seus desejos e preferências. Por quem irá a mãe solteira optar? E estragará isso a amizade entre Tuck e FDR?

Comédia romântica de espionagem - light, muito light - com pouca acção mas muita sedução pateta, "This Means War" revela-se entretenimento despretensioso acima da média, muito por culpa da química entre Chris Pine e Tom Hardy nas cenas conjuntas. Melhor enquanto Bromance do que na sua vertente de romance, "Guerra é Guerra" triunfa ao não exagerar nas perseguições ou tiroteios do costume no género, mas sim ao focar-se com dedicação na comicidade inerente ao triângulo amoroso que dá vida ao filme. Pine e Hardy dificilmente seriam escolhas óbvias para tal enfoque - mas desenrascam-se bem, diga-se a verdade - e Reese Witherspoon, mesmo sem conquistar a tela e demonstrar a razão de tanta paixão, convence enquanto interesse amoroso tão ingénuo quanto irresistível. De resto, uma realização competente do tarefeiro multifacetado McG e várias gargalhadas com a personagem de Chelsea Handler - que limitou-se basicamente a ser ela própria na pele de Trish - transformam este "This Means War" numa recomendação simpática de domingo à tarde.

sexta-feira, agosto 02, 2013

Sightseers (2012)

Apaixonado pela singular Tina, o aparentemente normal Chris convida-a para uma extravagante viagem de caravana pelos locais do Reino Unido que marcaram a sua vida. Habituada a estar por casa a tratar da mãe - que, já agora, não vai nada à bola com Chris -, Tina vai conhecer um lado de Chris que desconhecia: nada mais nada menos do que o de um psicopata assassino que não consegue lidar com adolescentes barulhentos ou adultos preguiçosos. Mas será Tina assim tão diferente de Chris?

Escrito pela dupla que dá vida aos personagens-chave do filme de Ben Wheatley ("Kill List"), "Sightseers" revela-se a maior desilusão britânica a estrear em salas nacionais dos últimos anos, um verdadeiro desastre ambulante a nível de guião, que não é nem de perto nem de longe colmatada por uma direcção de fotografia e realização ainda assim competentes. Sátira suburbana que de comédia negra tem muito pouco - e de terror muito menos, apesar de muitas das suas cenas de violência serem gratuitas e gráficas demais para estarem em sintonia com uma "simples" comédia negra -, são poucos ou nenhuns os sorrisos em noventa minutos de fita, mas muitas as caras de espanto quando sangue a jorrar ou caveiras aparecidas do nada são usadas, separadamente, como tentativas infundadas de comic relief no espectador. Wheatley tenta fazer de "Assassinos de Férias" um espécie de "Straw Dogs" humorístico com toques de "Bonnie & Clyde", mas falha rotundamente, fazendo como que dois filmes incompletos num só, dois estilos completamente antagónicos que chocam ainda em histórias colaterais - como a do cão - que pouco ou nenhum sentido fazem na narrativa. Exótico, dirão alguns; incompreendido adjectivarão outros; ora bem, para mim não passou de hora e meia inóspita e vazia, sem entretenimento nem interesse dramático.

segunda-feira, julho 29, 2013

Passion (2012)

Isabelle (Noomi Rapace) é uma das funcionárias mais criativas da filial de Berlim de uma multinacional de publicidade sediada em Nova Iorque. Numa relação de intimidade estranha com a sua directora Christine (Rachel McAdams), Isabelle vê o crédito e o mérito de uma ideia sua - que se revelaria revolucionária no mercado dos smartphones - serem assumidos descaradamente por Christine, que sem dó nem piedade procura uma promoção para a agência mãe. Essa traição vai dar início a um jogo tão mórbido quanto erótico de jogadas moralmente questionáveis para tomar controlo da situação, colocando as duas executivas numa espiral perigosa de emboscadas e infidelidades que acabarão por as levar ao abismo.

Regresso ao activo do carismático Brian de Palma, autor aclamado de clássicos como “Scarface”, “The Untouchables” ou “Femme Fatale”, “Passion” é um remake algo desinspirado do não muito distante francês “Crime d’Amour”, do já falecido Alain Corneau. Mesmo com os temas do realizador que nos conquistaram durante décadas presentes, da traição aos gémeos inesperados, da troca de identidades ao ecrã dividido em momentos completamente antagónicos – neste caso, um assassinato e uma dança de ballet -, “Paixão” apenas provoca sensações fortes na última meia hora, desleixando-se enquanto thriller em toda a sua construção narrativa, brincando no final com reconstituições fundamentais para atrair o espectador para um guião tão desequilibrado quanto muito pouco erótico - uma maminha de Noomi Rapace não chega, querido Brian -, ao contrário do que tinha sido prometido por todo o trabalho de promoção da obra e, porque não, resultante das expectativas de uma carreira de mestria a esse nível por parte do realizador norte-americano.

Muito – e quase sempre bom – mise em scène, um leve toque hitchcockiano e muitos sonhos dentro de sonhos numa fita que, quando chega ao seu clímax audacioso, já criou demasiados anticorpos no espectador. A câmara de Brian de Palma arrasta-se agora onde um dia dançou – culpa talvez do baixo orçamento desta produção franco-germânica – e a forma como os diálogos fundamentais entre Rapace e McAdams manifestam-se dramaticamente ineficazes deixa o espectador a pensar se uma troca de papéis directa não teria sido uma melhor escolha de casting. O talento, do realizador ao elenco, está lá. Mas, ironicamente, falta paixão a este “Passion”.

sexta-feira, julho 26, 2013

Django Unchained (2012)

Século XIX, algures nos longos descampados do Texas: King Schultz (Waltz) é um caçador de recompensas germânico à procura de um escravo negro de seu nome Django (Foxx), não para o matar, mas para o comprar e assim torná-lo num homem livre em troca de informações relacionadas com um trio de irmãos que, vivos ou mortos, valem uma fortuna. Posteriormente treinado e ensinado por Schultz para sobreviver enquanto caçador de recompensas, Django sente-se preparado para procurar a sua esposa Broomhilda (Washington), de quem perdera o rasto após uma tentativa falhada de fuga dos seus antigos "donos". Será na plantação do poderoso Calvin Candie (DiCaprio) que a encontrará; mas o mais difícil ainda o espera, ou não fosse o seu resgate revelar-se uma negociação perigosa e armadilhada para todas as partes, onde preconceito racial e ganância exacerbada podem originar um banho de sangue interminável.

Escrito e realizado por Quentin Tarantino, "Django Unchained" é uma comédia negra em formato de Western Spaghetti ao bom estilo vingativo e violento com que o realizador norte-americano gosta de pulverizar os seus trabalhos. Num mesmo patamar para o período negro da escravatura nos Estados Unidos da América que o seu recente "Inglourious Basterds" estava para a influência do nazismo na Europa durante as primeiras Grandes Guerras Mundiais, Tarantino oferece ao espectador uma visão propositadamente facciosa e surreal da História, usando os seus desejos, ideais e convicções para moldar períodos chave da Humanidade ao seu gosto, orquestrando alternativas narrativas impensáveis para cada um desses acontecimentos marcantes.

Ainda assim, e mesmo consagrando-se como um muito competente e original produto de entretenimento para massas, "Django Libertado" é inferior a vários níveis a "Sacanas Sem Lei", começando pela falta de profundidade que é dada a Django a partir do segundo terço da fita, deixando-o ao alento de uma interpretação não mais do que decente de Jamie Foxx quando comparada à de actores (Waltz, DiCaprio ou Jackson, por exemplo) cujas personagens foram aproveitadas até ao limite das suas capacidades. À parte de uma lição filosófica freudiana sobre o bem e o mal, não acompanhamos a transformação de Django de escravo a pistoleiro, de analfabeto inseguro a líder convicto, tendo-se perdido essa dimensão extra da sua personagem numas fatídicas letras que anunciaram no ecrã "vários meses depois". Num exercício de classicismo tarantinesco, onde uma cinematografia de excepção é conjugada de forma magistral com uma sonoplastia tão ecléctica quanto hipnotizante, "Django Unchained" satisfaz o espectador menos pudico na forma como as suas contradições entre sacrifícios e sobrevivência, os seus hábeis diálogos - principalmente nos primeiros quarenta a cinquenta minutos - e o seu humor satírico misturam-se num cocktail vingativo e sangrento onde poucos ou nenhuns escapam à ousadia do mestre - nem sequer os desconfortáveis capuzes brancos dos Ku Klux Klan.

domingo, julho 07, 2013

Searching for Sugar Man (2012)

Sixto (sexto filho de um casal de imigrantes mexicanos) Rodriguez é desde os anos setenta uma estrela pop rock ao nível dos Beetles e dos Rolling Stones na África do Sul. O único problema é que o terceiro artista mais vendido de sempre na terra de Mandela, cujas músicas foram um símbolo de liberdade, esperança e revolução em tempos conturbados de apartheid, não fez ideia disso até 1998 e, pior do que tudo, nunca lucrou com o seu trabalho pois todas as empresas que distribuíam as suas músicas nos mais variados formatos acreditavam - ou dava-lhes jeito acreditar - num velho mito que o desconhecido norte-americano se tinha suicidado em palco no início de carreira, pegando fogo a si próprio. E é exactamente a tentar descobrir detalhes dessa morte macabra que dois fãs do artista - um jornalista e o dono de uma loja de discos na Cidade do Cabo - vão descobrir que, não só este não morreu em palco dessa forma tão sádica, como está bem vivo numa cidade no interior do Texas, a trabalhar na construção civil.

Com uma voz a meio caminho entre gigantes como Leonard Cohen e Bob Dylan, Rodriguez vendeu meia dúzia de discos aquando do lançamento dos seus dois álbuns em 1970 ("Cold Fact") e 1971 ("Coming From Reality") nos Estados Unidos da América. Rendido ao facto que a música não lhe garantiria subsistência nesta vida, dedica-se à construção civil e não guarda sequer um único exemplar dos seus álbuns. Trinta anos depois, do nada, descobre que é um ícone num país que desconhece. É essa jornada do zero ao tudo, de lenda morta a herói vivo, que acompanhamos de forma surreal e comovente em "Searching for Sugar Man", documentário do sueco Malik Benjelloul que venceu recentemente um Óscar e um BAFTA.

Filmado em algumas cenas com um simples iPhone - por falta de financiamento -, recorrendo várias vezes a imagens de arquivo acompanhadas pelas músicas do até aqui desconhecido Rodriguez - e possuidor de uma alma excepcional, "À Procura de Sugar Man" relata-nos um caso tão absurdo quanto espectacular do efeito da internet na construção de um mundo global, onde a informação não fica mais retida entre continentes nem é separada por muros, oceanos ou ditaduras. Depois de anos de investigações, bastou uma simples página com um pedido de procura de informações na world wide web para receber um telefonema da filha de Rodriguez e desvendar um mistério que se condensava há décadas. Depois, uma narrativa bem construída, com um timing perfeito na ligação dos diversos elementos que prendem o espectador à expectativa da revelação seguinte tornam este documentário uma das mais interessantes obras a estrear em 2013 nas nossas salas de cinema.

sexta-feira, junho 21, 2013

Shanghai Calling (2012)

Sam Chao é um jovem e promissor advogado numa das mais conceituadas empresas de advocacia de Nova Iorque. À espera de uma promoção profissional eminente, Sam é no entanto desafiado a provar que merece o estatuto de sócio com uma deslocação de três meses a Xangai para liderar a nova filial da empresa na cidade chinesa. De origens asiáticas mas sem saber uma palavra de mandarim, aceita mudar-se de malas e bagagens para o outro lado do planeta, levando consigo a arrogância de quem se julga superior aos advogados e habitantes locais, sem perceber que neste caso é ele, o americano, o imigrante à procura da felicidade e de uma oportunidade na cosmopolita Xangai.

Escrito e realizado pelo estreante Daniel Hsia, "Shanghai Calling" revela-se uma comédia romântica simpática mas absolutamente banal, repleta de lugares comuns e perpetuada num conjunto de planos tão universitários quanto ineficazes e irrealistas. Nas mãos de um tarefeiro mais experiente, a narrativa e o pano de fundo da película financiada e apoiada pelo governo chinês teria sido um caso sério de promoção turístico-cinematográfica de excelência, capaz de fazer pela misteriosa Xangai o que Woody Allen já fez com, por exemplo, Barcelona, Londres ou Paris - para não falar da óbvia Nova Iorque. Aliás, numa história com ideias cómicas e conceitos de choque culturais tão ricos e complexos como esta oferecia - do Awesome Wang à Americatown -, arriscaria dizer mesmo que é uma pena que este projecto não tenha caído nas mãos de Allen. Mas nem tudo é mau: o elenco é consistente, a vitória do moralmente correcto sobre a ambição cruel confere algum requinte, a química entre Amanda (Eliza Coupe) e Sam convincente e Daniel Henney um nome para relembrar no futuro. E, para o fim, a pergunta inevitável: não é Xangai uma das cidades mais poluídas do mundo? É que não vi uma réstia de nuvem cinzenta nos planos de Hsia. Nem sequer uma única máscara nos habitantes locais. E eu não gosto mesmo nada de ser enganado.

quinta-feira, junho 13, 2013

Jack Reacher (2012)

Jack Reacher, ex-militar responsável pela Unidade de Investigações Especiais, agora um fantasma a viver ninguém sabe bem onde nem com quem. Com uma atenção aos pormenores irrepreensível, uma memória de elefante e um sentido de justiça único – a justiça é para ele um valor que está acima do bem ou do mal -, Reacher reaparece do nada quando James Barr, um ex-subordinado seu dos tempos de combate no Iraque, é acusado do assassinato aparentemente frívolo e sem razão de cinco pessoas que passeavam junto ao rio. Inicialmente com poucas dúvidas da culpa de Barr devido ao seu passado problemático, Jack Reacher vai, no entanto, rapidamente perceber que tudo não passa de uma gigantesca conspiração empresarial que visa incriminar um ex-militar com severos problemas psicológicos.

Realizado e semi-escrito por Christopher McQuarrie, a mente brilhante por detrás do guião muito pouco convencional de "The Usual Suspects", "Jack Reacher" é uma adaptação cinematográfica muito personalizada do mítico herói dos comics policiais de Lee Child. Com uma pré-produção turbulenta devido à escolha de Cruise para o papel principal ter deixado os fãs da saga literária altamente desiludidos – a constituição física, para começar, não batia certo nem de perto nem de longe -, a verdade é que o actor consegue dar ao personagem a profundidade e o carisma que este merecia: o Reacher de Cruise é tão simples quanto refrescante e é ele quem conduz a história. Poderá ser algo redutor, mas a verdade é que Tom, a celebridade, está esgotada nas suas demais essências, da religiosa à sentimental; mas Cruise, enquanto actor, continua a ser implacável diante das camaras, uma máquina internacional de bilheteira que, quase por si só, garante sequelas a qualquer projecto com uma porta aberta a isso mesmo (e o que não falta a Jack Reacher, o herói, são livros para ser adaptados).

Por fim, destaque mais do que óbvio para o surpreendente vilão... Werner Herzog. Com uma presença estrondosa, o conceituado realizador germânico precisa de poucas falas e de poucas cenas para intimidar e, assim, credibilizar uma personagem de propósitos tão vagos quanto misteriosos. Robert Duvall, velho conhecido de Cruise na tela, dá também uma perninha com uma personagem secundária que lhe assenta que nem uma luva e a ex-vilã Bond Rosamund Pike convence o espectador na sua dicotomia conflituosa entre aspecto frágil e atitude corajosa. Apesar dos terríveis resultados de bilheteira internos, a aura internacional de Cruise salvou a Paramount de um fiasco e abriu a possibilidade de uma ou mais sequelas... merecidas.