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domingo, dezembro 13, 2015

Neighbors (2014)

"Má Vizinhança" é provavelmente uma das comédias norte-americanas de estúdio mais saudáveis dos últimos anos. É rápida (hora e meia), divertida (impossível não rir com a cena dos airbags), despretensiosa (não sente a necessidade de enganar o espectador com paneleirices narrativas românticas ou dramáticas) e, acima de tudo, descomplexada e socialmente incorrecta (não se preocupou em perder clientela com a classificação R, ou seja, maiores de 17). Como que um "Animal House" Apatowizzado, "Neighbors" está repleto de referências cinéfilas - de Al Pacino a De Niro, de Pulp Fiction a Thelma e Louise - e terá continuação no próximo mês de Maio, com a inevitável sequela movida pela box-office. Desta vez, infelizmente, sem Halston Sage. Não sabem quem é? Google her!

sexta-feira, dezembro 11, 2015

The Maze Runner (2014)

"Maze Runner - Correr ou Morrer" sofre da inexperiência do seu realizador, naquela que foi a sua estreia em Hollywood: uma premissa sólida e promissora, suportada por uma obra literária complexa q.b., é transformada numa fita oca, fútil, onde o potencial ambiente claustrofóbico é substituído pelo conforto da fórmula adolescente sem grandes riscos. Tanto o elenco como o CGI não comprometem enquanto elementos isolados, mas rapidamente são envolvidos numa teia de mediocridade que torna quase toda a acção risível. No fim, uma explicação atabalhoada abre portas à inevitável sequela, ou não tivessem trinta e quatro milhões de dólares dado origem a trezentos e cinquenta nas bilheteiras.

terça-feira, novembro 17, 2015

John Wick (2014)

"John Wick" não redefine os filmes de acção, não acerta totalmente no casting - o vilão final (Michael Nyqvist) merecia mais zelo na escolha - e é altamente previsível. Apesar disto tudo, exemplifica de forma muito competente o que qualquer cinéfilo espera retirar do género: diversão visceral, coreografias trabalhadas, planos excepcionalmente filmados e a criação de um universo peculiar - neste caso, aberto a uma trilogia já anunciada -, onde cada personagem tem um cunho vincado e motivações únicas. Não faltam as cenas patetas onde cada patife espera cordialmente pela sua vez para matar o herói ou os momentos taralhoucos onde Keanu Reeves tem que manifestar alguma emoção mas, num cômputo geral, o estreante na realização Chad Stahelski (responsável pelas coreografias de acção de infindáveis blockbusters, entre eles a saga Matrix com Reeves) teve nota mais do que positiva; dúvidas houvesse, a cena de homenagem ao "Círculo Vermelho" de Melville afastou-o logo da negativa.

terça-feira, agosto 04, 2015

Big Game (2014)

Ponto prévio: sempre gostei de Samuel L. Jackson, provavelmente desde que o vi brilhar pela primeira vez em "Pulp Fiction". Até ontem, sempre pensei que o mesmo seria uma boa escolha para qualquer papel, sob a supervisão de qualquer realizador, não fosse "Snakes on a Plane" evidência forte disso mesmo. Pois bem, "Big Game" mostra o tão ingénuo que eu era. Ver o Presidente dos Estados Unidos de bigodaça e mosca enterrar-se em diálogos sobre xixi nas calças enquanto come uma salsicha de boca aberta perante um não-actor criança que nem sabe como ali foi parar é ignominioso. E, no que toca à credibilidade da narrativa, serão umas montanhas no norte da Finlândia o local mais remoto do planeta para que não surja durante tanto tempo um único meio de busca e salvamento à procura do líder do mundo livre? E depois do catastrófico frigorífico de Indiana Jones, dez minutos de arca congeladora? Para bom entendedor, meia comparação chega.

domingo, junho 07, 2015

White, Blue and White (2014)

Episódio de uma hora da norte-americana ESPN sobre as consequências da Guerra das Malvinas em 1982 (Reino Unido vs Argentina) na carreira e na vida de dois jogadores argentinos que jogavam no Tottenham Hotspur - os primeiros sul-americanos da história da liga inglesa -, "White, Blue and White" é muito mais do que um documentário futebolístico sobre Ossie Ardiles - eleito um dos cem melhores jogadores de sempre a jogar em Inglaterra - e Ricardo Villa - galardoado em 2001 com o título de golo do século marcado em Wembley, finalização essa que deu a FA Cup aos Spurs em 1981; "White, Blue and White" é um tratado anti-guerra inesperado, um projecto culturalmente riquíssimo com uma espécie de reviravolta final completamente imprevisível. Tecnicamente, realce para a excelente contextualização nos minutos iniciais e o inteligente cruzamento entre factos e comoções nas palavras não só da dupla campeã do mundo em 1978, mas também de muitas outras caras conhecidas britânicas (Glenn Hoddle) e alvicelestes (Valdano ou Passarella) que oferecem a sua perspectiva sobre o assunto. No fundo, uma sugestão não só para todos aqueles que gostam de futebol - Ardiles é provavelmente relembrado por muitos como o treinador que, em plenos anos noventa, colocou o Tottenham a jogar com cinco avançados, algo que não acontecia desde os anos cinquenta -, mas também para quem simplesmente procurar uma história de vida muito interessante, manchada por uma guerra sem sentido.

sexta-feira, maio 15, 2015

Captain America: The Winter Soldier (2014)

Sequela idónea de um dos mais carismáticos super-heróis da Marvel, "Capitão América: O Soldado do Inverno" supera inclusivamente o capítulo inicial da saga, conseguindo um par de reviravoltas narrativas bem conseguidas, um trio de personagens cativantes - a Viúva Negra e o Falcão fazem bom companhia ao patriótico Steve Rogers - e uma atitude cinematográfica muito menos frenética e espalhafatosa que a maioria dos seus camaradas d'os Vingadores. Por outras palavras, os irmãos Russo deixam-nos respirar visualmente, absorver a natureza humana daqueles que são supra-humanos e apreciar uma razoável história de espionagem que não sente a necessidade constante de recorrer ao CGI para facilitar o caminho para o triunfo. Não resiste até ao fim sem recorrer à fórmula do costume, mas não deixa de ser um bom esforço - um que abre sem dúvida alguma portas credíveis a novas aventuras.

segunda-feira, abril 06, 2015

Nightcrawler (2014)

Performance crua, metódica e visceral de Jake Gyllenhaal - perdeu peso e ficou noites sem dormir para conseguir o visual de coyote da noite que tanto pretendia, um cujos olhos não piscam e pouco ou nada dizem - na estreia na cadeira de realizador de Dan Gilroy, antes conhecido na indústria como "o marido da Rene Russo", "Nightcrawler" é uma humilde obra-prima moderna, tanto a nível técnico - cinematografia sublime e trabalho de edição magnificiente, qual filme de acção se tratasse no meio de tanto drama policial e televisivo - como a nível psicossocial, criticando ao mesmo tempo que enobrece a necessidade do público moderno por visualizar "as soon as possible" desastres, dramas e histórias chocantes, uma cuja previsibilidade de sucesso comercial provavelmente começou no dia em que OJ Simpson colou milhões de norte-americanos às televisões com a sua fuga automóvel da polícia enquanto apontava uma pistola à sua própria cabeça. Daí em diante, o crime passou a ser o melhor amigo de inúmeras televisões públicas regionais e nacionais, sedentas por audiências que viabilizem a sua existência. Cenas pungentes, Gyllenhaal a mostrar uma vez mais a sua polivalência e a confirmação de um outro talento escondido: Riz Ahmed, o Omar de "Four Lions", que inteligentemente conseguiu perceber que era na sombra de Gyllenhaal que estava a luz. O resultado final é uma película tão fascinante quanto perturbante.

sexta-feira, abril 03, 2015

Electric Boogaloo: The Wild, Untold Story of Cannon Films (2014)

Festim documental para cinéfilos de todos os géneros e feitios, "Electric Boogaloo: The Wild, Untold Story of Cannon Films" conta-nos a história não-oficial da lendária produtora trash de Hollywood fundada por dois primos israelitas tão geniais e loucos na forma completamente out of the box com que quebraram o modelo de negócio cinematográfico imposto em todo o mundo - para o bem e para o mal, Menahem Golan e Yoram Globus financiavam os seus filmes vendendo-os antes sequer de estes terem arrancado com as filmagens - como dementes no seu gosto artístico e cuidado técnico, ajudando assim a contribuir para algumas das mais exóticas e visualmente javardas, indecentes e trapalhonas obras da história da sétima Arte. "O que fazer com 30 milhões? Não sei, provavelmente 30 filmes", afirma um deles a certa altura. E foi exactamente quando este conceito comercial deu lugar à ganância e à ânsia pelos holofotes - sequelas de blockbusters e outras aventuras em que os seus protagonistas recebiam milhões de dólares nunca antes vistos -, que a Cannon Films caiu num poço sem fundo, provocando inclusivamente a rotura e afastamento de uma das duplas mais conhecidas de Hollywood nos anos oitenta. De entrevistas com estrelas como Bo Derek, Dolph Lundgren ou Franco Nero, a antestreias VIP em parques de estacionamento inclinados, o documentário do australiano Mark Hartley merece ser descoberto por qualquer um que tenha um fraquinho pelo cinema de série B a Z, por heróis de acção como Chuck Norris, Van Damme ou Charles Bronson. Melhor que tudo, tem ainda a honestidade de abrir portas e janelas ao documentário oficial de Golan e Globus que, na boa tradição da velhinha Cannon, começou a ser feito muito depois mas conseguiu estrear três meses antes deste Electric Boogaloo.

segunda-feira, março 30, 2015

Taken 3 (2014)

Seis anos após a estreia do surpreendente e refrescante capítulo original que elevou Liam Neeson para um patamar de excelência na classe Valentim Loureiro - quantos são, quantos são?!? - do submundo da acção, o norte-irlandês e o seu Bryan Mills avistam-se agora numa futilidade cinematográfica tal que nem uma mão cheia de reviravoltas no guião e o facto de Neeson orquestrar ele próprio todas as suas cenas de acção conseguem salvar uma saga que, para começar, nunca deveria ter existido. Isto porque o poderoso trunfo de "Busca Implacável" chamava-se Pierre Morel e este, ao passar a pasta ao compatriota Olivier Megaton para as sequelas que se seguiram, esqueceu-se de algumas páginas importantes sobre coerência narrativa, filmagem de cenas de combate e, não menos importante, montagem/edição de perseguições automóveis. No primeiro filme, são os vilões que desejam "boa sorte" a Mills; nesta terceira - e, esperemos, última - desventura do misterioso ex-agente secreto, já é ele que proclama "boa sorte" aos inimigos. A prova irrefutável que esta foi um trilogia que se virou ao contrário, do prazer inesperado à medíocre previsibilidade.

sábado, março 07, 2015

The Guest (2014)

Homenagem pura e dura aos melhores trabalhos de John Carpenter, "The Guest" está repleto de referências narrativas e recursos estilísticos ao nova-iorquino que tantos anti-heróis criou nas décadas de setenta e oitenta. Do nevoeiro que cria dúvida ao Halloween que molda o ambiente, da electrizante banda-sonora electrónica ao lettering arcaico do título, Simon Barrett ("You're Next") orquestra um filme refrescante pela forma retro cool como vaza um tema desgastado, pelo modo como cruza vários feitios e géneros sem medo de quebrar a sua consistência cinematográfica. Dan Stevens consegue transformar o seu David numa mistura entre Terminator e American Psycho, alternando entre o coração mole e o propósito cruel com uma facilidade impressionante. Subvalorizado agora, "The Guest" pode muito bem ganhar com o tempo um estatuto de culto tão inesperado quanto merecido.

quarta-feira, março 04, 2015

Big Eyes (2014)

Talvez o capítulo mais convencional da filmografia de Tim Burton - o que, por si só nesta altura do campeonato, até não deixa de ser surpreendente e aprazível -, "Olhos Grandes" aborda uma história verídica com vários pontos de choque interessantes - qual o valor da arte, o impacto do vox populi nos mercados, o poder da imprensa e, acima de tudo, a evolução do papel das mulheres nas sociedades modernas - quase todos abordados, infelizmente, com um aperto de mão demasiado mole de Burton, que preferiu apostar na relação de ternura e de empatia com o espectador de uma artista que se impôs ao mundo, expondo todos os seus vícios fétidos e machistas. De resto, apenas as belíssimas interpretações de Christopher Waltz e Amy Adams conseguem catapultar um filme vulgar para um estatuto superior, muito longe ainda assim do melhor que o gótico despenteado nos habituou ao longo das últimas décadas.

domingo, fevereiro 22, 2015

Selma (2014)

Papelaço de David Oyelowo - ficou certamente à pele de uma nomeação para os óscares -, realização segura e competente da desconhecida Ava DuVernay e, mais importante do que tudo, a revelação para o mundo de um acontecimento norte-americano repleto de coragem, valores e peso histórico político e sociológico numa nação em ebulição, qual sonho pungente de um homem com o destino traçado. Nem tudo é equilibrado - falta-lhe por vezes ritmo na sua fase de construção -, mas a verdade é que "Selma" é uma lição de história de importância extraordinária, especialmente porque narra uma ocorrência de trato limitado a nível internacional. Em suma, cinematograficamente capaz, culturalmente indispensável.

domingo, janeiro 25, 2015

The Interview (2014)

"The Interview" é um iceberg virado do avesso. Expõe tudo o que tem até derreter-se nas mesmas piadas, vezes sem conta: as margaritas gay, o ânus de Seth Rogen, as fezes do ditador, o sotaque norte-coreano e as expressões idiotas de James Franco; os seus pseudo-trunfos narrativos, gastou-os, propositadamente ou não, na polémica que se gerou em torno da sua estreia. Comédia imbecil que de sátira política e social pouco ou nada tem, o controverso projecto de Evan Goldberg e Seth Rogen vem provar que o problema não se encontra na eterna questão existencial sobre quais os limites - se é que existem - da comédia, mas sim na forma absurda como um filme vão, fútil e pateta não merece o impacto de moldar opiniões sobre o que quer que seja. E é essa componente de confronto entre a liberdade de expressão e a crueldade da repressão que fica para a história.

sábado, janeiro 24, 2015

Birdman (2014)

Riggan é Keaton, Birdman é Batman, a peça de teatro que marca o renascimento de uma lenda o filme em si, o quarto capítulo do homem pássaro nunca realizado para infortúnio dos jornalistas asiáticos o terceiro homem morcego de Tim Burton que Keaton recusou fazer por um valor recorde de quinze milhões de dólares, em meados dos anos noventa, simplesmente porque achava o guião terrível. A arte a imitar a vida, a vida de uma celebridade a criar um conflito interno com o actor de respeito que um homem sempre sonhou ser, um conjunto de interpretações fascinantes (Keaton, Norton, Stone e Galifianakis, este último finalmente num papel em que não precisa de ser idiota) que dão substância e vigor a um trabalho tecnicamente irrepreensível de Iñarritu e do cinematógrafo Emmanuel Lubezki, que depois de fazer furor com o seu engenho em "Gravity", volta a presentear cinéfilos de todo o planeta com uma obra que parece miraculosamente filmada num único take. Um truque de magia a lembrar o que Hitchcock tentou fazer com "Rope", uma sátira mordaz à destruição cultural que se vive em Hollywood, onde o dinheiro fala mais alto que a virtude, o valor e a excelência. Algumas transições entre cenas parecem sobrenaturais, maravilhas impossíveis de acontecer (do exterior para o interior, dos camarins para o palco, etc.) que findam num desfecho tão arriscado quanto provocador, onde um mundo metafórico dá mãos ao real e Riggan ganha, finalmente, o reconhecimento da pessoa mais importante da sua vida, que passa a ver o pai da mesma forma que ele se via a si próprio. Singular e excepcional.

quinta-feira, janeiro 22, 2015

Whiplash (2014)

Estreia deslumbrante na realização do jovem norte-americano Damien Chazelle, "Whiplash" é um tour de force do veterano J.K. Simmons - sem qualquer dúvida a mais poderosa interpretação da sua carreira -, acompanhada de perto pelo esforço, suor, paixão e lágrimas de Miles Teller ("The Spectacular Now"), uma espécie de John Cusack dos novos tempos, dono e senhor de uma energia e dedicação magnética. Vencedor indiscutível do festival independente de Sundance em 2014, "Whiplash - Nos Limites" faz jus ao rol de elogios presentes no seu cartaz e oferece ao mundo uma mistura de General Sargento Hartman em "Full Metal Jacket" com o Maestro Vitorino de Almeida, uma combinação tão fácil de odiar, como de admirar, que certamente lhe garantirá o Óscar de Melhor Actor Secundário no próximo mês de Fevereiro. O final aberto em apoteose, qual epifania musical, certamente deixará os mais cépticos descontentes, mas não deixa marca numa espiral opressiva deliciosa de consagração pessoal.

segunda-feira, janeiro 19, 2015

Unbroken (2014)

"Invencível" difunde ao mundo a notável história de sobrevivência e resiliência do atleta olímpico norte-americano Louis Zamperini durante a Segunda Guerra Mundial, quando a aeronave onde seguia despenhou-se no Oceano Pacífico e deixou-o, depois de quarenta e sete dias à deriva, nas mãos dos inimigos japoneses. Se a história de vida é extraordinária, já a sua adaptação para o grande ecrã é insonsa, sem grandes rasgos narrativos dos irmãos Coen nem artimanhas arriscadas a nível técnico e visual da realizadora e produtora Angelina Jolie. Tudo demasiado convencional e literal, demasiado longo em momentos desinteressantes, demasiado sintético em alturas chave (por exemplo, as Olímpiadas de Berlim e a famosa última volta recorde). A sensação que fica é que já vimos "Unbroken" em inúmeros outros filmes biográficos de heróis de guerra, com muito coração na tela mas pouco talento fora dela.

terça-feira, dezembro 23, 2014

The Grand Budapest Hotel (2014)

Cada plano, cada cena de "The Grand Budapest Hotel" é uma carta de amor à cinefilia, um poema de simetria e beleza rara, irónica e perversamente o filme mais divertido, dramático e trágico do riquíssimo currículo do ainda jovem Wes Anderson. Um elenco de luxo, de Fiennes a Law, de Norton a Dafoe, de Swinton a Ronan, numa jornada tão profunda quanto simbólica sobre a amizade, a liberdade e a lealdade. Um buffet superlativo de talento do primeiro ao último minuto, numa estadia que só peca pela curta duração - hora e meia que podia muito bem ser dia e meio - e pela ausência de uma opinião política mais vincada.

quinta-feira, dezembro 11, 2014

Boyhood (2014)

Drama ficcionado moldado pela realidade - os actores são filmados ao longo de doze anos, acompanhando assim Richard Linklater o envelhecimento natural de todos eles, o que confere ao filme uma beleza única - "Boyhood: Momentos de uma Vida" é um épico despretensioso de qualidades raras sobre os instantes simples de uma vida que desfiguram, para o bem ou para o mal, a nossa personalidade. Sem twists, sem clichés - o primeiro beijo ou a primeira relação sexual -, sem pressas. Conversas simples, discussões violentas, papelinhos durante as aulas, tudo o que é aparentemente mundano mas marca, sem razão aparente, o nosso comportamento e atitude perante a vida. Espelho de milhões de crianças, mães e pais através de uma história familiar tão simples quanto cativante, Linklater volta a provar a sua mestria em tornar o tempo, essa medida arbitrária de contornos abstractos e temíveis, num elemento visível, de adoração, respeito e amor profundo. Universal, "Boyhood" é um marco cinematográfico cuja ambição do seu conceito é nivelada pela magnanimidade da sua execução.

segunda-feira, dezembro 08, 2014

Interstellar (2014)

Longe de ser a obra-prima intemporal que muitos anteciparam, "Interstellar" é ainda assim uma aventura espacial conceptualmente provocadora, bem interpretada e visualmente audaciosa. Filme sobre a natureza humana e todas as suas fragilidades, o último feito de Christopher Nolan revela-se uma experiência gratificante num ecrã IMAX - arruma o recente "Gravity" de Cuarón numa gaveta -, disfarçando fraquezas óbvias na sua sonoplastia exagerada e na sua narrativa pouco consistente - por vezes a ficção científica perde lugar para a fantasia científica - com uma imersão total do espectador numa fábula de amor e sacrifício paternal capaz de comover o mais rijo dos insensíveis. A necessidade de um twist com um vilão humano banaliza a força da sua mensagem e do seu impacto cinematográfico, mas seria injusto que numa selva obscena como a de Hollywood uma obra com a sofisticação e coragem de "Interstellar" não fosse elogiada pela forma como explora o infinito de modo destemido. Esperemos apenas que aquele final em aberto não resulte numa sequela supérflua.

quarta-feira, novembro 26, 2014

The Hunger Games: Mockingjay - Part 1 (2014)

O grande problema de "The Hunger Games: A Revolta - Parte 1" começa exactamente no seu título: Mockingjay não foi pensado por Suzanne Collins para funcionar em duas partes. Bom para os bolsos dos magnatas de Hollywood mas péssimo para a credibilidade da saga, o espectador paga o bilhete para andar num daqueles aviões de acrobacias da Red Bull mas acaba por ficar duas horas - e mais um ano - na hangar de embarque, à espera que o piloto ganhe tomates e nos ofereça a aventura prometida. Desconstruída, a narrativa desta primeira parte da revolução chega a ser patética, um conjunto de lições de moral sobre o poder da imagem e da propaganda, sem acção, sem coração, sem nada que nos deixe numa constante inquietação, tal como aconteceu no primeiro e segundo filme d'Os Jogos da Fome. Francis Lawrence confia na sua heroína, mas esquece-se de quem a idolatra: se há filmes sinónimos de anticlimax e frustração, este será certamente um deles.