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segunda-feira, junho 27, 2016

(Dis)Honesty: The Truth About Lies (2015)

Todos mentimos. Homens ou mulheres, crianças ou adultos, políticos ou professores, o ser humano tem uma tendência natural para ser desonesto, consciente ou inconscientemente, através de subterfugios psicológicos, sociais ou mesmo económicos. Inspirado no trabalho do comportamentalista israelita Dan Ariely e em vários exemplos práticos de pequenas - e grandes - mentiras que acabaram por resultar em esquemas fraudulentos e penas de prisão, descobrimos de forma acessível e divertida as razões pelas quais mentimos e como o nosso cérebro processa essa informação incorrecta consoante o ambiente em que estamos inseridos. A verdade de mentira é fascinante, ainda para mais quando mete ao barulho a falsa campanha de marketing de guerrilha que os responsáveis de "I Hope They Serve Beer in Hell" montaram para colocar o filme nas bocas dos norte-americanos.

sexta-feira, junho 03, 2016

Where to Invade Next (2015)

Confesso admirador da filmografia de Michael Moore, principalmente daquele que considero ser um dos documentários fundamentais da história do génere ("Bowling for Columbine"), não posso deixar de sentir alguma desilusão com o regresso sem grande garra e inspiração do homem que um dia entalou tantas corporações gananciosas em "The Awful Truth" ou fez um dos discursos de vitória mais polémicos e ousados em pleno Kodak Theatre. Verdades de certa forma manipuladas? Claro, sendo que desta vez torna-se bem óbvio para nós portugueses quando um qualquer indivíduo de um gabinete de apoio a toxicodependentes é apresentado como um alto responsável do nosso Ministério da Saúde. A ideia base - os benefícios que o socialismo europeu teria na vida e na economia norte-americana - não deixa de ser interessante, mas faltam a "Where to Invade Next" os habituais vilões que Moore tão bem sempre enfrentou no passado sob o holofote das suas lentes. Entre palmadinhas nas costas e amigos, o feeling (e respectivo impacto) não é o mesmo.

sábado, abril 30, 2016

The Invitation (2015)

Num equilíbrio notável entre os factos improváveis de uma suspeição pavorosa e as razões prováveis de uma paranóia com origens familiares traumáticas, "The Invitation" sabe queimar lentamente os seus trunfos, vivendo e alimentando-se da dúvida constante, enquanto deixa o semi-desconhecido elenco deambular entre comportamentos normais e momentos bizarros. Nestes ambientes de suspense, suportados por um cenário fechado sem grandes distracções, a regra é simples para mim: quanto mais credível, real e plausível for o mistério, melhor o resultado final. E depois de o ter feito praticamente na perfeição durante hora e meia, eis que a realizadora Karyn Kusama ("Aeon Flux" e "Jennifer's Body") decidiu estragar tudo nos últimos trinta segundos, tentando oferecer uma dimensão extra completamente disparatada a um fenómeno que só seria crível num micro-habitat. Manias de grandeza...


domingo, abril 24, 2016

Er ist wieder da (2015)

Que belíssima e inesperada surpresa. "Ele Está de Volta", disponibilizado recentemente na Netflix portuguesa, parte de um pressuposto tão simples quanto polémico e audacioso: e se Hitler, como que por magia, voltasse à Alemanha dos dias de hoje? Um país repleto de turcos, programas estranhos nas televisões, miúdos com camisolas do Cristiano Ronaldo e em que todos têm acesso a uma tecnologia fantástica chamada... Google. Uma nação que vê nele agora um comediante inofensivo (mas muito pertinente), sem se aperceber que se trata realmente do maléfico Fuhrer num plano brilhante para voltar ao poder usando a influência da televisão e dos mass media. Uma sátira tão deliciosa quanto impetuosa, que deambula entre um estilo Boratesco e um registo mediatizado/ficcionado do Mein Kampf, que num tom jocoso aborda uma mão cheia de problemáticas sociais e políticas que a Alemanha, em particular, e a União Europeia, em geral, enfrentam nos dias que correm. "Ele está no meio de nós", numa comédia séria como o diabo com um papelaço - muitas vezes improvisado - de Oliver Masucci, dois twists finais de categoria, homenagens artísticas a Leni Riefenstahl (a imagem que vem do céu e acaba em Berlim) ou "Der Untergang" (na sua mais famosa e replicada cena) e uma mensagem muito séria sobre o estado das sociedades e dos modelos governativos que julgamos irrepreensíveis. Duas cenas para dificilmente esquecer? Hitler a ser espancado por neo-nazis e a criação da sua conta de e-mail. O fim da picada? Quando Hitler dá cabo de um cão. Assim anda o mundo.

segunda-feira, abril 11, 2016

Chuck Norris vs. Communism (2015)

Roménia, 1985. O regime comunista de Nicolae Ceaușescu dura há duas décadas. O povo romeno vive isolado culturalmente, privado da sua liberdade de expressão, controlado em todos os seus movimentos pela polícia secreta. A televisão nacional só passa propaganda comunista e socialista e a venda de leitores VHS está proibida. É neste contexto que vão nascer duas lendas clandestinas do povo romeno: Irina Nistor, a voz mais conhecida da Roménia, tendo dobrado sozinha todas as personagens de cerca de três mil filmes norte-americanos, e Teodor Zamfir, o homem que clandestinamente trouxe milhares de cassetes e leitores VHS para Bucareste, que contratou Irina e deu-lhe, na sua própria casa, todas as condições para executar as dobragens. Ela era a voz da liberdade e da esperança; ele, o responsável por todo um movimento underground que lhe transformou num dos homens mais ricos - chegou a ganhar, por dia, o equivalente ao preço médio de uma casa - e influentes da Roménia, depois de ter manipulado e subornado com cassetes gratuitas praticamente quase todas as forças de estado, da polícia secreta ao próprio filho de Ceausescu, que queriam desfrutar sigilosamente do cinema ocidental e que temiam que Zamfir os denunciasse caso fosse apanhado. Um belíssimo documentário, magnificamente estruturado do início ao fim, com direito a twist e tudo em relação a um dos trabalhadores de Zamfir e, obviamente, com um dos melhores títulos de sempre. Não só porque tem um sainete desgraçado, mas porque encaixa na perfeição com o desenrolar da obra da jovem Ilinca Calugareanu, que mostra como este mercado ilegal de cassetes e as consequentes noitadas clandestinas de cinema em casa dos amigos foram a primeira janela de um povo para um mundo até então desconhecido, repleto de carros modernos, casas majestosas e lojas cheias de comida. Didáctico a nível político e histórico, delicioso na forma como demonstra o poder do cinema.

domingo, março 06, 2016

The Man from U.N.C.L.E. (2015)

Provavelmente o Bond mais clássico que estreou no ano de "Spectre", pelo menos no que diz respeito a humor, glamour e estilo, "The Man from U.N.C.L.E" funciona muito bem dentro do registo habitual, ainda que mais calmo, de realização de Guy Ritchie. Descomplexada e divertida, a comédia de acção que adapta ao cinema a série norte-americana da década de sessenta, co-escrita por Ian Fleming, conseguiu conquistar grande parte da crítica muito graças ao carisma e química do seu trio protagonista - Cavill, Hammer e Vikander -, mas os moderados resultados de bilheteira anunciaram a morte precoce da(s) sequela(s) prometida(s) na cena final. Uma pena.

domingo, fevereiro 07, 2016

I Believe in Miracles (2015)

Que tributo maravilhoso ao mais carismático, controverso e polémico treinador da história do futebol, um homem que pegou numa equipa de meio da tabela da segunda divisão inglesa e, em pouco mais de três anos, conquistou vários troféus nacionais (entre eles o título da Primeira Divisão inglesa) e duas Taças dos Campeões Europeus, com um futebol atacante apaixonante que o fazia ser aplaudido em qualquer campo que visitasse. Focado exclusivamente neste seu curto período triunfante no Nottingham Forest - a vida de Brian Clough dava uma enciclopédia muito complicada, do corte de relações com o seu adjunto de sempre, Peter Taylor, aos desentendimentos com o então seleccionador inglês Don Revie, do campeonato conquistado em início de carreira pelo secundário Derby County aos graves problemas de alcoolismo que o acompanharam durante mais de três décadas, aspectos de uma vida ficcionados de modo admirável em "The Damned United" -, "I Believe in Miracles" é um documentário ritmado e divertido, qual livro de banda-desenhada em movimento, sobre uma das melhores equipas que já pisou os relvados (na altura batatais) britânicos. Entre imagens de arquivo de Clough, Taylor e vários jogos históricos e entrevistas muito bem-dispostas com vários jogadores bicampeões europeus pelo Forest, eis um hino ao desporto-rei indispensável para qualquer amante do futebol jogado dentro das quatro linhas.

domingo, janeiro 31, 2016

The Wolfpack (2015)

Sete irmãos (seis rapazes e uma rapariga) isolados do mundo, num pequeno apartamento com uma vista fantástica em (e sobre) Manhattan. O pai, lunático e alcoólico, queria que os filhos não fossem escravos da sociedade, controlados como robôs pelo governo através do trabalho e da necessidade de dinheiro. Solução? Trancou-os em casa durante mais de uma década, qual seita comunitária, sendo estes educados pela mãe, professora certificada de ensino doméstico, donde vinha aliás todo o rendimento familiar. Sair de casa, só por necessidade extrema - anos houve em que não passaram da porta uma única vez. Como contactavam os seis rapazes - a rapariga, mais nova, é praticamente excluída do documentário - com o mundo exterior? Recriando e revivendo os seus filmes favoritos, de "Reservoir Dogs" a "Batman Begins". Mescla entre imagens de arquivo dos filmes caseiros da família com imagens da actualidade capturadas pela estreante Crystal Moselle, é no presente que "The Wolfpack" ganha algum interesse: vemos a primeira vez que todos saem de casa em grupo, como se fossem os Cães Danados de Tarantino, em alcateia, a primeira ida à praia, a primeira vez que andam de comboio, a descoberta do Google e, claro, a primeira vez que vão ao cinema. Mas, tudo somado, fica muito por dizer - culpa talvez da constante proximidade do pai - e quase tudo por explicar (como conseguiam, num suposto orçamento familiar tão apertado, pagar um apartamento na Big Apple, comprar tantas roupas, filmes, comidas etc. etc.). E, por isso, aquele que poderia ter sido um documentário assombroso a vários níveis, acaba por não ser mais do que um objecto de estudo curioso.

sexta-feira, janeiro 29, 2016

Spotlight (2015)

"O Caso Spotlight" - uma escolha nacional de título estranha, diga-se de passagem, dado o background histórico das variadas equipas de investigação com a mesma chancela do Boston Globe que durante décadas desmascararam inúmeras trafulhices da sociedade - é um filme de uma importância extrema por duas razões primordiais: primeiro, relembra que o jornalismo não pode nunca perder a sua faceta de utilidade e serviço público em prol do negócio, das metamorfoses das redacções, das necessidades do momento, da falta de disponibilidade financeira ou pessoal para permitir investigações pertinentes e profundas que custam tempo e, consequentemente, dinheiro. Porque o jornalismo deve, mais do que nunca, servir como força em alerta constante para descortinar e revelar qualquer ilegalidade ou legalidade imoral que possa ter sido cometida longe dos olhos da justiça - ou mesmo perto dela, caso esteja corrompida. Em segundo lugar, porque recorda - ou apresenta, aos mais distraídos - a podridão que reina na mais poderosa e mafiosa das instituições mundiais: a igreja católica. Porque não se trata de um caso em específico, mas de um fenómeno; porque mesmo depois de tudo o que aconteceu, poucos pagaram pelos seus pecados e o arcebispo de Boston, conhecedor de todos os crimes e abusos que foram cometidos durante décadas, foi meramente transferido pelos superiores, qual promoção, para uma basílica em Roma. Como filme "Spotlight" é tecnicamente (ou mesmo narrativamente) digno de tanto louvor? Talvez não. Mas como lição de história que deve moldar o futuro, eis uma obra indispensável.

quarta-feira, janeiro 27, 2016

Turbo Kid (2015)

Provavelmente o filme pós-apocalíptico mais naif cool de sempre, "Turbo Kid" é, na sua extrema inocência e ingenuidade, uma ode encantadora ao cinema underground de ficção-científica dos anos oitenta. Produção financiada com cinquenta mil dólares provenientes de uma campanha de angariação de fundos no Indiegogo, tudo em "Turbo Kid" é delicioso: os diálogos repletos de punchlines irresistíveis, uma dupla de heróis (o Cowboy e o próprio Kid) a explodir com tanto estilo, uma banda-sonora electrizante, uma mão cheia de capangas extravagantes e, surpreendentemente, uma narrativa muito mais inteligente e coesa do que seria de esperar de uma tripla de realizadores/guionistas sem qualquer background em longas-metragens. Sem dinheiro, sem carros, sem grandes efeitos especiais... mas com muito, muito feeling e ironia. E sangue a jorrar por todo o lado como nos bons velhos tempos.

segunda-feira, janeiro 18, 2016

The Big Short (2015)

Longe da frieza dramática de "Margin Call" ou da diversão extravagante e enérgica de "The Wolf of Wall Street", "A Queda de Wall Street" apresenta-nos um retrato verídico competente, educativo e descomplexado do funcionamento corrupto das estruturas financeiras que deram origem ao rebentar da bolha imobiliária nos EUA em 2008. Adam McKay, habituado a bodegas sem nexo com Will Ferrell e companhia, surpreende ao desbravar novos terrenos, dar asas a Christian Bale e Steve Carell para brilharem sem restrições em dois papéis suculentos e, por fim, ao arriscar com uma narração e edição ritmada e criativa, que resulta na perfeição durante a primeira metade do filme. Uma lição importante - até porque, avisa McKay, os culpados continuam à solta e os esquemas proliferam com outros nomes - implantada num objecto cinematográfico cool... mas não mais do que isso (ao contrário do que este hype da temporada de prémios nos tenta vender).

sábado, janeiro 02, 2016

The Propaganda Game (2015)

Tantas perguntas que ficaram por fazer, tantas respostas - mesmo que consistissem num mero silêncio incómodo - que ficaram por arrancar. O documentário de Álvaro Longoria termina e a sensação que permanece é que o espanhol desperdiçou uma oportunidade de ouro para criar um objecto único de revelação e denúncia de um povo sem voz própria. A segurança era apertada, o postal para inglês ver bem orquestrado pelos responsáveis norte-coreanos mas, por receio ou falta de talento, Longoria nunca arrisca urinar para fora do penico. No fim, sobra uma pergunta: afinal, qual é a verdade? Quem manipula mais, os ocidentais através da desinformação massiva - dos cães que comeram o tio do líder supremo (brincadeira que, descobrimos, começou num insignificante blogue chinês) à obrigatoriedade dos locais terem o penteado de Kim Jong-un - ou o governo norte-coreano, que controla ao mais ínfimo pormenor todos os detalhes da vida dos seus cidadãos, da educação pretendida à escolha da casa onde moram. Demasiado politicamente correcto para perdurar na memória mas, ainda assim, uma oportunidade rara para descobrir visualmente um país de beleza singular fechado ao resto do mundo.

sexta-feira, janeiro 01, 2016

Creed (2015)

Vamos começar pela comparação inevitável: "Creed" não é, nem de perto nem de longe, tão emotivo e gratificante como o regresso de "Rocky Balboa" em 2006. Realizado por Ryan Coogler ("Fruitvale Station", também com Michael B. Jordan), este regresso disfarçado da saga do garanhão italiano resulta numa mixórdia de sentimentos: se por um lado temos a oportunidade de reviver uma personagem histórica numa vertente pessoal e intimista, sob um trabalho técnico irrepreensível, por outro falta a "Creed" tudo o que fez dos restantes capítulos um sucesso: o coração de Stallone na escrita, a sonoplastia de treino impressionante que ainda hoje sobrevive, uma história de amor comovente, um final no ringue tão inesperado quanto severo. Em "Creed", quase tudo fica em aberto, da doença de Balboa à perda de audição de Bianca, como que preparando uma série de sequelas, prejudicando essa indefinição o poder da narrativa isolada deste exercício. Vai uma aposta que esta ainda não foi a última vez que vimos Rocky no grande ecrã?

quarta-feira, dezembro 30, 2015

Star Wars: The Force Awakens (2015)

Ponto prévio: segue-se a opinião de um pseudo-cinéfilo ignorante que nunca foi muito à bola com o universo idealizado nos anos setenta por George Lucas. Meio reboot, meio reciclagem da fita que deu início a tudo, o sétimo episódio galáctico de Han Solo, Luke Skywalker, Chewbacca e companhia revitaliza uma saga cinematográfica histórica para novas gerações, conseguindo ainda assim agradar os fãs velhotes que olham agora para o futuro com esperança. J.J. Abrams e a Disney infantilizam um pouco os conceitos outrora complexos, imperfeitos (no melhor dos sentidos), ambiciosos e visionários de Lucas, tornando a chancela "Star Wars" acessível a toda a família. Uma espécie de Harry Potter no espaço, liderado por uma Daisy Ridley cativante e misteriosa, que será certamente objecto de estudo nas sequelas que se avizinham, no combate contra o mais banal dos vilões, uma homenagem emo-crepúscula a Darth Vader, talvez o pior acontecimento resultante desta OPA à Lucasfilm. Um hábil e sólido recomeço, mas longe de ser a obra-prima aguardada e anunciada.

terça-feira, dezembro 29, 2015

Spectre (2015)

Meia dúzia de minutos, uma mexicana jeitosa deitada na cama pronta para prestar serviço a sua majestade, e Bond sai pela janela para ir explodir um prédio velho. Quinze minutos depois, 007 visita o laboratório subterrâneo de Q, de onde sai com um aparente simples relógio que não faz nada mais do que mostrar as horas. Meia hora de filme e Craig tem Bellucci encostada à parede; "vamos ver finalmente um corpinho jeitoso, uma lingerie sedutora, uns amassos valentes" pensamos nós. Nada disso, planos fixos dos ombros para cima de Monica, informação arrancada sobre uma reunião secreta, e "corta" gritou Sam Mendes; segue-se plano de James a colocar o relógio, tendo presumivelmente levado a italiana à loucura durante a pausa para café da equipa de filmagens. Quarenta e cinco minutos, uma perseguição automóvel nas ruas de Roma com um Aston Martin e um Jaguar, deliramos na expectativa de saber qual será o gadget automóvel que salvará o dia ao agente de Ian Fleming. Pois bem, o DB10 britânico não está armado, resta acompanhar um encalço rodoviário como se de uma sequela do chauffeur de Jason Statham se tratasse. Ah, esperem, afinal havia um pára-quedas e um lança-chamas, menos mau. Metade do filme já foi, Bond está com sede, o que pede? "Vodka Martini, shaken not stirred". Festejo jubilosamente no interior, finalmente a lenda é respeitada. Mas... mas... oh porra, o bar não serve bebidas alcoólicas. Perceberam a ideia ou é preciso continuar? Estes Bonds de Sam Mendes têm pinta, são excelsamente bem filmados e editados, mas de mística e tradição têm muito pouco. O que os difere então da catrefada de filmes de acção que por aí andam, de Jason Bourne aos justiceiros de Liam Neeson? Quase nada. Isso faz de "Spectre" um mau filme? Não. Mas transforma-o num capítulo banal e momentâneo da longa saga de um ícone cinematográfico e cultural que nos habituou a vilões extravagantes, cenas de acção com muito mais temperamento e humor do que músculo e explosões em massa, narrativas com muito mais flirts do que paixões para a vida, Bond Girls muito mais activas do que passivas. Em suma, está na hora de Mendes e Craig passarem o testemunho.

domingo, dezembro 27, 2015

The Martian (2015)

Vamos ser simpáticos e começar pelo melhor: finalmente um blockbuster de ficção científica que não sente a necessidade de arranjar um ou mais vilões para desenvolver a narrativa, seja em Terra ou em pleno espaço. Visualmente absorvedor e competente - não seria de esperar outra coisa de um homem com a bagagem no género de Ridley Scott -, "The Martian" peca, no entanto, em toda a sua vertente intimista e de observação psicológica a uma situação excepcional de isolamento e solidão. Como que em piloto automático, sempre mais focado na justificação científica do que na faceta emocional, não há ponta de coração no guião de Drew Goddard que ajude o espectador a relacionar-se com o herói, a ficar com o nó na garganta de preocupação e inquietação pelo desenlace do mais do que previsível salvamento pela equipa liderada por Chastain. No fim, meio mundo preocupado com detalhes ou improbabilidades científicas, da colocação da bandeira à gravidade de Marte que é ignorada; e eu, borrifando-me para tudo isso, a pensar que "O Náufrago" de Tom Hanks dá quinze a zero ao marciano de Damon.

sábado, dezembro 26, 2015

The Visit (2015)

O orçamento mais baixo da carreira, um guião deliciosamente bipolar - ora oscila entre o humor negro executado na perfeição pela dupla infantil ora deixa o casal senil dar umas pinceladas realmente temerosas -, um conjunto de regras no cartaz tal como no extraordinário "A Vila" e temos em "A Visita" mais um projecto singular de Shyamalan, realizador ostracizado na opinião pública desde que se aventurou em "Lady in the Water" e "The Happening", na minha opinião dois exercícios cinematográficos com muito sumo para espremer, mas que indubitavelmente sofreram das altas expectativas que as fenomenais obras de início de carreira do indiano deixaram em Hollywood. Quanto menos se falar em "The Visit" melhor, pelo que termino com dois destaques e uma sugestão: atenção ao futuro de Ed Oxenbould, uma vénia a Deanna Dunagan e experimentem um segundo visionamento para comprovarem que Shyamalan não deixa um único plano ao acaso.

quarta-feira, dezembro 23, 2015

Best of Enemies (2015)

Dois homens, dez debates e a televisão nunca mais seria a mesma. De um lado, o republicano conservador, braço direito de Reagan, William F. Buckley Jr.; do outro, o escritor democrata pós-modernista, amigo de JFK (mas posteriormente inimigo de Bobby Kennedy, que o considerava um rival numa possível futura candidatura a Presidente) Gore Vidal, um homem muito à frente do seu tempo, por exemplo um dos primeiros a assumir em praça pública que era homossexual - termo que detestava, pois achava que ninguém devia ser classificado de acordo com quem gostava -, sem qualquer medo das represálias que tal reconhecimento traria à sua vida pública e privada em plena década de cinquenta. Porque é que a televisão nunca mais seria a mesma? Numa época (final dos anos sessenta) em que existiam duas grandes cadeias de notícias, a CBS e a NBC, a pequena ABC tentava ganhar notoriedade e audiências; sem dinheiro nem meios para fazer as coberturas integrais das convenções políticas que as concorrentes faziam, a ABC apostou num formato de estúdio nunca antes pensado: um frente-a-frente entre dois opinion-makers, senhores de uma retórica inigualável, mas que defendiam pontos de vista totalmente opostos sobre quase tudo na vida política e social norte-americana. O que hoje é banal em todo o mundo, o debate televisivo, seja sobre política ou futebol, teve a sua génese com Buckley e Vidal, que com um ódio de morte um ao outro, chegaram a trocar ameaças de agressões físicas em directo, bem como insultos (queer de um lado, criptonazi de outro) que marcariam para sempre as suas imagens na cultura popular. Um documentário edificante, que não toma partidos, mas que abre o apetite ao espectador para explorar a vida e obra de Gore Vidal.

terça-feira, dezembro 22, 2015

Going Clear: Scientology and the Prison of Belief (2015)

"Going Clear: Scientology and the Prison of Belief" é um documentário da HBO sobre os segredos escondidos da Cientologia, baseado em imagens de arquivo, documentos federais e vários testemunhos de algumas das principais figuras da seita que entretanto conseguiram fugir às teias do código de silêncio imposto pela religião. Sim, leram bem, para a justiça norte-americana, a Cientologia é uma religião equiparada a qualquer outra, pelo que está protegida pela primeira emenda: não paga impostos, não precisa de responder em tribunal perante quase todas as acusações, pode construir e/ou comprar com privilégios debaixo do manto da utilidade pública, não tem que declarar um único documento, etc, etc, etc. Absolutamente corrupta na sua origem - o seu fundador era um escritor charlatão de ficção científica que decidiu que ganharia mais se criasse uma legião de seguidores, pagantes, do que vendendo as suas ideias a Hollywood -, a Cientologia, como provavelmente qualquer outra religião diga-se, é uma farsa completa. Uma que o documentário de Alex Gibney - nova-iorquino com vasta experiência no género, onde se destacam "We Steal Secrets: The Story of WikiLeaks" e "Taxi to the Dark Side" - consegue desconstruir, passo a passo, numa edição magnífica que transforma duas horas de factos e revelações numa mensagem de debate corajosa e importantíssima que não só pode abrir os olhos a muito boa gente como levar ao fim de vários esquemas mafiosos da organização. Um verdadeiro thriller, tão real quanto chocante.

segunda-feira, dezembro 21, 2015

Gonchi (2015)

Documentário biográfico sobre o uruguaio Gonzalo Rodríguez, considerado por muitos especialistas como um dos melhores pilotos de categorias inferiores que nunca teve a oportunidade de conduzir na Fórmula 1, "Gonchi" é uma belíssima homenagem a uma personagem desportiva ímpar que faleceu, vítima de um brutal acidente, durante a qualificação para a sua segunda corrida como profissional no circuito norte-americano equivalente à F1. Dono de um sorriso contagiante - um dos relatos de arquivo afirma que Jack Nicholson podia aprender com Gonzalo alguma coisa para o seu Joker -, um desportivismo raro - era constantemente penalizado por infracções durante a corrida, chegando a ver vitórias serem desqualificadas, algo que aceitava com um sorriso na cara, chegando mesmo ele próprio a ir entregar o troféu aos vencedores oficiais - e um estilo de condução alucinante - ultrapassava constantemente com metade do carro fora da pista, a pisar a relva, em curvas onde em teoria era impossível fazer qualquer ultrapassagem (e daí o lugar cativo, como brincava, que tinha na sala dos comissários), Don Rodríguez brilhou na Fórmula 3000 onde conseguiu vencer os Big 3: Spa-Francorchamps, Nürburgring e Mónaco. Longe de ser um piloto rápido (nunca fazia grandes tempos nas qualificações, partindo sempre do meio da grelha), era um louco nas corridas. O notável Juan Pablo Montoya, seu grande amigo e rival na Fórmula 3000, afirma a certa altura do documentário que Gonchi tinha uns cojones sem igual nas pistas; mas era a sua personalidade cativante fora delas que conquistou e deixou saudades em todos os que conviveram com ele. Uma história de vida, muito mais curta do que merecia, para ser descoberta na Netflix nacional. Obrigatório para qualquer fã de "Senna".