quarta-feira, Novembro 26, 2014

The Hunger Games: Mockingjay - Part 1 (2014)

O grande problema de "The Hunger Games: A Revolta - Parte 1" começa exactamente no seu título: Mockingjay não foi pensado por Suzanne Collins para funcionar em duas partes. Bom para os bolsos dos magnatas de Hollywood mas péssimo para a credibilidade da saga, o espectador paga o bilhete para andar num daqueles aviões de acrobacias da Red Bull mas acaba por ficar duas horas - e mais um ano - na hangar de embarque, à espera que o piloto ganhe tomates e nos ofereça a aventura prometida. Desconstruída, a narrativa desta primeira parte da revolução chega a ser patética, um conjunto de lições de moral sobre o poder da imagem e da propaganda, sem acção, sem coração, sem nada que nos deixe numa constante inquietação, tal como aconteceu no primeiro e segundo filme d'Os Jogos da Fome. Francis Lawrence confia na sua heroína, mas esquece-se de quem a idolatra: se há filmes sinónimos de anticlimax e frustração, este será certamente um deles.

terça-feira, Novembro 25, 2014

Lisbon Legal

segunda-feira, Novembro 24, 2014

A vida que se repete

domingo, Novembro 23, 2014

Crumb (1994)

Robert Crumb é, provavelmente, o mais polémico e controverso cartoonista do século XX. A sua tendência de satirizar a sociedade norte-americana contemporânea através da depreciação do sexo feminino e das minorias que "infestam" as ruas de Nova Iorque tornou-o num herói anónimo do underground popular, o primeiro a tornar-se mainstream devido ao sucesso de algumas das suas criações como Fitz, o Gato, Snoid, Mr.Natural ou muitas outras personagens que popularizou nas famosas edições da Zap Comix. Génio de culto para uns, tarado sexual de gostos estranhos para outros, "Crumb" revela-se um dos documentários mais corajosos e honestos que há memória. Acompanhado por Terry Zwigoff durante quase nove anos naquela que foi a sua estreia em Hollywood - seguiram-se os êxitos "Ghost World" e "Bad Santa" -, Robert mostra ao mundo a sua família disfuncional e traumatizada, onde um irmão, Charles, com tendências homicidas e suicidas - acabaria por se suicidar após a estreia do filme - que toma banho de seis em seis semanas e, nos seus cinquentas, vive ainda em casa da mãe, de onde raramente sai e outro, Maxon, internado num hospício por molestar sexualmente desconhecidas na rua devido a graves problemas psiquiátricos, fazem dele o menos anormal de todos os seus familiares. Sim, porque até a mãe vê pessoas imaginárias pela casa.

E quando podemos dizer isto de alguém que se masturbava nos próprios desenhos e cuja inspiração surrealista e psicadélica das suas mais brilhantes criações ocorreu durante longas viagens no LSD, torna-se óbvio que esta é uma história de vida que merece ser descoberta. Considerado o melhor documentário da história pelo conceituado crítico do San Francisco Examiner Jeffery Anderson e vencedor indiscutível em Sundance, "Crumb" é um retrato intimista de um artista que se criou a si próprio, um que tanto influenciou lendas como Matt Groening ou Harvey Pekar como repudiou mulheres e activistas dos direitos humanos um pouco por todo o globo.

sábado, Novembro 22, 2014

Al Pacino Tony Stark style

sexta-feira, Novembro 21, 2014

Guardians of the Galaxy (2014)

Talvez o filme mais sobrevalorizado do ano pelo público em geral, "Os Guardiões da Galáxia" revela-se uma coboiada espacial tão longa quanto pateta. Orgulhosamente parvinho dentro de um universo - o da Marvel, pois claro - onde a concorrência - os "Avengers", claro está - não deixa outra alternativa que não apostar num humor enérgico e numa aura cool que disfarce a inevitável falta de interesse de uma narrativa repleta de lugares comuns ao estúdio, "Guardians of the Galaxy" transforma-se com o passar dos minutos numa experiência cinematográfica que se satiriza a si própria, suportada no carisma das suas personagens - muito bem desenvolvidas e exploradas por James Gunn - e na boa vontade dos espectadores em deixar passar tanta incongruência lógica deste "Star Wars" para totós.

quinta-feira, Novembro 20, 2014

Mike Nichols (1931-2014)

quarta-feira, Novembro 19, 2014

CCOP - Top de Outubro de 2014

O mais recente filme do cineasta norte-americano David Fincher foi o único filme de Outubro a ter entrada directa no top 10 do ano. A adaptação cinematográfica do livro de Gillian Flynn, Em Parte Incerta, lidera o top mensal, com uma classificação média de 8,25 de um total possível de 10. Foi ainda o filme com a maior amostragem do mês (63% dos membros do CCOP viram o filme, ex-aequo com Frank) e aquele que recebeu a maior nota individual (uma ocorrência de nota 10), ocupando agora a nona posição entre todos os classificados de 2014. O único outro filme de David Fincher já classificado pelo CCOP foi Millennium 1 - Os Homens Que Odeiam as Mulheres que, em 2012, recebeu a nota média de 7,31. A segunda posição do mês foi ocupada pelo filme britânico Frank, com a nota média de 7,67. O pódio foi encerrado com o derradeiro filme do cineasta francês Alain Resnais: Amar, Beber e Cantar foi classificado com 7,40. O top de Outubro continua com Vocês Ainda Não Viram Nada!, do mesmo realizador, com a nota média de 7,33. Como nota comparativamente, Hiroshima, Meu Amor, também realizado por Alain Resnais, já foi classificado anteriormente pelo mesmo grupo: na altura recebeu nota 9.

Top de Outubro de 2014

1. Em Parte Incerta, de David Fincher | 8,25
2. Frank, de Lenny Abrahamson | 7,67
3. Amar, Beber e Cantar; de Alain Resnais | 7,40
4. Vocês Ainda Não Viram Nada!, de Alain Resnais | 7,33
5. Cabelo Rebelde, de Mariana Rondón | 7,25
5. O Quarto Azul, de Mathieu Amalric | 7,25
7. O Senhor Babadook, de Jennifer Kent | 7,11
8. Fúria, de David Ayer | 7,10
9. Um Santo Vizinho, de Theodore Melfi | 6,83
10. Os Monstros da Caixas, de Graham Annable e Anthony Stacchi | 6,50
10. As Duas Faces de Janeiro, de Hossein Amini | 6,50
12. O Juiz, de David Dobkin | 6,00
13. O Caminho Entre o Bem e o Mal, de Scott Frank | 5,00
14. Lixo, de Stephen Daldry | 4,60
15. Annabelle, de John R. Leonetti | 4,00
16. Tartarugas Ninja: Heróis Mutantes, de Jonathan Liebesman | 3,38

terça-feira, Novembro 18, 2014

The Man vs The Machine (2014)

O jogo de xadrez do século, uma jogada de um computador artificial tão inexplicável e terrível que só podia ser demasiado genial para um humano entendê-la, um pedaço de história mundial em dezassete minutos que podiam muito bem ter dado azo a cento e setenta, fosse cada partida entre o grande mestre Kasparov - hoje político defensor de mudanças radicais na Rússia de Putin e provável candidato da oposição nas próximas presidenciais do país - e Deep Blue - a super-máquina da IBM criada unicamente para o confronto entre a humanidade e a inteligência artificial e que seria rapidamente desmontada após a vitória, não fosse Kasparov exigir a desforra - analisado ao pormenor. A mão de Deus e o mau perder de um homem que não sabia o que tal era, para ver no TSGM.

segunda-feira, Novembro 17, 2014

Is The Word 'Overrated' Ruining Film Criticism?

"And yet the problem with this overuse of 'overrated' is that such arguments tend to exist in a vacuum. It’s great to shake up the establishment, but if we challenge Hitchcock and Kubrick, are we then automatically burdened with offering up the alternative? The real issue is perhaps less to do with the attacks themselves, but with the perceived arrogance and cynicism of its author. Do critics always have the best intentions when they go after the "classics"? It's hard to say, but we can safely assume there will always be those who deliberately set out to incite scorn and unhealthy debate, just as there will always be the attention-seekers, the click-bait sensationalists. (...) The word 'overrated' should always be the beginning of a conversation, but never the end of one." [TEXTO INTEGRAL]

domingo, Novembro 16, 2014

1994


1994 não foi apenas um dos melhores anos da história do cinema, um que mereceu da nossa equipa uma edição dedicada e exclusiva. O ano do cão - segundo o zodíaco chinês - ficou também na história como aquele em que eles mesmos, os chineses, tiveram pela primeira vez ligação à internet, o Príncipe Carlos de Gales foi atingido com dois tiros em Sidney, na Austrália e o colombiano Andrés Escobar marcou um autogolo no campeonato mundial de futebol nos EUA que acabaria por carimbar uma certidão de óbito emitida pelos barões de droga que muitos milhões perderam com a eliminação da selecção de Asprilla, Valderrama e companhia. Houve mais, muito mais. O heptacampeão Michael Schumacher, por exemplo, ganhou o seu primeiro título mundial de F1 no mesmo ano que o lendário tricampeão brasileiro Ayrton Senna morreu em Imola, durante o Grande Prémio de São Marino. A nível presidencial, Nelson Mandela foi eleito o primeiro presidente democrático da África do Sul, Richard Nixon faleceu em Nova Iorque vinte anos após ter abandonado o cargo mais importante do planeta e, em França, uma revista lança um escândalo ao publicar fotos de uma suposta filha secreta do presidente François Miterrand. Nada que a inauguração do Túnel da Mancha, após sete anos de trabalhos que envolveram mais de quinze mil trabalhadores, não ofuscasse, permitindo agora a ligação entre gauleses e britânicos em rápidos trinta e cinco minutos.

Na mesma altura do ano, mas no outro lado do Oceano Atlântico, O.J. Simpson tentava escapar da polícia no seu Ford Bronco branco após assassinar a sua ex-mulher e namorado. Calma, eu sei que "The Juice" não foi condenado por estes crimes. Pinto da Costa também não pelo Apito Dourado, e isso não invalida que todos nós ignoremos os factos - e as chamadas telefónicas que circularam pela internet. E, por falar em malta que não batia bem dos carretos, o adorado compositor e cantor dos Nirvana, Kurt Cobain, suicidou-se em casa com um tiro de caçadeira, um mês após o nascimento de Justin Bieber. Já vi teorias de conspiração criadas por menos. No ano que morreram lendas como Cesar Romero, Matt Busby, Telly Savalas, John Candy Jacqueline Kennedy Onassis, Jessica Tandy ou Burt Lancaster, o mundo viu nascer também Dakota Fanning, Harry Styles (One Direction) e Raheem Sterling (jogador do Liverpool), apenas para referir alguns.

Numa época em que não haviam iPhones, iPads nem iNadas, os Oasis lançavam o seu álbum de estreia e "Don't Turn Around" dos Ace of Base e "All I Wanna Do" de Sheryl Crow tocavam a toda a hora, em todas as rádios. Bryan Adams, Bon Jovi e Sting estavam na berra e o punk rock finalmente tornou-se vital, com bandas como Green Day, Offspring e Bad Religion a pavimentarem uma estrada que depois seria usada por muitas outras nos últimos vinte anos. Michael Jackson tentava dar nas vistas ao casar-se com Lisa Marie Presley - ou seria o inverso? - e os Aerosmith tornavam-se a primeira banda de renome a lançar em exclusivo uma música na internet. A mesma internet onde a Amazon.com era inaugurada em Junho. "Need for Speed", "Tekken", "Sensible World of Soccer" e "Daytona USA" arrasavam nas lojas de videojogos, no ano em que a consola que mudaria o mundo foi lançada. Falamos, obviamente, da primeira Playstation. A Sega Saturn também saiu neste ano mas o destino traçou-lhe sorte diferente.

Mas o que mais impressiona em 1994, é olhar para trás e ver a quantidade de super estrelas de Hollywood que estreou-se na representação nesse ano: Cate Blanchett (Police Rescue: The Movie), Cameron Diaz (The Mask), Jude Law (Shopping), Ewan McGregor (Being Human), Natalie Portman (Leon), Mark Wahlberg (Renaissance Man), Jonathan Rhys Meyers (A Man of no Importance), Liv Tyler (Silent Fall), Haley Joel Osment (Forrest Gump), Claire Danes (Little Women), Jessica Alba (Camp Nowhere), Greg Kinnear (Blankman), Chris Tucker (House Party 3), Kate Winslet (Heavenly Creatures), Liev Schreiber (Mixed Nuts), Scarlett Johansson (North), Michelle Williams (Lassie), entre tantos, tantos outros que hoje são parte da nossa vida enquanto cinéfilos. O resto, tudo o resto que envolva cinema e/ou televisão em 1994, segue-se nas próximas páginas. Porque recordar é viver.

Artigo originalmente publicado na Take 37 - 1994.

sábado, Novembro 15, 2014

Take 37 - 1994


THE PULP REDEMPTION

O desafio lançado à redacção para esta Take 37 era escolher o melhor ano da história do cinema e, de forma, retroactiva, dedicá-lo uma edição que seria escrita como se no final desse ano estivéssemos. O desafio acabou por ser demasiado audacioso (do mercado VHS à análise de grandes obras que só anos mais tarde tornaram-se reconhecidas e chegaram a Portugal) e, a meio caminho, decidimos que tal viagem no tempo, para se revelar eficaz, informada e competente, necessitaria de outras bases de investigação, de outra disponibilidade de uma equipa que não quer colocar em causa a excelência de um projecto que vive e sobrevive da sua unicidade. Ainda assim, escolhido o ano de 1994 de forma democrática - 1984 e 1995 foram os partidos da oposição mais votados -, pusemos mãos às obras no formato habitual da Take e orquestramos um verdadeiro compêndio nostálgico sobre o ano em que Simba, Forrest Gump, Léon, Red, Stanley Ipkiss e Vincent Vega, entre muitos outros, entraram para a história da sétima arte. A conclusão de que 1994 foi mesmo a melhor escolha chegou aquando da elaboração do Top 50 do ano; é que cinquenta espaços não foram suficientes para evitar que filmes que ainda hoje são recordados com saudade ficassem fora do grande artigo deste número. E, até na televisão o ano do cão marcou o início de séries que entrariam para a história, como Friends, ER ou Party of Five. Cinéfilos e saudosistas, eis o ano certo no sítio certo.

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sexta-feira, Novembro 14, 2014

The Only Way Out is All In

quinta-feira, Novembro 13, 2014

Let's Be Cops (2014)

Quem for assistir à nova comédia do nova-iorquino Luke Greenfield ("The Girl Next Door" e "Something Borrowed") sem preconceitos cinéfilos formados ou grandes expectativas, conseguirá certamente soltar uma mão cheia de gargalhadas, por pior que lhe tenha corrido o dia. E esse é o maior elogio que pode ser feito a uma fita que explora de forma extremamente eficaz o mundo de oportunidades resultantes da sua premissa tão simples quanto ousada: dois polícias fardados que não o são de verdade. A química entre Wayans e Johnson disfarça alguma falta de talento e tudo o resto tem que ser contextualizado de acordo com o único objectivo de "Armados em Polícias": divertir o espectador e tentá-lo a imaginar-se, nem que seja por instantes, na mesma situação da dupla principal. Criticá-lo, como muitos o fizeram, por uma narrativa criminal previsível e um vilão estereotipado, é pura patetice. Equiparada a analisar futebolisticamente a prestação de um defesa pelos golos que marcou num jogo.

quarta-feira, Novembro 12, 2014

Speed (1994)

Clássico de acção que marcou a estreia do cinematógrafo holandês Jan de Bont na realização, o maior elogio que pode ser feito a "Perigo a Alta Velocidade" é que é, ainda hoje passados vinte anos, o melhor exemplo de como um blockbuster de acção pode ser equilibrado nas suas demais variantes, misturando de forma perfeita a química do seu duo protagonista (Keanu Reeves e Sandra Bullock) com uma narrativa competente e multifacetada, um ritmo alucinante constante e um vilão (Dennis Hopper) tão enigmático e calculista que consegue aterrorizar mesmo na sua presença passiva no ecrã. Enérgico, romântico, divertido e tenso, o filme de Jan de Bont entrou nas graças da crítica - Roger Ebert deu-lhe nota máxima - e do público - Quentin Tarantino considera-o um dos vinte melhores filmes do último quarto de século - e mereceu, sem dúvida alguma, as duas estatuetas douradas em categorias técnicas que levou para casa. Juntem a tudo isto diálogos vibrantes escritos por Joss Whedon e... pop quiz, hotshot!

terça-feira, Novembro 11, 2014

TCN 2014: Almoço ou Lanche?

A propósito das revelações feitas em primeira mão ao "Hot & Not" do TVDependente, deixo aqui um mini-inquérito que peço que seja apenas votado por todos aqueles que tencionam estar presentes dia 10 de Janeiro de 2015 na entrega dos TCN Blog Awards 2014. Neste momento, duas opções em cima da mesa:

- Almoço com menu pré-definido, reserva obrigatória e preço fixo por pessoa (aprox. 15€), ao estilo do que é feito nos Globos de Ouro norte-americanos;

- Lanche, com reserva obrigatória mas consumo livre, ao estilo da cena final de cada episódio de Seinfeld.


segunda-feira, Novembro 10, 2014

Mike Bassett no Kickstarter

domingo, Novembro 09, 2014

The Challenger (2013)

Os primeiros minutos de "The Challenger" são desarmantes: quem esperava que o famoso desastre da nave espacial Challenger em Janeiro de 1986 fosse o culminar de uma história sobre astronautas e heróis com um futuro hipotecado, rapidamente perceberá que a catástrofe nada mais é do que o ponto de partida para uma produção televisiva da BCC tão emocional quanto instrutiva. Baseada nas investigações da Comissão Presidencial sobre as causas do acidente, a narrativa foca-se na perspectiva do único "independente" do grupo, um homem sem interesses governamentais, militares ou empresariais que pudessem condicionar ou adulterar a evolução natural do processo. É ele o nobel Richard Feynman, físico brilhante - um dos que trabalhou no Projecto Manhattan - sem papas na língua e cuja integridade se manteve intocável durante todo o inquérito. Num papelão irrepreensível de William Hurt - desde "The Village" que não o via tão destacado -, descobrimos a forma como Feynman resolveu o mistério e revelou, inesperadamente e em directo na televisão, que a NASA poderia ter evitado o desfecho dramático daquela missão espacial caso não tivesse arriscado jogar com uma variável - a da temperatura ambiente na altura do lançamento - cujos resultados eram desconhecidos. "The Challenger" não é apenas uma boa história, é uma boa história bem contada. Porque a linha que separa o homem e a máquina é ténue e frágil e é bom ser relembrado disso de vez em quando.

sábado, Novembro 08, 2014

Bullets over Broadway (1994)


Regresso de Woody Allen à comédia pura depois de vários dramas e romances com o requinto humorístico único do realizador e guionista nova-iorquino, "Balas Sobre a Broadway" narra a história de David Shayne (John Cusack), um dramaturgo inexperiente da Broadway que procura maneira de arranjar financiamento para transformar o seu último guião numa peça de teatro. Quando um produtor amigo (o saudoso Jack Warden) avisa-lhe que a sua única esperança está em dar um dos papéis principais à namoradinha (Jennifer Tilly) histérica, inculta e arrogante de um dos mais temidos chefes da máfia da cidade (Joe Viterelli), David começa por se opôr mas, à falta de alternativa, aceita o negócio. E a sua vida pessoal e profissional nunca mais será a mesma.

Tudo o que se segue, dos diálogos deliciosos às reviravoltas tão simples quanto inesperadas da narrativa, é Woody Allen no seu melhor. Da outrora célebre e respeitada senhora do teatro que não passa agora de uma alcoólica com sede de fama, capaz de seduzir o homem/artista só para garantir o regresso às luzes dos holofotes, ao actor em dieta que começa os ensaios a beber água com limão e acaba a comer tudo e mais alguma coisa, de pernas de frango a biscoitos de cão, sem esquecer o encenador amigo (Rob Reiner) que, por não conseguir passar nada do papel para o palco, considera-se um autor de arte e não de hits, um verdadeiro filósofo que desafia o espectador com uma questão provocadora: se de um prédio em chamas apenas fosse possível salvar a última e única cópia conhecida de uma peça de Shakespeare ou a vida de um qualquer anónimo, o que faria o verdadeiro dramaturgo?

Mas o grande trunfo do filme de Allen, a carta que sai da manga do realizador e muda por completo o destino do jogo, é o guarda-costas grosseiro e implacável que acompanha a namorada do chefe mafioso nos ensaios, não só para assegurar a sua segurança das ameaças dos gangues adversários, como para garantir a relevância da pseudo-actriz na peça, a única condição do financiamento interesseiro do chefe. Sentado no fundo do teatro, a ler o seu jornal, Cheech começa a mandar aos poucos algumas dicas em voz alta para alterações no guião que, surpreendentemente, todo o elenco concorda, para desespero de David, que se sente artisticamente desautorizado por um "gorila". Mas a verdade é que não vai demorar muito para o dramaturgo perceber que é Cheech o verdadeiro génio teatral na sala e que, para alcançar a ribalta, terá que vender a alma ao diabo, pedindo ao brutamontes por conselhos que levem o seu trabalho a outro patamar. E será Cheech, enervado pelo facto da namorada do patrão estragar por completo as suas ideias, que terá que resolver o assunto pelas próprias mãos, dando razão a uma famosa frase Woody Allen numa entrevista: um artista, seja qual for a sua arte, cria o seu próprio universo moral. E é ai que percebes que Cheech, o mais improvável de todos, o único em "Bullets over Broadway" que leva a arte a sério.

Comédia negra de bastidores, Woody Allen reúne de forma primorosa em "Balas sobre a Broadway" os principais elementos da sua filmografia: a meditação conturbada sobre o amor, a arte e o sexo. A estes temas junta um elenco de estrelas que funciona em conjunto - três nomeações (Tilly, Wiest e Palminteri) e uma vitória (Wiest) nos Óscares - e uma narrativa tão complexa e divertida quanto acessível a todos os públicos. Considerada por alguns críticos como a última grande comédia de Allen, "Bullets over Broadway" revela-se uma sátira corrosiva ao mundo hipócrita e pretensioso do teatro - e do cinema, por arrasto óbvio -, numa reconstrução maravilhosa de uma cidade mágica nos anos vinte do século passado.

sexta-feira, Novembro 07, 2014

Cinema Gourmet

quinta-feira, Novembro 06, 2014

Hours (2013)

"Horas" enfrenta sem sucesso dois grandes problemas: o primeiro, o facto de não se basear numa história verídica, o que retira automaticamente parte do impacto da sua narrativa numa audiência desesperada por descobrir heróis de carne e osso de uma catástrofe recente (2005) que transformou parte dos Estados Unidos da América; o segundo, a incapacidade do recém-falecido Paul Walker de conquistar a tela e a empatia do público num filme que vive da sua interpretação e para a sua interpretação. Juntemos a isto uma direcção artística absolutamente banal e buracos no guião do tamanho do olho do Furacão Katrina e o resultado final não podia ser outro que não uma fita tão desnecessária quanto desinteressante.

quarta-feira, Novembro 05, 2014

Prisoners (2013)

Perdido algures entre o ambiente sórdido de "Mystic River" e a fluidez narrativa de "Gone Baby Gone", "Raptadas" explora a mesma fórmula dos supracitados sem que essa redundância narrativa o prejudique minimamente na construção de uma trama tão envolvente e sufocante, quanto misteriosa e sensível. Com um elenco de luxo - Jackman longe da acção e perto do coração, Dano imerso num vazio asfixiante e Gyllenhaal irrepreensível como é costume - e uma cinematografia de primeira linha, o canadiano Denis Villeneuve ("Incendies") oferece-nos um filme emocionalmente complexo que joga de forma violenta com questões sensíveis como a fé e a justiça. Pena apenas aquele final em aberto, que mesmo que arriscado e inesperado, deixa o espectador em águas de bacalhau, desiludido na expectativa de um desfecho morbidamente triunfal.

terça-feira, Novembro 04, 2014

Fury (2014)

No seu melhor - e o seu melhor são duas cenas portentosas que nos colam à cadeira de uma forma visceral e nos atiram, mentalmente, de modo desamparado para dentro do ecrã, ansiosos e hesitantes sobre o resultado final de cada uma delas -, "Fúria" é um estudo brutal sobre o efeito da guerra em homens que nunca imaginaram ter que tornar-se bestas para conseguirem sobreviver. Falo obviamente da ceia com as duas alemãs, onde o desejo carnal de personagens até então respeitadas pela audiência sobrepõe-se aos valores daqueles rapazes íntegros que um dia foram e, claro, toda a sequência final, onde a vontade de viver é trocada pelo sentido de responsabilidade e dever para com a humanidade, pela amizade e camaradagem entre colegas de armas . Eximiamente construído por David Ayer (responsável pelo notável "End of Watch" e guionista do marcante "Training Day"), "Fury" declara-se de coração aberto e visual irrepreensível como uma das melhores propostas do género da última década.

segunda-feira, Novembro 03, 2014

Coherence (2013)

Produto tão estranho quanto cativante, "Coherence" é um daqueles ovnis independentes de ficção científica que surgem de quando em vez e, graças ao passa a palavra, arrebatem e entusiasmam infindáveis cinéfilos pela forma criativa e inventiva como a falta de orçamento é combatida em prol de um guião tão complexo quanto magnético. Espécie de "Twilight Zone" para todos os públicos, o puzzle que o estreante James Ward Byrkit monta peça a peça - que é como quem diz, minuto a minuto - torna-se com o passar de cada cena cada vez mais lógico e racional, aberto à descoberta de detalhes visuais e narrativos que permitam desvendar o mistério em causa. O resultado final é provocador e a verdade é que, independentemente da nossa apreciação, "Coherence" tem o mérito de criar o seu próprio subgénero, o de realidades paralelas que lutam entre si pela sobrevivência. A descobrir.

domingo, Novembro 02, 2014

Prefiro morrer de pé do que viver de joelhos


Para informação e divulgação, anuncio que a Take Cinema Magazine, por decisão do seu director, decidiu ao final da noite do dia 31 de Outubro passado renunciar a qualquer participação e envolvimento nos TCN Blog Awards 2014 e futuras actividades, pedindo inclusive para deixar de fazer parte do naming (T) dos prémios já nesta edição, mesmo que nada fosse pedido em troca de agora em diante. A decisão da Take surge semana e meia após ter apresentado a minha demissão do cargo de editor da revista, depois um desentendimento a nível do planeamento da Take 38, que impossibilitava que mantivesse o título e a responsabilidade de editar a publicação. Que fique bem claro que serei sempre escravo dos meus princípios, ideais e valores e nunca de uma paixão. De forma talvez ingénua, acreditei que esta minha saída de um projecto para o qual sempre dei tudo e tudo deixei, não afectasse minimamente a colaboração entre a revista e o Cinema Notebook na organização destes prémios. Estava claramente enganado. Anuncio então que devido a esta mudança a nível organizacional, os prémios passam a intitular-se agora... TCN Blog Awards. The Cinema Notebook Blog Awards. Para 2015 e adiante, os prémios terão provavelmente novo organizador e patrocinador associado, o que resultará num novo naming dos galardões.

Em relação à minha saída da revista, e tendo em conta que não sei se a última edição em que exerci o cargo de editor e deixei encerrada para paginação conjuntamente com a minha fantástica redacção de uma dezena de colaboradores - a Take 37, dedicada a um ano em específico, aquele que em votação considerámos ser o melhor da história do cinema - será ou não publicada como previsto durante o mês de Novembro, resta-me afirmar que a mesma simboliza tanto um fim como um início. Chegou a hora de arriscar e levar avante uma ideia antiga até agora arrumada na gaveta por incompatibilidade com a Take. Pouco ou nada adiantarei antes de Fevereiro/Março de 2015, podendo apenas dizer-vos que a blogosfera nacional de cinema e televisão continuará a ser o meu banco de sangue intelectual, local donde continuarei a recrutar verdadeiros talentos para tornar mais um sonho real. Ficam quase sete anos de Take para trás, seis deles como editor, com a clara sensação de que, a nível pessoal e tendo em conta as limitações da minha posição subordinada e dependente, nada ficou por dizer ou fazer. Agora, e porque continuará naquela redacção uma equipa fenomenal que nunca pediu nada em troca por tantas horas perdidas, resta continuar a acompanhar a Take como leitor. Os TCN, esses continuarão, com mais ou menos prémios, com mais ou menos convidados, com mais ou menos projecção mediática. Porque aqui sim, sou escravo de mim próprio.