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segunda-feira, agosto 21, 2017

Joy Ride (2001)

"Era só uma brincadeira", diz uma das personagens quando vê a vida a andar para trás. Too late; amor com amor se paga e John Dahl ("Rounders"), com base num guião co-escrito pelo hoje em voga J.J. Abrams, constrói um maniac flick muito mais sólido e relevante do que aquilo que o género normalmente tem para nos oferecer. Astuto, surpreendentemente bem interpretado pelo trio Walker/Zahn/Sobieski - o que é feito desta última?!? - e divertido, "Joy Ride" não recorre aos sustos de algibeira para atingir o seu propósito, mantendo sempre uma frescura e personalidade característica que, rezam as crónicas, foi completamente abalroada nas duas sequelas direct-to-video que lhe seguiram. Não é nenhum clássico, mas década e meia depois, mantém-se fino.

domingo, julho 13, 2014

Mean Machine (2001)

Danny Meehan (Vinnie Jones) é o antigo capitão da selecção inglesa, um jogador de futebol cuja carreira de sucesso foi subitamente interrompida por corrupção desportiva, comprovada num duelo Inglaterra-Alemanha onde Meehan falhou propositadamente um penalty para beneficiar os seus interesses nas apostas ilegais. Sem trabalho nem família, perde-se agora pelos caminhos penosos da vodka e do whisky, o que lhe leva a agredir dois polícias que o tentam multar por conduzir alcoolizado. Condenado a três anos de encarceramento, Meehan é recebido na prisão de forma mista: uns nem acreditam que vão poder confraternizar com um ídolo; outros detestam-no e querem que sofra por ter feito a selecção inglesa perder aquele jogo decisivo com os germânicos. Mas quando o director da prisão o convida para treinar a equipa dos guardas prisionais - contra a vontade e ameaças destes últimos -, Danny sugere criar a sua própria equipa de prisioneiros para desafiar os guardas num jogo amigável. Nesse momento, todos os seus colegas percebem que esta partida será uma oportunidade única de vingar, sem represálias, todas as injustiças de que são alvo diariamente.

Remake de um êxito dos anos setenta de Robert Aldrich, "A Máquina" não tem a criatividade e vitalidade do original dedicado ao futebol americano com Burt Reynolds no papel principal, mas não deixa de ter o seu encanto no desencanto rude do seu protagonista - ele próprio um ex-futebolista na vida real - e na forma surpreendente como o desporto em si é filmado, com actores claramente escolhidos a dedo pela forma como tratam a bola com os pés. À excepção das que envolvem o guarda-redes marcial de Jason Statham, quase todas as jogadas são minimamente credíveis, perdendo-se inesperadamente o guião em gags rídiculos de corredores, celas e balneários completamente despropositados. Destaque final para Jason Flemying na pele de um comentador desportivo muito pouco convencional.

sábado, maio 23, 2009

Training Day (2001)

Alonzo Harris (Denzel Washington) é um veterano agente da brigada de narcóticos de Los Angeles que trabalha nos limites – ou para lá dos mesmos - da legalidade na luta contra o tráfico de droga e os delinquentes das zonas mais problemáticas da cidade. Jake (Ethan Hawke), por sua vez, é um jovem polícia de trânsito cujo objectivo é fazer parte da brigada de Harris. Quando consegue uma oportunidade – um dia de treino onde ficará provado se tem perfil ou não para fazer parte da elite -, o seu sentido de justiça e rectidão irá chocar com as estratégias sujas do seu mentor, um dos mais bem construídos anti-heróis desta década.

Sem dúvida alguma o melhor filme da carreira do norte-americano Antoine Fuqua (viria a dirigir posteriormente obras como “Tears of the Sun”, “King Arthur” ou “Shooter”), “Dia de Treino” é um retrato em forma de thriller da actividade das brigadas de narcóticos nos Estados Unidos, que tem como grande trunfo narrativo a dualidade de opiniões que provoca no espectador sobre a validade de utilização de métodos duvidosos para impedir situações, também elas, pouco lícitas. Esse interessante confronto sobre questões como a corrupção e a redenção, é espelhado de forma perfeita na relação das duas personagens principais, cujas bases meta sociais dão também origem a um par de interpretações de alto calibre, que valeram, inclusivamente, um Óscar para Denzel e uma nomeação para Hawke.

O seu final inteligente, moldado numa batalha de traições entre o bem e o mal, termina em grande estilo um filme cuja moral é simples: as autoridades para conseguirem fazer realmente a diferença têm elas próprias de quebrar regras e leis. O resto? É só deixar o talento de Denzel Washington levar o filme para um patamar de excelência.

sábado, janeiro 10, 2009

Serendipity (2001)

Jonathan Tragger (John Cusack) e Sara Thomas (Kate Beckinsale) conhecem-se, por mero caso, na véspera de Natal, quando ambos procuram comprar o último par de luvas disponível numa loja. A empatia entre ambos é instantânea e a curiosa conjuntura leva a que Jonathan queira encontrar-se de novo com Sara. Comprometida – apesar de encantada com a maneira de ser de Jonathan -, Sara escreve o seu nome e o seu número de telefone num livro, afirmando que o vai colocar à venda numa livraria de Nova Iorque. Se o destino quiser que ambos se unam, tal acontecerá. Da mesma forma, Jonathan faz o mesmo, mas numa nota de cinco dólares. Será que o “once in a lifetime” poderá acontecer mais do que uma vez?

Os motivos de interesse que sustentavam a viabilidade económica de “Feliz Acaso” eram vários: um elenco secundário de respeito, a promessa de um romance baseado nos caminhos imprevisíveis do destino e a junção em papéis principais de duas das figuras mais desejadas pelo grande público da indústria comercial cinematográfica norte-americana. E a verdade é que “Serendipity” acabou por funcionar na bilheteira, arrecadando o dobro dos seus custos, mas fracassou em certa medida nas mais variadas esferas de análise. A razão é simples: a narrativa de “Feliz Acaso” é simples, previsível e só pode agradar aos que conseguirem sobrepor a história de amor, pateta tal como o sentimento, sobre a lógica da razão.

O significado do título original deixa adivinhar isso mesmo: uma aptidão aparente para descobertas fortuitas e acidentais. E ao aplicar tal fado ao guião, o realizador Peter Chelsom – o mesmo de “The Mighty” ou “Shall We Dance”, de resto num registo em que se sente confortável – fica à mercê da boa vontade da audiência em acreditar em tão indecifráveis coincidências. Quem o fez, como eu, provavelmente ficou arrebatado com uma das mais simpáticas e ternurentas histórias de amor transpostas para o cinema nesta década. Quem não o fez, sempre pôde aproveitar o exímio rol de interpretações, com especial destaque para os secundários Jeremy Piven e Eugene Levy, este último num desempenho brilhante, distante da personagem bacoca da saga “American Pie”. Se juntarmos à fórmula uma banda sonora agradável, estamos perante um daqueles filmes perfeitos para assistir com a alma gémea. Porque é sobre isso mesmo que “Feliz Acaso” trata.

domingo, abril 27, 2008

Lat sau wui cheun (2000)

"Help!!!" é, segundo as palavras do seu realizador, uma sátira política ao governo de Hong Kong e ao desinteresse patriótico dos seus cidadãos. Num registo irónico e pérfido às suas origens, a narrativa de To desenrola-se segundo as bases de um drama hospitalar frenético que opõe o livro de normas de funcionamento de um hospital demente contra a obrigação moral de alguns dos seus médicos mais puros de salvar vidas. Repleto de artimanhas estruturais - que passam desde a suposta desculpa de todo o baile artístico não passar de uma simples novela, ao mendigo que ganha a lotaria e gasta todo o dinheiro numa cirurgia plástica -, este desvio de estilo do carismático realizador de acção Johnny To acaba por saber a pouco, muito pouco. Sem congruência nem harmonia enquanto sistema, o filme funciona apenas como um conjunto isolado de "sketches" humorísticos, quase todos demasiado absurdos para serem respeitados enquanto tentativas lógicas e divertidas de crítica social.

Realizado, produzido e distribuído em apenas vinte e sete dias - e Johnny To gosta deste tipo de astúcias, bastando relembrar a cena de "Breaking News" onde, numa única sequência, filma dez minutos seguidos de tiroteios, perseguições e explosões - "Lat sau wui cheun" é uma comédia negra sem lugar numa futura retrospectiva cinematográfica do respeitado realizador de Hong Kong, que apenas nos últimos oito anos estreou vinte e três filmes. Resta um merecido destaque para Cecilia Cheung, a princesa Qingcheng de "The Promise", que em início de carreira patenteava rasgos de talento inquestionáveis.

sábado, junho 09, 2007

Harry Potter and the Sorcerer's Stone (2001)

Harry Potter e a Pedra Filosofal" é a primeira adaptação dos "best-sellers” da escritora britânica J.K. Rowling. Órfão de pai e mãe, o pequeno Harry, o rapazinho de óculos cujas aventuras livrescas conseguiram encantar miúdos e graúdos em todo o mundo, vive com os tios, terrivelmente malvados, e com um primo badocha, que odeia. No entanto, toda a sua vida muda quando recebe milhares (sim!) de cartas de um colégio de feitiços e magia chamado Hogwarts. Sem saber como e porquê, e com a ajuda de um gigante barbudo, Harry acaba por ir lá parar, e logo de imediato é reconhecido por todos, como “o único rapaz que sobreviveu”. Com os seus amigos Ron e Hermione a seu lado, Harry descobre então que os pais eram famosos feiticeiros e que o mago que os matou – mas que ficou com os poderes aniquilados pelo facto de o pequeno Potter ter sobrevivido – quer tentar roubar a Pedra Filosofal, elemento alquimista da vida eterna, fonte de todos os poderes mágicos.

Apesar de muitos, como eu, nunca terem lido as obras literárias de Rowling, ninguém hoje duvida que Harry Potter é um dos grandes fenómenos do início do milénio e que continua a mover multidões, ainda hoje, após quatro filmes e seis livros. Repleto de magia e de imaginação, este “Harry Potter and the Sorcerer’s Stone” dissipa um clima bem inglês por todos os poros, começando desde de logo pelo elenco - que até se dá ao luxo de conter John Hurt e Julie Walters em papéis ultra-secundários – e acabando, como é óbvio, na contextualização situacional das personagens. Com a árdua tarefa de agradar a fanáticos e de introduzir o “mundo mágico” de Hogwarts e a história pessoal de Harry a leigos, Chris Columbus consegue, através de um produto claramente familiar e não restritamente infantil, satisfazer e contentar ambas as partes.

Politicamente correcto, mas raramente enfadonho, “Harry Potter e a Pedra Filosofal” peca por alguma falta de densidade dramática nos seus acontecimentos basilares. Jogando pelo seguro, sem truques nem riscos que pudessem colocar em perigo a coerência incoerente do tudo quanto vemos na tela, Columbus volta a erguer uma obra que certamente irá perdurar no tempo, depois de realizar os míticos “Home Alone” e ser o argumentista de “Gremlins” e “Goonies”, tudo filmes marcadamente destinados a uma faixa etária inocente e pueril. Aqui, mais do que realizador, é um maestro que unifica as demais variáveis da obra literária de Rowling, de forma equilibrada e suficiente.

Em suma, “Harry Potter and the Sorcerer’s Stone”, sem inovar por aí além, acaba por ser um filme que transborda magia e competência. Estampando esperança nos sonhos dos mais pequenos, tanto o elenco como a equipa técnica não deixam ficar mal a espantosa máquina promocional que foi montada à volta deste filme de estreia, e que o transformou, na altura da sua estreia, como um dos filmes mais rentáveis de sempre. Pena que a literatura seja, sempre e sem excepção, um campo decididamente mais fértil para a imaginação sem limites.

terça-feira, junho 05, 2007

Kate & Leopold (2001)

Ele, Leopold, é um charmoso Duque e vive na aristocrática Nova Iorque de finais do Séc. XIX. Ela, Kate, é uma formosa e competente executiva da grande e moderna Nova Iorque do Séc. XXI. Enquanto ele vive na iminência de ter de anunciar um noivado sem amor, ela acaba de sair de mais uma frustrada relação amorosa. Um dia, enquanto perseguia um penetra de um baile na mansão onde vivia, Leopold é vítima de um estranho fenómeno natural que o transporta até à época de Kate. Entre inépcias e confusões, o inevitável acontece: Leopold, apaixona-se por Kate.

Apesar da realização competente do camaleónico James Mangold ("Girl Interrupted", "Identity" ou "Walk the Line") e da premissa sempre atractiva das viagens temporais, "Kate & Leopold" acaba por saber a pouco, num estilo pouco imaginativo e desafortunadamente conformista. Mesmo assim, a eterna namoradinha da América, Meg Ryan e Hugh Jackman abrilhantam uma obra que, apesar da falta de vigor e energia, consegue transmitir alguns momentos hilariantes, com algum charme e reverência. Não fosse Jackman, já na altura, um verdadeiro poço magnético de habilidade e formosura, numa personagem que apetrecha-se de similaridades infinitas com o seu recente desempenho em "Scoop", de Woody Allen.

E a diferença principal em relação a este último é simples: falta o toque de génio de um humorista eficaz. Porque não fosse esta a primeira experiência no género de Mangold e certamente "Kate & Leopold" não teria sido angustiadamente previsível. Infelizmente, um bom conceito sem estrutura de pouco vale, e o maior trunfo do filme - além da dupla principal - acaba mesmo por ser o secundário Breckin Meyer, que compete através da sua banalidade sócio-cultural, com as reacções da aristocrática e bem educada personagem de Jackman, à incivilidade estabelecida na nossa sociedade de consumo. Com o potencial inerente em mente, "Kate & Leopold" acaba por afigurar-se insignificante, apesar de delicado.

quinta-feira, março 01, 2007

The Tailor of Panama (2001)

Baseado num dos romances de espionagem mais conhecidos de John Le Carré – autor, entre outros, de “O Fiel Jardineiro” -, temos Geoffrey Rush como Harry Pendel, um ex-condenado transformado em alfaiate dos ricos e corruptos, e casado com a inteligente e sensual Louisa (Jamie Lee Curtis). Realizado por John Boorman e tendo como pano de fundo o enigmático Canal do Panamá, onde nada é o que parece, contamos ainda com Andrew Osnard (Pierce Brosnan), um elegante e impiedoso sedutor espião britânico, que obriga Harry a transmitir-lhe o que dizem os poderosos políticos que veste. O talento de Harry para contar histórias leva-o a tecer uma elaborada intriga que não só é levada a sério, como origina uma cadeia de acontecimentos que ameaça destruir tudo aquilo a que ele dá mais valor na vida.

“O Alfaiate do Panamá” é um filme esquivo, mas digno de interesse, que mistura, de forma muito pouco ortodoxa, uma certa trafulhice visual com um sentimento de absurdo cómico. O seu estilo alterna em vários momentos da obra entre o thriller de espionagem e a sátira politíca, como bem demonstram as personagens bipolares de Brosnan e Rush. Felizmente, e ao contrário do que foi “vendido” - e ainda hoje o é, com a capa do DVD a dar especial proeminência ao ex-Bond – a película é muito mais de Geoffrey do que de Pierce. E tal como Rush, o filme é ele próprio estranho.

O argumento foge ao usual, com uma polissemia que transforma várias ocasiões em ensejos de vários significados. Com uma faceta complicada, expressiva e veloz, “The Tailor of Panama” é dono de uma versatilidade que o prejudica. Isto porque, ao contrário do que foi feito na adaptação da outra obra de Le Carré previamente citada, a história em si parece perder influência e autoridade para os devaneios de realização de Boorman. Por outras palavras, o mistério literário perde a sua alma para a Sétima Arte e as suas manhas habituais. Um filme que satisfaz mas não ilude.

segunda-feira, fevereiro 20, 2006

Sweet November (2001)

Doce Novembro é um "remake" baseado num roteiro de Herman Raucher, filmado em 1968. Nesta versão, protagonizada por Charlize Theron e Keanu Reeves, a história de um romance experimental está ambientada para os nossos dias. Theron é Sara, uma mulher de espírito livre que cruza o caminho do executivo Nelson (Reeves). Nelson é um “workaholic” que deseja apenas ser deixado em paz para continuar com a sua carreira promissora. Mas Sara oferece um acordo pouco convencional: viverem juntos durante um mês, sem laços profundos, e em troca ela o "ajudará" a ser um novo homem. Intrigado pela proposta, Nelson aceita, acabando por encontrar com Sara coisas que ele nem imaginava estar dentro dele. Conforme essa mudança ocorre, Nelson percebe o que tem perdido por colocar a sua carreira como centro da sua vida. Entretanto nada é tão fácil quanto parece e Nelson descobre que Sara também tem seus segredos.

Arrasado pela crítica em geral, tanto nacional (lembro-me que salvo erro, no Público, o afirmaram como sendo mau até ao riso), como internacional, “Sweet November” foi apelidado em todo o lado como um filme para mulheres. Pois bem meus amigos, nada mais erróneo. Ou então estou mesmo a precisar, urgentemente, daquelas operações de mudança de sexo.

Este “Doce Novembro” ficará para sempre na minha memória, como o primeiro, e até agora único filme que realmente provocou-me uma lágrima no canto do olho. E a história repete-se vezes e vezes sem conta – ontem pela vigésima vez, revi-o e não resisti, mesmo sabendo toda a história de trás “prá” frente. Argumento básico e digno de um domingo à tarde na TVI? Sim, mas suficientemente bem tratado e interpretado pela bela e “doce” Charlize Theron, para “bater” no fundo do mais utópico dos românticos e fazê-lo querer sentir algo assim, um dia.

E não ficamos por aqui. “Sweet November” conta com uma das mais agradáveis e subtis bandas sonoras da história do cinema. Sim, leram bem, da história do cinema. Os temas interpretados por Enya encaixam nas diversas cenas dramático-românticas que nem Pitt na Jolie. Uma mistura explosivamente sentimental, que ajuda a demonstrar como duas personalidades completamente opostas acabam por ser inteiramente complementares.

A beleza, charme e interpretação de Charlize Theron não é, nem de perto, nem de longe, acompanhada ao mesmo nível por Keanu Reeves, que denota, neste género, bastantas e visiveís falhas. Mas “Doce Novembro” nunca pode ser visto como uma soma de partes, mas sim, como um todo. E por isso, a deficiente prestação de Reeves em vários aspectos, é completamente complementada por Theron e tapada pelo poder emocional do filme, e essencialmente, do seu final. E não esquecer o visual colorido e bem cuidado da cidade de São Francisco.

Desde que começei este blogue, que esperei pelo momento certo para escrever esta minha opinião sobre “Sweet November”. As razões foram várias, desde a falta de um consenso comum que o filme provoca, suscitando mais ódios que amores no público em geral, até ao saber que por mais e melhor que escrevesse, nunca iria retratar fielmente o que sinto por esta obra cinematográfica. Porque nenhuma fita além desta – e duvido que apareça mais alguma no futuro – tocou-me tão fundo mas ao mesmo tempo tão gentilmente na minha personalidade, talvez o melhor prémio para este “Doce Novembro”, seja mesmo quebrar todas as barreiras e fazer o que nunca fiz: saiem 6 estrelinhas para a menina Theron.

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domingo, janeiro 29, 2006

Requiem for a Dream (2000)

"A Vida Não É Um Sonho” é uma história moderna, vivida nas ruas de Brooklyn, onde se cruzam vivências paralelas de quatro pessoas que decidem procurar uma vida melhor. Por um lado existe Sara (Ellen Burstyn), uma solitária que redescobre o prazer da vida com a possibilidade de aparecer na televisão. Por outro, temos o seu filho Harry (Jared Leto), a sua namorada Marion (Jennifer Conelly) e o seu melhor amigo Tyrone (Marlon Wayans) que querem montar um negócio para viciados de venda de drogas leves porta a porta. Mas rapidamente todos descobrem que será difícil atingir as suas aspirações... recusando-se, no entanto, a desistir mesmo quando o destino lhes prega partidas ainda mais sérias.

Bem, o que dizer? “Requiem for a Dream” deve ser dos filmes mais pertubadores sobre o mundo dos “junkies”, ou seja, dos viciados (seja em heroína ou pura e simplesmente em comprimidos medicinais) já feitos. Darren Aronofsky realiza, assim, uma obra completamente soberba e dependente do seu grafismo e banda sonora. Cada imagem e cada som é exemplarmente bem tratado e transformado num momento de beleza indiscutível. Em termos técnicos, nada falha a este filme.

Sem moralismos, “Requiem for a Dream” pura e simplesmente mostra o percurso triste, mas real, de várias personagens ligadas, de um modo ou de outro, a um vicío, de uma forma muitas vezes chocante e até mesmo sádica, que nos provoca um nó na garganta. Cada personagem acarreta uma mensagem consigo, mensagem essa que variará consoante os nossos sentidos e vivências. “A Vida Não É Um Sonho” deixa, de uma forma despreocupada, o espectador navegar e simplesmente tomar conhecimento de factos reais, em que à medida que o vício vai ganhando força, o descalabro emocional e fisíco aumenta em cada uma das personagens.

Mas, como disse anteriormente, o maior trunfo deste filme é a sua realização e montagem. Aronofsky permite ao espectador ficar desconfortável com as sensações, sentimentos e angústias vividas por cada uma das personagens. É esse o seu maior trunfo, levar-nos ao limite.

Um filme extremamente sensorial, obrigatório para qualquer amante da vida humana. Porque a excelência não é um acto mas sim um hábito.

quarta-feira, novembro 02, 2005

The Glass House (2001)


Quando os pais de Ruby (Sobieski) e Rhett morrem num acidente de automóvel, a sua despreocupada vivência de adolescentes cai por terra. Mudar-se para a incrível casa de Malibu dos Glass (velhos amigos e vizinhos da família) parece ser o princípio de uma nova vida para eles. Mas Ruby depara-se pouco depois com informações que a levam a suspeitar que os seus novos tutores podem ter alguma coisa a ver com a morte dos pais. Agora, ela vê-se sozinha num duelo com o implacável e terrível casal. A razão? Ela é o único obstáculo entre o casal e a herança de quatro milhões de dólares que os seus pais deixaram.

Rotulado de assustador thriller psicológico, "The Glass House" foi a minha escolha para o dia das bruxas. Com Leelee Sobieski, Diane Lane e Stellan Skarsgard, pensei, efectivamente, que o rótulo, o título e este elenco me proporcionasse uma boa sessão de cinema, de acordo com o dia em que estava. Desde o seu início, com um ritmo elevado, "A Casa de Vidro" poderia ter sido muito, mas muito melhor, não tivesse o seu realizador caído na tentação de fazer tudo bater certo, de forma completamente previsível e com um final que agradasse a gregos e a troianos. Com excelentes rasgos de genialidade em algumas cenas, que realmente provocaram alguma tensão, o desfecho e as suas causas são praticamente perceptíveis desde o primeiro quarto de hora. Foi pena que o realizador não tivesse confiado na audiência e tentado fazer algo de inesperado, em vez da "porcaria" do costume, que agrada aos produtores. Melhores tempos virão. Por agora, e principalmente pelo bom desempenho do trio principal, sai uma sequência (5/10) para "A Casa de Vidro"!

segunda-feira, maio 23, 2005

Mulholland Drive (2001)

Rita (Harring), procura a memória perdida, ao mesmo tempo que tenta perceber porque é que alguém anda à sua procura, com intenções de a matar. Betty (Watts), uma jovem mulher recém-chegada a Los Angeles, com intenções de se estabelecer como actriz, vai ajudá-la na investigação. Adam Kesher (Theroux) é um realizador de cinema a quem é imposta uma actriz para o papel principal do seu novo filme. A recusa tem consequências drásticas no seu bem-estar físico e económico. Mistérios insondáveis da mente humana – de Lynch ou de uma das suas personagens – envolvem o principal fluxo narrativo, adicionando ingredientes como um estranho cowboy, um night-club que, numa aparente redundância, encena o artificial ou sonhos de outrem, sobre o terror escondido nas sombras das traseiras de um café. Apesar dos contratempos em redor da criação de «Mulholland Dr.», o objecto finalizado, não denota a existência de quaisquer espécie de “remendos”, para quem o percebeu. Eu digo-o já que só o percebi depois de fazer uma extensa procura na Internet sobre o seu significado... e assim não vale! O estilo narrativo de David Lynch, fundado numa lógica que se recusa a distinguir o real do imaginado, aliado a uma estrutura que subverte a lógica linear temporal, polvilhado por flashbacks e flashforwards, visões, pesadelos, sonhos dentro de sonhos e abstracções sem aparente resolução, mostrou ser o ideal para tal conversão. A aparente impenetrabilidade do argumento resulta mais da desistência do espectador, eventualmente aborrecido com a lenta exposição, do que com uma real aleatoridade ou com “Lynch a armar-se em Lynch”. O levantar pleno da cortina também pode não ser desejável, pois o realizador prefere despejar pistas atrás de pistas, para que o espectador as recolha e tente formar a sua própria visão (coerente?) dos acontecimentos. No final, em vez de clarificar, Lynch deixa-nos a reflectir sobre o que vimos, enquanto tentamos amarrar o maior número de pontas soltas.

David Lynch compara música com cinema, ao afirmar não entender porque é que se aceita universalmente a abstracção no primeiro dos meios, mas existe uma necessidade premente de produzir filmes que não deixem dúvidas algumas na mente das audiências. «Mulholland Drive» funciona, desde modo, em dois níveis. O da forma e o do seu conteúdo. Por um lado, como um sonho, desfilando imagens e sons interligados sem lógica aparente, com uma ligação fugaz à realidade, ao que vivemos durante o dia; por outro, com uma trama “convencional”, adensando-se ao longo de dois terços do filme e com uma resolução não completamente clara. Lynch continua a revelar-se um mestre da manipulação sensorial, um mago da narrativa não-linear, que consegue, como ninguém, levar as câmaras até aos mais obscuros corredores da mente humana. Quando acabei de visionar o filme disse: Que "coisa" absurda. Depois de descobrir todos os engenhos e ideias que David Lynch escondeu no filme, pensei: Fantástico!!! Espetacular!!! Mas como o que conta é o meu "low" QI e a minha percepção do filme no momento, não posso afirmar que este filme entrou nas minhas futuras memórias cinéfilas. Só não percebo como é que todos amam este filme. Será que todos entenderam a sua complexidade no momento, ou é só porque dá ar de "gente culta" falar bem deste filme? David Lynch sabe que o filme é tão inexplicável quanto a própria vida. E aí está a vitória de "Mulholland Drive". A vitória dele e de todos os "pseudo-intelectuais" que dizem ter percebido de imediato o filme. Eu não o fiz e como tal, não gostei. Independentemente de depois de "estudar o caso", o ter percebido bem e amado a sua complexidade.


N.D.R : http://www.cinedie.com/mulhollandreal.htm para explicação do filme.

quarta-feira, maio 11, 2005

The Others (2001)

Jersey, 1945. A 2ª Guerra Mundial terminou recentemente e Grace (Kidman) vive com os filhos, numa grande mansão vitoriana. O marido partiu para a guerra e não deu quaisquer sinais de vida desde o final do conflito. As crianças, Anne (Mann) e Nicholas (Bentley) sofrem de uma rara doença que os impede de estarem sob luz directa do sol, pelo que a casa permanece envolta em trevas, dia e noite. Uma vez que os antigos criados desapareceram sem deixar rasto, Grace decide contratar outros. Após uma série de ocorrências estranhas, ela começa a acreditar que a velha casa poderá estar assombrada. «Los Otros», a terceira longa metragem de Alejandro Amenábar e a sua primeira com fundos americanos vem uma vez mais demonstrar que é de fora de Hollywood que surgem as propostas mais válidas no campo do cinema de horror moderno. É certo que a Miramax investiu dinheiro na produção, ao lado da Sogecine e das Producciones del Escorpión, mas a equipa técnica é tão espanhola como a Jersey do filme. Os estúdios americanos tentam capturar o talento e as ideias e, se funcionarem, não pretendem estimular a originalidade de novos projectos, antes se preocupam em fazer remakes e em espremer estilos e temáticas quantas vezes for preciso, até que não dêem mais sumo.

Amenábar assina (argumento, realização e música) um filme “à antiga”, sem efeitos visuais vaidosos, sem sexo ou violência gráfica, criando inquietude e medo com base naquilo que não vemos, no que pode estar escondido nas trevas ou por detrás de uma porta, de onde se ouvem estranhos ruídos. O filme sustém-se largamente no trabalho dos actores, em particular no de Nicole Kidman, sem prejuízo das boas prestações das duas crianças e dos secundários. O argumento não nos faz exclamar “que original!”, existindo semelhanças inegáveis com outros títulos, alguns mais ou menos recentes, mas o que valida esta obra, como se disse, não é o remover das cortinas. O próprio realizador assume a sua intenção de pegar numa história simples (tal como o tratamento visual e formal, que nos remete para cinema de outra época), em contraste com a complexidade das personagens que são o seu motor. Mas fiquei com a sensação de que este filme nada inovou em termos de twists finais. E a referência clara não vos digo para não vos estragar o filme. E como tal, isso baixa um pouco a nota final.

sábado, janeiro 15, 2005

What Lies Beneath (2000)

"What Lies Beneath" começa com cerca de uma hora de truques e tácticas fáceis para assustar o espectador, através de fantasmas e fenómenos paranormais, mas que acabam por tornar a história completamente absurda, apesar de lá pelo meio, ainda proporcionar alguns bons momentos de cinema. O filme passa o tempo todo a pedir por um twist final que explique todos aqueles acontecimentos. Ou seja, não ocorre um twist que não fosse esperado. O argumento sofre disso e, devido às qualidades de Harrison Ford e Michelle Pfeiffer, o filme não passa de uma sombra do seu elenco. O fim acaba por ser previsível e mais engraçado que assustador. Faltou a este filme, alguém como Hitchcock que tivesse mudado o guião, tirando todas as partes sobre-naturais que tornam o filme absurdo. Ou então, um estudo melhor do sobre-natural na psicologia humana. Mas nem foi peixe, nem foi carne. Como já referi, Michelle Pfeiffer está muito bem no filme; ela é convincente e evita o maior problema dos actores nos filmes de terror: O "overreacting"! Harrison Ford prova não saber o que é falhar, mas, no entanto, não têm aqui uma representação por aí além. Concluindo, "What Lies Beneath" tenta atingir o nível de filmes como "Rear Window" ou "Psycho", mas o fim é simplesmente péssimo. Como tal, não passa dum filme dispensável para os amantes do género.

terça-feira, dezembro 28, 2004

Intacto (2001)

Juan Carlos Fresnadillo, o Shyamalan de Espanha? Tal como em "Unbreakable", "Intacto" entra pelo caminho das profundezas da mente humana sobre invulnerabilidades, fragilidades e dotes. Esta é uma história sobre homens abençoados com a sorte e tudo o que de mais radical e dramático estão dispostos a fazer para se consagrarem como os melhores. "Intacto" é um filme que fala dessa estranha e inexplicável coisa que é a sorte como uma entidade invisível mas quase física, capaz de passar de corpo em corpo como um vírus desejado. É admirável como Fresnadillo cria um mundo muito próprio, com uma lógica interna e regras bem definidas que rapidamente parece fazer todo o sentido ao espectador que estiver disposto a aceitar o jogo. Há um certo ambiente de sonho que o Fresnadillo não ousa levar às últimas consequências, mas que consegue criar inquietação suficiente para que não o percamos de vista numa das suas próximas aventuras. De "Intacto" pode dizer-se que é daqueles filmes que promete muito mais do que aquilo que pode, objectivamente, cumprir. Louve-se a ambição. No entanto, sublinhe-se a frustração que fica depois de hora e meia de boas ideias em busca de uma épica resolução que acaba por não acontecer. Seja como for, vale a pena descobrir.