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quinta-feira, dezembro 20, 2018

Guarding Tess (1994)

Uma fenomenal Shirley MacLaine no papel de uma ex-primeira dama norte-americana, agora viúva, com um feitio terrível; um então em voga Nicolas Cage nos sapatos do agente secreto que supervisiona a sua protecção, numa modesta vila onde pouco ou nada se passa. Um e outro não se suportam, mas ela exige que seja ele o cabecilha da equipa que a acompanha, dia após dia, nas suas idas ao golfe ou às compras. Uma relação tensa, estereotipada e previsível dentro de uma esfera humorística na primeira metade do filme, que se transforma aos poucos numa simpática história de amizade baseada na lealdade, abordando temas sensíveis como a morte, doenças terminais e a solidão na velhice, naquela que acabou por ser a obra mais conceituada na carreira de Hugh Wilson, realizador/guionista que faleceu muito recentemente.

sábado, dezembro 08, 2018

The Paper (1994)

"The Paper - Primeira Página" é um daqueles raros filmes que, propositadamente, não parece ter princípio nem fim. O dia-a-dia de uma redacção de um jornal nova-iorquino menor conjugada com as responsabilidades - e irresponsabilidades - familiares daqueles que lá trabalham, do executivo ao editor, do colunista à fotógrafa. O equilíbrio entre família e trabalho e o conflito profissional entre a verdade e as vendas num filme escrito pelo então editor da conceituada revista Time e interpretado por uma mão-cheia de oscarizados, com especial destaque para Keaton, Duvall e Glenn Close. Duas horas que poderiam ser vinte, num universo cada vez mais desactualizado e utópico de um tempo em que quase todas as dificuldades surgiam do facto de não haver telemóveis - avisar o marido de um problema de saúde - ou internet - não associar um apelido que reconhece das notícias.

sábado, março 24, 2018

Joshua Tree (1993)

"A Fúria de um Duro" envelheceu muito mal: as recordações que tinham sobrevivido durante duas décadas de um espectáculo de acção condimentado com Ferraris, um badass irrepreensível e uma jeitosa irresistível desvanecem-se rápido após uma nova visita à estante; afinal de contas, não há espectáculo nenhum, a realização/edição é tenebrosa - A passa constantemente para C como se B não existisse, sem noção de espaços ou mesmo de raccord material, não admirando que a carreira na cadeira maior do stuntsman britânico Vic Armstrong tenha ficado suspensa até nova banhada recente com Nicolas Cage -, Dolph Lundgren não convence enquanto anti-herói numa personagem completamente oca de emoções e ideias - nem um beijo técnico de jeito meu animal -, o vilão maior (George Segal) é um polícia pateta sem motivos justificados e mesmo as cenas de condução no limite são de uma banalidade atroz. Falta falar da jeitosa. Aqui a memória não me traiu: aquela combinação de ganga com top branco da desaparecida Kristian Alfonso atiram-na directamente para um virtual hall of fame de miúdas com quem eu curti na minha adolescência. Enquanto dormia, claro.

quarta-feira, agosto 16, 2017

Last Action Hero (1993)

"Pensei que ia morrer", disse o puto. "Bem, desculpa desapontar-te, mas ainda vais ter que lidar com a ejaculação precoce e o teu primeiro divórcio", respondeu Jack Slater, um herói de acção que não tarda nada vai descobrir que não passa disso mesmo, uma personagem ficcionada para entreter miúdos e graúdos. E é nesta onda descontraída, numa dimensão quase paralela onde Schwarzenegger já foi Hamlet e o Terminator pertence a Stallone que "O Último Grande Herói" do mítico John McTiernan deambula, num filme incompreendido que furou todas as expectativas do público ao fugir à pancadaria da grossa por qual todos salivavam e entrar num registo satírico não só ao género de acção, mas a toda a indústria de Hollywood. Cameos atrás de cameos e uma Bridgette Wilson - hoje Sampras - de babar e chorar por mais - não admira pois que no ano seguinte tenha sido recrutada para substituir Cameron Diaz no papel de Sonya Blade, na adaptação cinematográfica de Mortal Kombat. E Charles Dance, um eterno vilão mas também um actor um nível acima de todos os outros, Arnie incluído.

segunda-feira, junho 20, 2016

Timecop (1994)

Uma cena de sexo logo à papo-seco, Van Damme com um galo gigante na cabeça o filme todo não se sabe bem porquê, uma coerência narrativa entre o terrível e o delicioso - não se tratassem de viagens no tempo com pancadaria da grossa à mistura -, o nosso herói a distribuir biqueiradas com a sua soupless característica que nunca encontrou igual. A clássica espargata, desta vez em cima de uma bancada de cozinha, vários diálogos cheeky ("nunca me interrompas quando estou a falar comigo próprio"), um vilão à maneira - o subvalorizadíssimo e tristemente já falecido Ron Silver, que passou ao lado de uma grande carreira - e, claro, o meu velho amigo Jack Dalton, perdão, Bruce McGill. Lá pelo meio um twistzinho bem construído e uma realização competente, aliás como o nova-iorquino Peter Hyams nos habituou posteriormente em filmes como "Sudden Death", "The Relic" ou "End of Days". O melhor elogio? "Timecop" envelheceu bem.

sexta-feira, fevereiro 26, 2016

Super Mario Bros. (1993)

Primeiro videojogo com direito a adaptação cinematográfica - o que houve antes foram filmes sobre videojogos fictícios, como o "Tron" ou o "WarGames" -, "Super Mario Bros." foi a prova provada de que a primeira vez nunca corre bem, mesmo quando o assunto não se trata de sexo. Pesadelo de produção - cinco semanas previstas de filmagens estenderam-se até às dezassete -, muito por culpa do casal britânico de realizadores cuja "arrogância foi confundida com talento" (palavras de Bob Hoskins em entrevista recente), em "Super Mário" quase nada resulta: as mil e uma personagens do jogo são enfiadas na narrativa sem pés nem cabeça - o melhor exemplo são os cogumelos cabeçudos do jogo que no filme acabam personificados em bestas gigantes de cabeça minúscula - e nem o contributo do fantasmagórico Dennis Hopper no lado da vilanagem conseguiu salvar uma personagem com falas tão profundas como "adoro lama, porque é limpa e suja ao mesmo tempo" ou "see you later, aligator". Duas décadas depois, sobra o elogio deste entretanto tornado clássico ter servido de lição a todos os que o seguiram no género. Quanto à Nintendo, nunca mais tentou a brincadeirinha.

quarta-feira, fevereiro 17, 2016

Under Siege (1992)

Filme icónico desse monstro chamado Steven Seagal - homem que já fez de tudo um pouco, da música às artes marciais, mas cuja carreira cinematográfica morreu no século passado -, "Força em Alerta" é um clássico vintage dos one-man army movies dos anos noventa, talvez o único que conseguiu não só triunfar nas bilheteiras como sobreviver à crítica, alcançando inclusive, para surpresa de muitos, duas nomeações em categorias técnicas para os Óscares. Com um cozinheiro que faria Gordon Ramsay borrar a cueca, uma dupla de vilões de alto gabarito (o singular Gary Busey e o portentoso Tommy Lee Jones) e a Miss Julho 1989 da Playboy a interpretar uma... Miss Julho 1989 com um corpinho de bradar aos céus e um poder de interpretação que faz Seagal parecer o Marlon Brando nas cenas conjuntas, "Under Siege" merece uma visita de tempos em tempos, nem que seja para não deixar o nome de Andrew Davis ("Collateral Damage" ou "The Fugitive") cair em esquecimento. O que é feito deste valente?

quarta-feira, dezembro 16, 2015

Hard Target (1993)

Armas a voar, a imagem de criminosos reflectida em espelhos, pombas brancas, motas e uma mão cheia de slow motions. As imagens de marca de John Woo estavam todas presentes na sua primeira aventura em Hollywood, uma antecipada por enormes expectativas, ou não fosse o mestre do cinema de acção asiático um dos nomes em voga no início dos anos noventa em todas as escolas de cinema norte-americanas, culpa dos hoje grandes clássicos "The Killer", "Hard Boiled" ou "A Better Tomorrow". Para a sua estreia internacional, Woo pediu Kurt Russell mas foi Van Damme que lhe foi oferecido pelo estúdio; editou cento e vinte e oito minutos de fita, mas só pouco mais de noventa chegaram vivos ao cinema; quis focar a narrativa no seu implacável vilão - o soberbo Lance Henriksen, que viria a ganhar um Saturn pelo seu papel - mas foi o habitual herói, um dos actores mais desejados da época, que roubou os planos da censura para si. Ainda assim, "Perseguição sem Tréguas" é uma peculiar pérola na carreira de Woo, o preâmbulo de como o sistema viria a triturar o visionário.

sábado, outubro 31, 2015

The Chase (1994) + VHS Review


Um arranque a matar, ao som dos The Offspring, logo com um sequestro. Uma mão cheia de subplots hilariantes, qual sátira magistral aos mass media, com as gravações de um programa chamado "The Fuzz" (imitação do multipremiado "Cops"), polícias a serem entrevistados enquanto participam na perseguição, o helicóptero das autoridades indisponível por estar emprestado a um estúdio de cinema e a competição constante entre dezenas de canais de televisão para ver quem rouba o espectador para si. Vale de tudo um pouco, como o repórter que ao tudo supor - "com aquela pontaria, é ex-Marine de certeza" - molda para o público uma imagem totalmente errada do que realmente se passa. Como se não bastasse, temos ainda uma Kristy Swanson linda de morrer e um Charlie Sheen antes das drogas, das prostitutas e do álcool o terem despachado durante muito tempo. Uma mão-cheia de pormenores deliciosos: o ícone punk dos Black Flag, face do "fuck the police" Henry Rollins como... polícia; Anthony Kiedis e Flea dos "Red Hot Chilli Peppers" como saloios que querem ser heróis a todo o custo; e, por fim, o famoso Ron Jeremy - sim, esse mesmo da pornografia - como cameraman. Uma banda-sonora de excelência com os já referidos The Offspring, NOFX, Rancid ou Bad Religion. Tudo isto, e muito mais, relembrado com a malta do VHS num podcast dedicado a um dos meus guilty pleasures de eleição.

segunda-feira, dezembro 29, 2014

The Specialist (1994)

Realizado pelo peruano Luis Llosa - que mais tarde teria em "Anaconda" o grande hit comercial da sua carreira -, "The Specialist" é um guilty pleasure antigo aqui do estaminé. Por várias razões, quase todas elas nada cinematográficas. A primeira, porque no início dos anos noventa Sharon Stone era uma verdadeira vixen de Hollywood, uma cujas curvas, voz e glamour deixavam qualquer puto canastrão como eu de olhos vidrados, por mais insignificante que fosse o seu papel. A segunda, não menos importante, porque Miami, a bela Miami dos prazeres de South Beach, da art deco da Ocean Drive, do groove de Little Havana e das vistas esplendorosas de Key Biscayne trilhava os sonhos de quem nunca imaginou que um dia pudesse lá ir. E, por fim, o Stallone do costume e um Eric Roberts verdadeiramente detestável. Hoje, vinte anos depois, a casa onde quase tudo acontece continua a fazer parte dos principais tours da cidade; e essa é a maior prova da sua resiliência temporal e cultural.

sábado, dezembro 13, 2014

True Lies (1994)

Harry Tasker (Arnold Schwarzenegger) leva uma vida dupla: agente super secreto do governo norte-americano com licença para fazer tudo o que seja necessário para prevenir ataques terroristas, para a sua mulher e amigos não passa de um vendedor de computadores sem qualquer interesse. E eis que, quando está na pista de um conjunto de armas nucleares que estão nas mãos de um grupo de criminosos fanáticos, descobre que a sua mais que tudo (Jamie Lee Curtis) está a ter um caso com outro homem porque precisa de alguma excitação e aventura na sua vida. Conseguirá Harry parar os terroristas e salvar o seu casamento ao mesmo tempo?

Cocktail personalizado de acção, pirotecnia e boa disposição do sempre megalómano James Cameron, "A Verdade da Mentira" é entretenimento de primeira categoria, filmado de forma exímia e estruturado a nível de narrativa em perfeita harmonia com o estilo dos seus principais intérpretes. Se à partida muitos julgavam impossível qualquer espécie de química entre duas estrelas de campos tão opostos - a bela e o monstro -, rapidamente percebemos que acaba por ser essa mesma índole que conquista o espectador. Como que um James Bond casado e com filhos que salta constantemente entre cenas de humor e cenas de acção, coadjuvado na perfeição por uma dupla hilariante (Bill Paxton e Tom Arnold), Schwarzenegger voltava a mostrar - porque já não havia nada a provar - o seu talento para a comédia de acção. Para a história, uma sombra no fundo do quarto e um striptease tão sensual quanto irónico.

domingo, dezembro 07, 2014

Interview with the Vampire (1994)

Baseado numa obra de tremendo sucesso nos Estados Unidos da América nos anos setenta do século passado, "Interview with the Vampire: The Vampire Chronicles" foi planeado como o primeiro filme de uma série de capítulos cinematográficos dedicados à saga literária de Anne Rice, uma que, em grosso modo, pode ser comparada a nível de fanatismo e sucesso comercial à recente onda "Twilight" que assolou as livrarias, os cinemas e, porque não, assombrou os cinéfilos nos últimos anos, também com vampiros à mistura. A comparação é ingénua, já que num género dominado pela futilidade juvenil, "Entrevista com o Vampiro" é uma pedra rara e preciosa. A sua sequela, "Queen of the Damned" oito anos depois, baseada no terceiro livro da saga (ninguém percebeu onde foi parar o segundo), já é outra conversa. Uma que não merece espaço nesta análise.

Mas comecemos pela polémica que se instalou entres fãs, fanáticos e a própria escritora quando Tom Cruise foi escolhido para o papel de Lestat na adaptação cinematográfica de Neil Jordan. Demasiado baixo, afirmaram alguns; muito comercial, criticaram outros; e, preparem-se, expoente máximo de heterossexualidade e do machismo em Hollywood, numa personagem que se queria incerta sobre a sua sexualidade. Ora bem, o que acabou por acontecer foi que Cruise convenceu gregos e troianos com a sua interpretação cativante de uma criatura diabólica e emocionalmente conturbada, entregando-se de corpo e alma à inquietação carnal da sua personagem, fazendo inclusivamente com que o conceituado crítico de cinema da revista Time, Richard Corliss, fosse violentamente atacado pela opinião pública quando, de forma algo homofóbica, considerou o filme uma "fábula para gays". O desempenho de Cruise foi tão unânime, que a própria Anne Rice publicou um texto de duas páginas em vários jornais de referência, pedindo desculpas ao actor pelas duras palavras que lhe destinou em várias entrevistas, aquando da escolha do Top Gun para o papel principal.

Adaptação sombria, luxuosa, gótica e aparentemente fiel aos princípios literários de Rice, Neil Jordan, para o bem e para o mal, levou "Entrevista com o Vampiro" para um caminho cinematográfico muito personalizado, dentro do estilo autoral em que se sentia confortável e que tão bem lhe tinha servido no passado, conseguindo não ser pressionado pelo estúdio a aligeirar o conteúdo erótico perverso da escrita de Rice, nem o constante sentimento melancólico que a eternidade e a impossibilidade de uma morte tranquila provocava em personagens cujos vestígios humanos estavam em guerra aberta com a natureza vampiresca do seu sangue. E, no meio de tudo isto, conseguiu ainda dar algumas pinceladas de humor negro, quase sempre evidenciadas em cenas cuja família disfuncional - Cruise, Pitt e Dunst - entrava em conflito: "Never kill in the house!", gritou por mais de uma vez Cruise para Dunst.

Sim, Kirsten Dunst, aqui apenas com onze anos, uma vampira adulta eternamente prisioneira num corpo de criança. Uma performance portentosa que a lançou em Hollywood e que lhe valeu, inclusive, uma nomeação para Melhor Actriz Secundária nos Globos de Ouro desse ano. Já Brad Pitt, com muito tempo em cena mas poucas oportunidades para brilhar, Christian Slater, Antonio Banderas e a presença habitual na filmografia de Jordan, Stephen Rea, cumprem sem percalços nem grandes rasgos o que lhe é pedido.

Lançado em Novembro de 1994 e com um orçamento de sessenta milhões de dólares, "Interview with the Vampire" arrecadou duas nomeações técnicas aos Óscares e mais de duzentos milhões de dólares em todo o mundo, tendo-se perdido a saga inicialmente planeada nas supostas recusas de Cruise e Pitt em reencarnar as suas personagens. Para a história ficou um filme visualmente intenso, elegantemente pervertido, em que nos é pedido que nos identifiquemos com os vilões e não com as vítimas - e, por isso, nunca é verdadeiramente um filme de terror. Amor, arrependimento e culpa ao som de uma "Sympathy for the Devil" tocada pelos Guns N' Roses.

quarta-feira, dezembro 03, 2014

The Mask (1994)

Filme que catapultou Jim Carrey para o estrelato e lançou a desconhecida Cameron Diaz para as bocas do mundo, "A Máscara" conta-nos a história de Stanley Ipkiss, um bancário tímido e azarento que é constantemente gozado pelos seus colegas e nunca tem sorte com nenhuma das raparigas pelas quais se apaixona. Mas tudo vai mudar quando, após ser barrado na discoteca local, a famosa Coco Bongo onde a sua mais recente paixoneta trabalha como dançarina, descobre uma máscara de madeira que, quando colocada, transforma-o numa espécie de super anti-herói, de corpo elástico e língua afiada. Um dos três filmes lançados em 1994 - os outros foram "Ace Ventura: Pet Detective" e "Dumb & Dumber" - que elevaram o actor canadiano para um patamar de super estrela da comédia em Hollywood, no qual se aguentou durante largos anos, "The Mask" tornou-se um clássico de culto irreverente que influenciou a indústria pelo seu sucesso inesperado: de repente, um super anti-herói com queda para a ironia era algo cool. Visualmente dinâmico, visceralmente divertido e verdadeiro showcase de talentos para Jim Carrey (quando a sua cara se tornava verde, Carrey ficava imparável), "A Máscara" é um dos melhores exemplos da história recente do cinema de perfeita união entre o humor físico e a mordacidade narrativa. Como se acabaria por comprovar em 2005 ("Son of the Mask", com Jamie Kennedy no papel principal e quatro Razzies no bolso), Carrey fez muito bem em recusar propostas milionárias (dez milhões de dólares ao invés dos 450 mil que recebera pelo primeiro) por uma sequela nos anos que se seguiram. Porque também é essa inteligência - e coragem - que marca a diferença na reputação de um actor. Sssmokin!

segunda-feira, dezembro 01, 2014

Jui kuen II (1994)

Só em 2000, aquando do seu lançamento em território norte-americano, é que "Drunken Master II" ganhou o título "The Legend of Drunken Master", provavelmente uma estratégia de marketing para um público que desconhecia por completo a fita original de 1978, produzida em Hong Kong, então com um muito jovem Jackie Chan, naquela que acabaria por ser uma das primeiras incursões do actor num sub-género que o próprio fundou, o da Comédia Kung-Fu. Considerado um dos cem melhores filmes da história pela revista Time, o charme da obra realizada pelo lendário Chia-Liang Liu ("A 36ª Câmara de Shaolin" e "Sete Espadas") está longe de estar na sua narrativa pateta ou nos seus personagens estereotipados; tudo o que fica na retina e na memória são as magníficas sequências de acção - principalmente a final, de vinte minutos -, onde uma coordenação física soberba e uma meticulosa coreografia conseguem entreter e deliciar até aqueles que defendem que a violência no cinema é um crime. Porque aqui, ao contrário de Hollywood, a violência é inocente e o seu clímax ocorre exactamente nos bloopers que acompanham os créditos finais, onde vemos Jackie Chan a sangrar vezes sem conta e literalmente em chamas numa cena que acabou por lhe deixar queimaduras para a vida. Porque, com Jackie Chan, os efeitos especiais ficam à porta.

sábado, novembro 29, 2014

Hoop Dreams (1994)

Documentário que segue a vida de dois estudantes afro-americanos em Chicago que sonham em se tornar basquetebolistas profissionais na NBA e, com isso, tirar as respectivas famílias da miséria, "Hoop Dreams" começou por ser um projecto para uma curta-metragem que acabou em cinco anos de filmagens, três horas de fita e um verdadeiro hit entre a crítica e o público. Estudo profundo sobre temas socialmente relevantes como a segregação racial, o choque entre classes, a educação (em casa e na escola) e a difícil gestão entre o sonho e a realidade de milhares de adolescentes que desperdiçam um futuro seguro em busca da utopia de serem o próximo Michael Jordan, "Hoop Dreams" é muito mais do que um documentário desportivo. Considerado por Roger Ebert como "uma experiência cinematográfica única", o crítico acabou mesmo por escolher o seu responsável, Steve James, para realizar a adaptação da sua biografia ("Life Itself").

domingo, novembro 23, 2014

Crumb (1994)

Robert Crumb é, provavelmente, o mais polémico e controverso cartoonista do século XX. A sua tendência de satirizar a sociedade norte-americana contemporânea através da depreciação do sexo feminino e das minorias que "infestam" as ruas de Nova Iorque tornou-o num herói anónimo do underground popular, o primeiro a tornar-se mainstream devido ao sucesso de algumas das suas criações como Fitz, o Gato, Snoid, Mr.Natural ou muitas outras personagens que popularizou nas famosas edições da Zap Comix. Génio de culto para uns, tarado sexual de gostos estranhos para outros, "Crumb" revela-se um dos documentários mais corajosos e honestos que há memória. Acompanhado por Terry Zwigoff durante quase nove anos naquela que foi a sua estreia em Hollywood - seguiram-se os êxitos "Ghost World" e "Bad Santa" -, Robert mostra ao mundo a sua família disfuncional e traumatizada, onde um irmão, Charles, com tendências homicidas e suicidas - acabaria por se suicidar após a estreia do filme - que toma banho de seis em seis semanas e, nos seus cinquentas, vive ainda em casa da mãe, de onde raramente sai e outro, Maxon, internado num hospício por molestar sexualmente desconhecidas na rua devido a graves problemas psiquiátricos, fazem dele o menos anormal de todos os seus familiares. Sim, porque até a mãe vê pessoas imaginárias pela casa.

E quando podemos dizer isto de alguém que se masturbava nos próprios desenhos e cuja inspiração surrealista e psicadélica das suas mais brilhantes criações ocorreu durante longas viagens no LSD, torna-se óbvio que esta é uma história de vida que merece ser descoberta. Considerado o melhor documentário da história pelo conceituado crítico do San Francisco Examiner Jeffery Anderson e vencedor indiscutível em Sundance, "Crumb" é um retrato intimista de um artista que se criou a si próprio, um que tanto influenciou lendas como Matt Groening ou Harvey Pekar como repudiou mulheres e activistas dos direitos humanos um pouco por todo o globo.

quarta-feira, novembro 12, 2014

Speed (1994)

Clássico de acção que marcou a estreia do cinematógrafo holandês Jan de Bont na realização, o maior elogio que pode ser feito a "Perigo a Alta Velocidade" é que é, ainda hoje passados vinte anos, o melhor exemplo de como um blockbuster de acção pode ser equilibrado nas suas demais variantes, misturando de forma perfeita a química do seu duo protagonista (Keanu Reeves e Sandra Bullock) com uma narrativa competente e multifacetada, um ritmo alucinante constante e um vilão (Dennis Hopper) tão enigmático e calculista que consegue aterrorizar mesmo na sua presença passiva no ecrã. Enérgico, romântico, divertido e tenso, o filme de Jan de Bont entrou nas graças da crítica - Roger Ebert deu-lhe nota máxima - e do público - Quentin Tarantino considera-o um dos vinte melhores filmes do último quarto de século - e mereceu, sem dúvida alguma, as duas estatuetas douradas em categorias técnicas que levou para casa. Juntem a tudo isto diálogos vibrantes escritos por Joss Whedon e... pop quiz, hotshot!

sábado, novembro 08, 2014

Bullets over Broadway (1994)


Regresso de Woody Allen à comédia pura depois de vários dramas e romances com o requinto humorístico único do realizador e guionista nova-iorquino, "Balas Sobre a Broadway" narra a história de David Shayne (John Cusack), um dramaturgo inexperiente da Broadway que procura maneira de arranjar financiamento para transformar o seu último guião numa peça de teatro. Quando um produtor amigo (o saudoso Jack Warden) avisa-lhe que a sua única esperança está em dar um dos papéis principais à namoradinha (Jennifer Tilly) histérica, inculta e arrogante de um dos mais temidos chefes da máfia da cidade (Joe Viterelli), David começa por se opôr mas, à falta de alternativa, aceita o negócio. E a sua vida pessoal e profissional nunca mais será a mesma.

Tudo o que se segue, dos diálogos deliciosos às reviravoltas tão simples quanto inesperadas da narrativa, é Woody Allen no seu melhor. Da outrora célebre e respeitada senhora do teatro que não passa agora de uma alcoólica com sede de fama, capaz de seduzir o homem/artista só para garantir o regresso às luzes dos holofotes, ao actor em dieta que começa os ensaios a beber água com limão e acaba a comer tudo e mais alguma coisa, de pernas de frango a biscoitos de cão, sem esquecer o encenador amigo (Rob Reiner) que, por não conseguir passar nada do papel para o palco, considera-se um autor de arte e não de hits, um verdadeiro filósofo que desafia o espectador com uma questão provocadora: se de um prédio em chamas apenas fosse possível salvar a última e única cópia conhecida de uma peça de Shakespeare ou a vida de um qualquer anónimo, o que faria o verdadeiro dramaturgo?

Mas o grande trunfo do filme de Allen, a carta que sai da manga do realizador e muda por completo o destino do jogo, é o guarda-costas grosseiro e implacável que acompanha a namorada do chefe mafioso nos ensaios, não só para assegurar a sua segurança das ameaças dos gangues adversários, como para garantir a relevância da pseudo-actriz na peça, a única condição do financiamento interesseiro do chefe. Sentado no fundo do teatro, a ler o seu jornal, Cheech começa a mandar aos poucos algumas dicas em voz alta para alterações no guião que, surpreendentemente, todo o elenco concorda, para desespero de David, que se sente artisticamente desautorizado por um "gorila". Mas a verdade é que não vai demorar muito para o dramaturgo perceber que é Cheech o verdadeiro génio teatral na sala e que, para alcançar a ribalta, terá que vender a alma ao diabo, pedindo ao brutamontes por conselhos que levem o seu trabalho a outro patamar. E será Cheech, enervado pelo facto da namorada do patrão estragar por completo as suas ideias, que terá que resolver o assunto pelas próprias mãos, dando razão a uma famosa frase Woody Allen numa entrevista: um artista, seja qual for a sua arte, cria o seu próprio universo moral. E é ai que percebes que Cheech, o mais improvável de todos, o único em "Bullets over Broadway" que leva a arte a sério.

Comédia negra de bastidores, Woody Allen reúne de forma primorosa em "Balas sobre a Broadway" os principais elementos da sua filmografia: a meditação conturbada sobre o amor, a arte e o sexo. A estes temas junta um elenco de estrelas que funciona em conjunto - três nomeações (Tilly, Wiest e Palminteri) e uma vitória (Wiest) nos Óscares - e uma narrativa tão complexa e divertida quanto acessível a todos os públicos. Considerada por alguns críticos como a última grande comédia de Allen, "Bullets over Broadway" revela-se uma sátira corrosiva ao mundo hipócrita e pretensioso do teatro - e do cinema, por arrasto óbvio -, numa reconstrução maravilhosa de uma cidade mágica nos anos vinte do século passado.

terça-feira, setembro 02, 2014

Au nom du Christ (1993)

Vou ser honesto com o leitor: foi um sacrilégio visionar este “Au nom du Christ”, ainda para mais numa cópia ranhosa disponível no Youtube, sem qualquer legendagem, onde quase todas as falas francófonas mais complexas ficavam para além do meu entendimento. Torna-se injusto avaliar o que quer que seja nestas circunstâncias, pelo que o melhor que posso fazer para não o induzir em erro será restringir-me ao que entendi da narrativa. Se pelo caminho ficaram várias piadas geniais e uma outra perspectiva do cinema feito na Costa do Marfim, aceitem desde já o meu pedido de desculpas. Parábola em forma de sátira que explora a proliferação do pseudocristianismo nas regiões mais remotas do planeta – obviamente com foco no continente africano -, “Em Nome de Cristo” (o filme já foi exibido em território nacional em festivais de cinema africano) conta-nos a história de um criador de porcos, ignorado e desprezado por toda a sua aldeia, que ao cair num rio muda radicalmente de vida quando tem uma visão que lhe anuncia que foi escolhido por Deus para salvar o seu povo. Após almejar alguns milagres duvidosos (curar mulheres irritadas é um deles, outros envolvem roubos às escondidas), rapidamente torna-se o líder da aldeia e é seguido por um exército de crentes religiosos que acreditam estar na presença de um Messias. Pouco habituado a tamanhas liberdades, rapidamente o “primo de Cristo” – assim se anuncia – charlatão vai abusar do novo poder que tem e estragar a festa. Vencedor do prémio para melhor filme em 1993 no FESPACO (o maior festival de cinema do continente africano) e nomeado para um Leopardo de Ouro no Festival Internacional de Locarno, “Au nom du Christ” é uma proposta cinematográfica radical para quem quiser descobrir um produto de características pouco usuais que mistura tradição, humor, modernidade e poder numa mescla de interpretações tão débeis quanto hilariantes, num conjunto de imagens tão amadoras (a realização é terrível) quanto ocasionalmente harmoniosas (algumas paisagens africanas são de cortar a respiração).

Sem Avaliação

segunda-feira, novembro 25, 2013

My Cousin Vinny (1992)

Bill Gambini (Ralph Macchio) e Buddy Stan (Mitchell Whitfield) são dois amigos que, numa road trip pelos Estados Unidos num descapotável clássico, acabam por ser errada e inesperadamente acusados de homicídio. Várias confusões após terem sido detidos, uma mão cheia de coincidências infelizes e o facto de terem abandonado a área de serviço onde o funcionário foi assassinado à pressa – porque deram conta que trouxeram uma lata de atum sem pagar – acabam por torná-los nos principais suspeitos e, sem dinheiro para melhor, na necessidade de recorrer à ajuda do único advogado que conhecem: Vinny Gambini (Joe Pesci), familiar nova-iorquino de Bill que nunca defendeu ninguém em tribunal e chumbou por cinco vezes no exame da ordem. O seu jeito pouco convencional numa Alabama muito conservadora, aliado às roupas de cabedal da sua noiva (Marisa Tomei) e à atenção aos procedimentos do carrancudo juiz do caso, vai tornar este julgamento num verdadeiro circo de tentativa e erro.

Qual a relação directa de "O Meu Primo Vinny" com a máfia? Absolutamente nenhuma. Perguntam então os leitores qual a razão da sua inclusão nesta secção. Bem, a verdade é que Vinny Gambino tem todos os trejeitos de um mafioso divertido e foi o mais próximo que o pequeno grande Pesci teve de juntar dois amores e talentos cinematográficos: a comédia e a máfia. Com um elenco de suporte fenomenal – do xerife Bruce McGill ao juiz frankenstein Fred Gwynne, sem esquecer a talentosa Marisa Tomei que com a sua Mona Lisa arrecadou uma das mais inesperadas (e provavelmente injustificadas) conquistas da história dos Óscares -, "My Cousin Vinny" é uma das comédias obrigatórias dos anos noventa e sem dúvida alguma uma das mais eficazes no uso do estilo gingão italiano da Casa Nostra.