quarta-feira, janeiro 25, 2023

Los renglones torcidos de Dios (2022)

Não sei se haverá maior admirador em Portugal de Oriol Paulo do que eu. Dito isto, este "Shutter Island" wannabe produzido pela Netflix espanhola é demasiado longo, demasiado esforçado nas suas (in)esperadas reviravoltas narrativas e, mesmo tendo vários momentos de destaque e impacto a nível visual e interpretativo, acaba por se revelar uma desilusão tremenda tendo em conta a filmografia ímpar do realizador catalão. A ambiguidade/dúvida deixada no final manifesta-se como a estocada final para o público, numa história que ganharia claramente por uma decisão justificada e inteligente que colocasse a personagem de Bárbara Lennie com os dois pés - e todos aqueles cigarros - num dos lados da barricada - como aparentemente acontece no livro que deu origem a esta adaptação. Fica esse vazio, essa sensação de que nada foi respondido, de que falta uma segunda temporada, de que pouco do que aconteceu foi efectivamente planeado com engenho e mestria, mas antes uma sucessão de acontecimentos mais dependentes da sorte e do acaso do que de um plano orquestrado por uma mente brilhante... ou demente. Continuo aqui Oriol, mas deixa lá de tentar ser mais esperto do que aquilo que realmente és.

terça-feira, janeiro 24, 2023

Nas Nalgas do Mandarim - S09E17

segunda-feira, janeiro 23, 2023

On the Waterfront (1954)

Brando quase como personificação de Kazan, com o realizador a tentar justificar o seu papel de "chibo" na limpeza comunista do início dos anos cinquenta nos EUA. Uma luta entre princípios e regalias, decisões difíceis no meio de uma batalha entre a consciência e a segurança, entre o moralmente correcto e o individualmente sensato. Brando no arranque de carreira, já com vários problemas pessoais relacionados com a morte da mãe, a conquistar na altura a estatueta da Academia para melhor actor mais jovem de sempre. No meio das suas valências - principalmente nas interpretações, com destaque também mais do que merecido para a estreante Eva Marie Saint -, o sucesso de "Há Lodo no Cais" - tradução muito feliz e interessante - acaba ainda assim por justificar-se muito mais pela jogada política de propaganda republicana e nacionalista do que propriamente pelo seu valor intrínseco enquanto filme. "I coulda been a contender".

domingo, janeiro 22, 2023

Striptease (1996)

Não me lembrava que o tom deste "Striptease" era assim tão pateta. Do congressista trumpiano do Burt Reynolds ao segurança sensível do Ving Rhames cujo filme favorito é o "Free Willy", passando pelo ex-marido idiota do Robert Patrick, Andrew Bergman cozinha aqui uma grandessíssima salganhada de géneros que entre o silicone de Moore e a vaselina de Reynolds perde-se numa história que nunca se percebe bem se pretende ser um drama familiar, uma comédia em torno de strippers ou um thriller de corrupção política. Um pouco de tudo, um grande todo de nada, a filha de Moore a fazer de filha de Moore, o maior cheque pago a uma actriz até então - doze milhões e meio de dólares - e seis dos principais Razzies desse ano. Ai Demi, que tanto gemi.

sábado, janeiro 21, 2023

His Girl Friday (1940)

Muitos a consideram uma comédia de guerra de sexos por excelência. Não sei se estou de acordo - nunca vi na sua loucura e irreverência o peso desse duelo nessa perspectiva, mas posso ter metido os óculos errados neste dia -, mas sei bem o que ficou provado aqui para a eternidade: a demonstração do impecável timing cómico de Cary Grant e a prova do dinamismo e do ecletismo de Howard Hawks, capaz de gerir com sucesso os diferentes desafios de cada género. Ritmo frenético, diálogos sobrepostos, insultos sarcásticos, pequenas reviravoltas, no fundo, uma comédia screwball disfarçada pela velocidade alucinante a que se desenrola. Tão alucinante que por vezes nos perde no meio dos amores e desamores das personagens de Grant e Russell e das suas críticas encapotadas à ética no jornalismo, tão pertinentes então como agora. Zero nomeações aos óscares, não me perguntem como nem porquê, porque Tudo o Vento Levou.

sexta-feira, janeiro 20, 2023

The Good Nurse (2022)

Dois grandes actores num filme assassinado logo à partida. Não há desfecho possível que não o que acaba por acontecer que pudesse justificar uma narrativa cuja premissa gaba-se em todos os formatos possíveis - da sinopse ao trailer, passando pela inevitável tagline no cartaz - de se basear em factos verdadeiros inimagináveis e impensáveis. Não há suspense nem revienga durante uma hora de suposto mistério que sobreviva à maldição desse único desfecho praticável. É como ver um jogo de futebol nas gravações automáticas depois de ter recebido as notificações no telemóvel do resultado final. O jogo até pode ter sido interessante, mas a nossa atenção e entusiasmo nunca será igual. Desengane-se, no entanto, quem pensa que o grande vilão desta história é uma individualidade: não, é a ganância e negligência corporativa de empresas (hospitais) mais preocupadas em proteger o próprio umbigo do que em salvar vidas. Terceiro acto sem urgência nem mestria. Chastain, o que eu gosto de ti.

quinta-feira, janeiro 19, 2023

Dark Star (1974)

Citando Dan O'Bannon, guionista e actor desta brincadeira, mais tarde reconhecido como um dos mestres responsáveis pelo visual de "Alien", "Dark Star" tinha tudo para ser um dos mais impressionantes trabalhos de faculdade de um realizador, com cerca de quarenta e cinco minutos; mas com todo o dinheiro que foi injectado, cenas adicionais filmadas - duração passou para o dobro - e direitos de distribuição em sala que foram adquiridos, o projecto do lendário John Carpenter acabou por tornar-se num dos mais incompetentes e enfadonhos filmes de estreia profissional de um realizador em Hollywood. Não se deixem enganar: há mesmo muito pouco nesta sátira Kubrickiana ganzada algures entre "2001" e o "Dr. Estranhoamor" que impressione. Safam-se o extraterrestre em formato de bola de praia, toda uma sequência num poço de elevador e as viagens intergalácticas à "Guerra das Estrelas"... três anos antes deste estrear. Os diálogos e as dinâmicas de grupo raramente funcionam, seja a nível humorístico ou rítmico, e não se notam ainda aqueles traços de realização que haveriam de se tornar característicos em Carpenter - criar suspense através da música, por exemplo. Bem, é preciso começar por algum lado.

quarta-feira, janeiro 18, 2023

Nas Nalgas do Mandarim - S09E16

terça-feira, janeiro 17, 2023

The ’Burbs (1989)

Arrasado pela crítica aquando da sua estreia, "S.O.S. Vizinhos ao Ataque" - vergonha alheia, expressão que, já agora, qualquer dia irá servir de inspiração para o título "Vergonha Alheira" - tornou-se um dos muitos filmes dos anos oitenta que ganhou o estatuto de culto com o passar do tempo e a sua (re)descoberta por cinéfilos de todas as gerações. Verdade seja dita, ninguém percebe bem porquê, incluindo o próprio Joe Dante em entrevista recente: o acting é sofrível - especialmente de Corey Feldman e Rick Ducommun, os dois com vários problemas pessoais e conflitos reportados no set de filmagens com outros membros do elenco - e os vários desenvolvimentos narrativos não são mínimamente credíveis por mais cheio que esteja o nosso depósito de "suspensão da descrença" - explicado talvez pelo facto de uma greve geral dos guionistas em Hollywood, que durou mais de seis meses, ter afastado o guionista Dana Olsen da pré-produção e das filmagens. Spoof da "Janela Indiscreta" de Hitchcock, com trenó Rosebud na cave, Fred Rogers na televisão - Tom Hanks a prever o futuro - e um final alternativo a martelo porque o de repente popular "Big" Hanks já não podia ser assassinado, não fosse o público ficar chateado. Aparentemente anda por aí uma release blu-ray da Shout Factory com esse final, o que pode ser um motivo de interesse extra para uma possível revisitação. Pouco ou nada para rir, comédia que tenta ser negra mas não o consegue, história que no papel podia parecer ouro mas que em fita ficou latão. E nem vou falar da berraria excessiva, sem qualquer razão aparente.

segunda-feira, janeiro 16, 2023

Deadstream (2022)

O "Blair Witch" dos YouTubers/Twitchers, divertido e original q.b., eficaz no seu humor de inspiração, quiçá homenagem, à saga "Evil Dead", em que Joseph Winter é Sam Raimi e Ash em partes iguais de competência técnica na realização/edição/escrita e talento a ser pateta assustado sedento de fama à frente da janela mágica. Espíritos invocados, fluidos corporais, membros cortados, comédia slapstick, ritmo, equilibrio raro entre humor e terror, efeitos palpáveis de baixo orçamento, dois ou três cagaços e horinha e meia de duração, todo um pacote irresistível para ser consumido idealmente entre amigos durante a semana de Halloween. Se quiserem, considerem ainda todo o papel de embrulho tecnológico que o envolve como uma espécie de crítica/sátira social e cultural e eis como quase todos podem ficar felizes nesta incursão por um subgénero - found footage - cada vez mais saturado, a rezar por criatividade. Ou por fita adesiva daquela grossa. Serve para tudo.

domingo, janeiro 15, 2023

Dahmer – Monster: The Jeffrey Dahmer Story (S1/2022)

Fórmula de sucesso repetida vezes sem conta pela Netflix, desta vez com muitas razões palpáveis para realmente triunfar. Interpretações de primeira linha - não só Evan Peteres no papel do monstro, mas também da "vizinha" Niecy Nash e do "pai" Richard Jenkins -, realização fenomenal de Jennifer Lynch em quatro episódios muito distintos - tem mais juízo que o pai - e uma caracterização muito cuidada e aprofundada de quase todas as vítimas: sentimos os seus sonhos, ambições e rotinas, simpatizamos com as mesmas e, de repente, vemos tudo isso a ser despedaçado por Dahmer. Não sei se o esquema temporal usado terá sido o mais eficaz - para a frente e para trás, sem grande lógica associada na ordem das vítimas -, mas sente-se uma coesão de talento e qualidade em quase tudo, sem que o esticanço para dez episódios prejudique de sobremaneira o ritmo da série. Netflix, amiga, é continuar a atirar o barro à parede, de vez em quando resulta.

sábado, janeiro 14, 2023

From Hell (2001)

Uma versão possível das muitas que existem sobre os crimes de "Jack, o Estripador", adaptação desinspirada - pelo menos a nível narrativo - da banda-desenhada do conceituado Alan Moore, cuja abordagem partia do ponto de vista do assassino e não do detective. Uma Londres de final de século XIX - filmada em Praga - suja, gótica e sombria, com um Johnny Depp estranhamente contido para uma personagem envolta em ópio e visões - que potencial desperdiçado, meu Deus. História de mistério que enfia conspirações com descendentes do trono, maçonarias, pressões policiais e uma violência visual e macabra inesperada, inspirada em fotos e ilustrações reais dos crimes de 1888. Heather Graham como prostituta, o recentemente desaparecido Robbie Coltrane como polícia honesto e o grande Ian Holm no papel mais inesperado.

sexta-feira, janeiro 13, 2023

Nas Nalgas do Mandarim - S09E15

quinta-feira, janeiro 12, 2023

Uivo (2014)

António Sérgio, nome mítico da rádio, "professor" e mentor de gerações de portugueses que descobriram as mais desconhecidas - hoje míticas - bandas de punk/underground/rock/metal de todo o mundo através dos seus mais variados programas em rádios como a Renascença, a Comercial ou, aquando da sua morte, a Radar. Foi o primeiro a passar nomes como Iggy Pop, Sex Pistols ou Joy Division em Portugal, foi editor discográfico mas também o primeiro pirata português - acabou absolvido de um processo instaurado pela Valentim de Carvalho -, divulgador e influenciador ímpar, jornalista espontâneo dedicado à música em tantos meios de imprensa escrita, pai e marido querido e respeitado, um homem de barba e sobrancelhas negras carregadas, voz inconfundível e espírito primeiro à frente do seu tempo - falava abertamente no direito à diferença na década de setenta e oitenta -, depois agarrado com unhas e dentes aos "tradicionais e arcaicos" discos numa era de playlists automáticas e computadores. Dezenas de entrevistas a nomes de relevo da música e da rádio em Portugal, numa belíssima homenagem de Eduardo Morais e da Antena 3 ao último dos independentes, um mestre que sempre fez, comeu, bebeu e fumou o que amava, dispensando cargos superiores, estatutos de estrela ou um coração em forma. Partiu cedo demais, mas viveu a vida, não a deixou passar. Relembrá-lo e continuar a ouvi-lo com regularidade é possível, graças ao impagável trabalho de recolha e disponibilização de arquivo do blogue "Lista Rebelde".

quarta-feira, janeiro 11, 2023

Blockbuster (S1/2022)

E foi desta que a Netflix conseguiu destruir a "Blockbuster" de uma vez por todas, tentando levar consigo as memórias de um tempo em que o aluguer de filmes nos seus mais variados formatos físicos era o exponente máximo de emoções e sensações para incontáveis cinéfilos. Sem coração, sem magia em torno do cheiro e do toque, do verdeiro significado do videoclube, com um elenco desastroso e uma escrita de humor que não soube aproveitar o infinito mundo de referências cinéfilas que poderia servir de base para quase tudo. Faltou a veia junkie de um qualquer Tarantino rebelde, de um verdadeiro seguidor da seita, naquela que seria uma oportunidade para honrar por uma última vez um universo que não mais voltará - como a (jovem) criadora Vanessa Ramos insiste em demonstrar no último episódio, mostrando que nem com uma explosão solar que acabe com a internet um videoclube sobrevivia. Cancelada rapidamente e com justiça, porque não há paciência para tamanha desilusão e o sentimento de que se o background tivesse sido um supermercado ou um talho, nada teria sido diferente.

terça-feira, janeiro 10, 2023

Firestarter (1984)

Poucos sabem, mas a expressão "há males que vêm por bem" teve origem neste "O Poder do Fogo". Isto porque o maçarico Mark L. Lester só acabou como realizador desta adaptação literária de uma das obras de Stephen King porque John Carpenter foi dispensado pela Universal após o flop de bilheteira que tinha sido... "The Thing". E, ironias do destino, Carpenter foi tratar do maravilhoso "Christine" - também de Stephen King - para a Columbia e Joel Silver acabou por ficar tão impressionado com o trabalho de Lester aqui que o contratou para orquestrar o mítico "Commando" um ano mais tarde. Todos ficaram felizes e lá surgiu a famosa... há males que vêm por bem. Drew Barrymore mais forte que Jennifer Connelly no dia do casting, estreia absoluta de Heather Locklear, Martin Sheen a substituir Burt Lancaster depois do coração deste ter ido à faca e o cabrão - desculpem a força do termo, mas sinto-me amigo de velha data do senhor - do George C. Scott como um índio badass de rabo de cavalo que acaba o filme com uma pala de pirata porque apanhou uma infecção no olho. Actores secundários a levarem com um bónus de quatrocentos dólares se aceitassem "ficar em chamas" e banda-sonora dos Tangerine Dream. Melhor do que tudo? Efeitos especiais práticos, o que inclui bolas de fogo atiradas através de cabos e malta a escapar delas usando trampolins. Que saudades destes tempos em que este tipo de sci-fi flicks não eram filmados em estúdios com gigantescas telas verdes à volta. Falta-lhe ritmo e lógica nas decisões, sobra-lhe tempo de exibição e David Keith tem o mesmo talento perante uma lente que um tronco de madeira? Sim. Mas quem quer saber disso quando tudo o resto remete-nos à magia do cinema de acção/terror palpável e audaz da nossa infância.

segunda-feira, janeiro 09, 2023

Ted Lasso (S2/2021)

Vou falar-vos apenas do nono episódio desta segunda temporada. Completamente fora da caixa, fora de tom, fora da fórmula, fora de tudo, qual glitch na Matriz - a mulher de vermelho - dedicado em exclusivo ao Coach Beard. Episódio encomendado depois da série ter tido ordem para "esticar" pela casa mãe e, por isso, com tudo para falhar, tudo para ser apenas um capítulo para encher chouriços. E, no entanto... maravilhoso, uma obra-prima dentro da obra-de-arte que foram estas duas primeiras temporadas da série de Jason Sudeikis. Tudo o que faz de "Ted Lasso" especial, no seu quase total oposto simétrico a nível narrativo e emocional, repleto de referências cinéfilas - delicioso o túnel da "Laranja Mecânica" - e momentos surreais, qual episódio realizado por David Lynch, qual sonho que não o foi, qual alucinação com Thierry Henry e Gary Lineker que acaba com três comuns e mortais adeptos do Richmond em pleno paraíso. O seu paraíso, com duas balizas e cheiro a relva. Um "After Hours" de Scorsese em quarenta minutos, sem parar para respirar ou sequer pensar. Tudo bate certo, tudo consegue ser tão cativante e hilariante quanto emotivo e comovente. O Beard não é a Cher, o Bones and Honey não é o Fight Club e o telemóvel de Beard não tem a mesma autonomia que o do Jack Bauer. Tudo corre ainda pior quando parecia ser impossível enterrar ainda mais o ego e a sorte. Mas a vida é essa odisseia de obstáculos, essa luta constante, e não há nada que não se resolva com velocidade acelerada e o Yakety Sax do Benny Hill por cima.

domingo, janeiro 08, 2023

Paroxismus (1969)

Uma trompeta enterrada na areia turca de Istambul, recuperada pelo mesmo homem que a lá colocou não sabe bem como nem porquê. Uma mulher morta - nua, claro - que dá à costa enquanto James Darren toca a sua trompeta em slow-motion. De onde a conhece? Terá sido daquela festa de jet set na semana passada - mês passado ou até ano passado - em casa de um playboy milionário, o the one and only Klaus Kinski? O tempo é como um oceano, tudo leva, tudo trás. De repente, Rio de Janeiro, o seu famoso carnaval e uma mulher que canta "É Agora ou Nunca" deitada no chão, num vestido repleto de brilhantes. Decidi que era agora e não nunca, até porque há que respeitar o Nalgas Film Club e os quase duzentos filmes do mítico Jess Franco não se vão ver sozinhos. Um ou duzentos, logo veremos. Slow-motions e imagens distorcidas em ondas, qual hipnotismo e paixão que não tem explicação. Estarei morto, estarei vivo, estarei a sonhar? É assim o amor, um fogo que arde sem se ver, ora loira ora mulata, uma ferida de chibatada que dói e não se sente, um contentamento de trompeta descontente, uma dor que desatina num chupanço de sangue sem doer. O casaco de peles que tapa o paraíso e destapa o inferno, a mão que acaricia a mama ou uma estátua em vez de embalar o berço, uma visão muito própria do clássico literário de Sacher-Masoch - o seu apelido deu origem ao termo masoquismo -, uma história de amor sobrenatural e vingança de uma fantasma sobre aqueles que tiveram envolvidos na sua morte. Um mão-cheia de cenas memoráveis - personagens congeladas no tempo e no espaço enquanto uma única circula entre elas, jogos de reflexões em espelhos, a cena da almofada de penas ou a reviravolta final na praia - e demasiada ousadia e classe - visual mas também, e sobretudo, musical e sonora - para tão baixo orçamento. Caramba, pelo menos mais um ou dois vai ter que ser, Jesús!

sábado, janeiro 07, 2023

Prey (2022)

Um "Predador" de volta às raízes do original, que sabe que a excelência de uma sequela está muitas vezes escondida na simplicidade. Uma mulher como protagonista pela primeira vez... e a primeira vez que um "Predador" não estreia nos cinemas, triste sinal dos tempos em que vivemos. A pistola que aparece no final do (delicioso e trashy) segundo filme e uma cinematografia low-fi de Jeff Cutter que não passaria fome a almoçar com o mestre Lubezki. Amber Midthunder muito bem "pintada" para brilhar, um cão a sério - sim, é uma boca para sequelas anteriores - e ervas para baixar a temperatura. Bom e atempado build-up narrativo de descoberta do perigo, reviravolta inesperada com o aparecimento de uma "terceira força" e, porque nem tudo foi bom, uma batalha final mais preocupada com o happy ending do que em provar que aquela comanche - ou qualquer outro - conseguiria mesmo superiorizar-se ao bicho feio alienígena. Pareceu forçado, mas caramba, durante hora e meia nem me lembrei do Adrien Brody.

sexta-feira, janeiro 06, 2023

Revolta (2022)

Complicadinho. Carpenter como cientista do karma. O que é que rima com hora? Foda. Quem precisa de um anel de diamantes quando se tem um poeta em casa? Brejeirice que oscila, qual montanha-russa feita naqueles simuladores de centro comercial, com uma intelectualidade de livro de filosofia de bolso. Ora palavrões disparados a torto e a direito sem qualquer efectividade narrativa, ora metáforas existencialistas que nem os próprios parecem compreender e sentir. A premissa é óptima e a ambição do conceito de aplaudir - um espaço único, enclausurado no meio de uma revolução, com quatro personagens repletos de complexidades e inseguranças emocionais. O talento estético na realização é óbvio - apesar de ser uma estreia - e a tensão existe; mas o que lhe sobra em audácia, falta-lhe - e de que maneira - em subtileza no guião e credibilidade de acções: o vinho, por melhor ou pior que seja, não pode justificar tudo. O marido que aceita recriar em voz, perante a mulher, as suas infidelidades escritas? Só porque sim? Como peça de teatro poderia ter resultado bem mas, como filme, perdoem-me a figura de estilo que nem sei ao certo qual é, o excesso de excessos torna-se demasiado excessivo. As interpretações são mais do que competentes, mas não há como fugir a uma representação teatral com diálogos tão bipolares quanto um "tá tudo fodido" é seguido por um "eu sei que agora não parece, mas o amor vale mais do que quatro pontos da história; e se não valer mais do que quatro pontos, a culpa não é do amor, é da melodia. E o que nós precisamos é de uma canção nova". Disponível na RTP Play.

quinta-feira, janeiro 05, 2023

Manhattan Murder Mystery (1993)

Uma espécie de "Rear Window" de Hitchcock de mãos dadas com o seu tão amado "Annie Hall". A musa Keaton e o velho parceiro Brickman numa comédia feita durante uma das fases mais conturbadas a nível pessoal da vida de Allen - o escândalo incestuoso/pervertido/pedófilo (escolher uma, riscar as restantes) com a filha adoptiva Soon-Yi - mas que termina com uma chama inesperada de optimismo e ironia: o casal quinquagenário, junto desde sempre, descobre que continua tão apaixonado quanto no primeiro dia. Flop na bilheteira - ninguém queria ouvir falar de Woody devido ao escândalo, incluindo a própria Tri-Star que rasgou o acordo para rodar mais obras que tinha com o realizador -, a verdade é que "O Misterioso Assassínio em Manhattan" constitui uma extraordinária síntese da comédia Alleniana: as neuroses e angústias do seu alter-ego, o charme e a inteligência em torno das relações, o humor envolto em pequenos mistérios que dinamizam a narrativa. "Claustrofobia e um cadáver... é o jackpot dos neuróticos!".

quarta-feira, janeiro 04, 2023

The Breakfast Club (1985)

Para muitos, o filme fundamental dos anos oitenta sobre a adolescência. Clássico de John Hughes que reúne os cinco arquétipos do secundário num castigo de sábado na escola: Anthony Michael Hall é o cérebro, Emilio Estevez o atleta, Ally Sheedy a gótica/excluída, Molly Ringwald a princesinha/miúda popular e Judd Nelson o patife/baldas. Todos descobrem que afinal têm muito mais em comum do que aquilo que os, efectivamente, separa. Todos são mais inteligentes que os adultos e é o universo que está contra eles e não o oposto. Quase como que um grito de revolta de uma geração contra todas as outras, "O Clube" esgotou salas de cinema nos anos oitenta, repletas de adolescentes que finalmente se sentiam compreendidos e realizados pelo caminho trilhado por um daqueles "amigos". Talvez por o ter descoberto só agora já velho e chato, talvez porque o filme de Hughes tenha mesmo envelhecido mal nas suas pequenas desventuras, não consegui perceber o seu encanto de tantos no meio da incompetência do "vilão" estupidificado do professor ou dos inúmeros clichés estereotipados no grupo - a gótica lá se transforma em princesa, porque todos sabemos que ser diferente não presta. Sobrevive o mood ao som dos Simple Minds - don't yoouuu forget about me - e a audácia de desafiar uma época em que os filmes de adolescentes resumiam-se na sua essência a recriações mais ou menos hormonais do "Porky's" e companhia.

terça-feira, janeiro 03, 2023

Can’t Buy Me Love (1987)

"Pretty Woman" versão "Pretty Teenager" antes mesmo de Gere e Roberts roubarem o estrelato, com Patrick Dempsey nos seus vintes meio nerd meio cool num corta-relvas e Amanda Peterson - apenas quinze anos na altura das filmagens - com pinta e presença para encher e dominar qualquer cena entre os dois. Rapaz totó aluga secretamente a rapariga mais gira e popular da escola por mil dólares e torna-se num herói que todos admiram. Não sei se a mensagem de prostituição teria tido tanto sucesso nos dias que correm, mas felizmente ninguém ligava ao politicamente correcto antigamente; que o diga a jovem Jodie Foster entre Scorsese e De Niro. Coração quentinho no final - não há como resistir a um beijo ao pôr-do-sol num corta-relvas - e a tristeza de descobrir o que aconteceu a Peterson nos anos seguintes: problemas e múltiplas condenações relacionadas com drogas e álcool, violada ainda menor por um produtor muito mais velho, final precoce de carreira no início dos anos noventa e morte por overdose de morfina aos quarenta e três anos. Afinal o Macaulay Culkin até se safou bem.

segunda-feira, janeiro 02, 2023

Licence to Kill (1989)

Um dos meus capítulos favoritos da saga, certamente um dos mais subvalorizados entre os "mortais", na despedida de John Glen da cadeira de realizador que ocupou por cinco ocasiões, de Maurice Binder das icónicas introduções - foram catorze no total - e de Timothy Dalton da personagem. Não há aqui o espalhafato narrativo nem as localizações exóticas do passado, num minimalismo de aspecto barato - longe disso, na verdade - que acaba por credibilizar quase tudo o que acontece na tela, seja pela postura finalmente mais séria e sombria de Bond ou pelo enredo cru e realista que o envolve. Uma vingança em nome próprio, com licença para matar suspensa, com duas das mortes mais macabras da saga - a cabeça que explode de Zerbe e a carne picada de um jovem Benicio Del Toro -, humor muito mais negro do que sexista e Robert Davi como um barão de droga paranóico e sadístico, mas palpável. Uma americanização do agente secreto britânico - e do vilão - que enfureceu os adeptos mais clássicos da personagem mas que acabou por trilhar caminho para uma reinvenção que seria feita de Bond décadas mais tarde com Daniel Craig. A mais divertida participação de Q em toda a saga e duas Bond Girl que se invejam entre diálogos pouco esforçados: as lindíssimas Carey Lowell e Talisa Soto. Ski aquático sem skis e a memória de um casamento trágico, no olhar intenso e emocional de Dalton. Sim, eu sou dos poucos que gostava de ter tido o galês mais tempo de smoking. Azar.

domingo, janeiro 01, 2023

2023

sábado, dezembro 31, 2022

In Memoriam 2022

sexta-feira, dezembro 30, 2022

The Great Dictator (1940)

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Tão relevante agora como nos anos quarenta. A humanidade não aprende com os seus erros e tende a repeti-los - ou pelo menos a criar uma rimas muito parecidas - em ciclos temporais que variam consoante a sobrevivência e relevância da memória e da consciência colectiva das consequências do passado. O discurso final do Hynkel de Chaplin como um dos momentos definitivos que mostrou e provou que a força do cinema estendia-se muito para além da tela. Citando o mesmo, "mais do que máquinas, precisamos de humanidade; mais do que de inteligência, precisamos de afeição e doçura". Se muitos são considerados filmes de Natal, importa agora começar a definir filmes que nos fazem acreditar num futuro melhor como clássicos de réveillon. E que fique claro que, para mim, este fica já com o posto equivalente do "Die Hard"! Por fim, quão irónico é que o homem que temia o som tenha acabado por ser o responsável por um dos monólogos mais intemporais e importantes da história da sétima arte; ele que em silêncio fazia todos rir... e a falar, meteu todos em silêncio, de coração apertado.

quinta-feira, dezembro 29, 2022

Shyamalan at the Cabin

quarta-feira, dezembro 28, 2022

CHiPS (2017)

Adaptação ao cinema da série de televisão do final dos anos setenta com o mesmo nome que celebrizou e lançou o porto-riquenho Eric Estrada para a ribalta. Temos direito a cameo final do próprio, numa comédia de acção buddy-cop sem grande história - vilões revelados logo à partida - nem piada - sketchs homofóbicos e humor de casa de banho a pontapé -, que acaba por escapar à mediocridade graças aos stunts de acção, a maior parte deles sobre duas rodas. Mérito de Dax Shepard, aqui realizador, actor e acrobata, que no meio daquela figura altamente pateta acaba por ser mais eficaz do que Michael Peña, demasiado esforçado em ser o rezingão duro, engatatão e charmoso que o Frank Poncherello de Estrada imortalizou na cultura popular.

terça-feira, dezembro 27, 2022

Tampopo (1985)

Como exploração da nossa relação com a comida, da fome ao consumo desmesurado como conceitos intimamente relacionados com o funcionamento das sociedades e até a nível pessoal com o líbido e o prazer, há muito em "Tampopo" que pode ser escrutinado e discutido, nem que seja pela forma quase sempre provocadora como o faz. Mas narrativamente falando, o filme do já falecido Juzo Itami - "herdeiro" de Kurosawa para muitos, assassinado pelos Yakuza no final dos anos noventa - perde-se completamente por volta dos trinta minutos. A um arranque de excelência, que nos prende e cativa a uma história que se quer de superação e sucesso daí em diante, sucede-se uma colectânea de sketchs totalmente aleatórios, com personagens ocasionais e um conjunto de acontecimentos, ora patetas - os barulhos a comer, a mulher moribunda a cozinhar até à morte ou o aspirador como substituto da manobra de Heimlich - ora carregados de tensão e cariz sexual - o ovo que escorre de um beijo, a ostra como objecto de desejo entre uma adolescente e um desconhecido ou, a mais escandalosa de todas, uma criança a lamber um gelado para gáudio de um adulto, com direito a zoom às ancas da criança - que tentam ser encaixados a martelo na história de fundo de "Tampopo". Nestas várias partes isoladas que mesmo somadas não se encaixam num todo, juntemos ainda as diferenças culturais que não ajudam à festa: a mulher vista sempre como figura subjugada ao sexo masculino e os animais esquartejados à nossa frente são bons exemplos de um filme cuja energia é, com muito boa vontade, estranha para ocidentais. "Coração quente" e "hilariante" são alguns dos termos mais usados pela grande maioria dos cinéfilos que adoraram esta obra, no meio de parágrafos inteiros tão vagos quanto simbólicos; ultrapassou-me por completo.