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quinta-feira, outubro 02, 2025

Lions for Lambs (2007)

Extremamente subvalorizado. Como que um aula de ciência política dividida em três cenários - na faculdade, nos gabinetes das decisões e no campo de guerra - e em três ideologias/fases/personagens: a do cínico, a do idealista e a do sonhador. Um elenco de luxo e várias questões sociais que apimentam os debates: a moralidade em torno guerra ao "terror", o sacrífico dos soldados (leões) em prol dos "políticos/generais" (coordeiros), as responsabilidade políticas sem sujar as botas de lama ou sangue, a manipulação e o poder dos media, a apatia dos jovens e das sociedades - exemplarmente demonstrada naquele pedaço televisivo final sobre um casal rapper numa festa, enquanto notícias da guerra passavam em texto, em rodapé -, o conflito de classes, o patriotismo, as meias-verdades do poder e a responsabilidade individual. E tu, o que fazes pelo mundo? Sem falsos moralismos, sem tomar partido. Classe, Robert Redford.

quinta-feira, agosto 21, 2025

28 Weeks Later (2007)

Ó Fresnadillo, como é que um gajo passa do "Impacto" para esta realização - e montagem - nervosa, capaz de deixar um gajo com Parkinson na dúvida se tem mesmo algum problema de saúde? Um filme de zombies, para zombies, porque não há humano que consiga vê-lo de seguida sem ficar com uma valente dor de cabeça. Salva-se a cena inicial... e pouco mais, num ambiente que poderia ser cativante, mas que se dilui entre tanto tremelique e decisões disparatadas das personagens.

domingo, junho 22, 2025

Species: The Awakening (2007)

Species IV: México. Desafio-vos a abrir a página com a filmografia deste Nick Lyon: zombies, tentáculos, Titanics, filmes de Natal e Danny Trejo a gosto. Quase que fiquei com vontade de lhe dedicar um episódio das Nalgas do Mandarim, mas tenho medo que o Pedro troque o Brian Yuzna por este tipo, é melhor não. Era preciso acabar esta saga, está feito. Lição de vida dada pela experiência do já falecido Ben Cross: se uma miúda jeitosa nos seus trintas está a querer que a "comas mesmo aqui", e tu já estás nos teus sessentas, é porque vem aí armadilha. Helena Mattsson, substituta capaz para a Natasha Henstridge, perdida numa história que já não sabe para onde se virar sem cair nos mesmos lugares comuns de todas as suas prequelas. Finito, chega.

terça-feira, dezembro 20, 2022

The Bucket List (2007)

Três conselhos de vida para quando forem séniores: nunca deixar passar uma casa de banho, nunca desperdiçar uma erecção e nunca confiar num pum. É este o nível de esforço que foi posto num guião escrito em duas semanas para um filme que dificilmente tinha como falhar - o fim bem próximo por motivos oncológicos e uma amizade improvável. E mesmo com tanta preguiça, presunção e falta de criatividade no papel - a "lista de desejos finais" cai em tantos lugares comuns e vulgares que parece ter sido pensada por um adolescente -, Rob Reiner lá se safa às custas de um final bem conseguido - as cinzas na montanha e o beijo da mulher mais bonita do planeta ser o beijo da neta - e da química constante irresistível entre Nicholson e Freeman, dois actores de excelência que deixam tudo na cama de hospital e fora dela - incluíndo o cabelo de Nicholson. Talento puro que compensa a futilidade do guião de Justin Zackham.

quinta-feira, dezembro 09, 2021

Dot.com (2007)

A premissa tinha potencial cómico - e até de crítica social e cultural em torno da globalização - mas tanto o resultado final como todo o caminho para lá chegar foi medonho. Acting, direcção de actores, história romântica, contornos políticos e empresariais, tudo de um amadorismo atroz e inesperado. Inesperado é o melhor elogio que se arranja no meio do caos incompetente que para aqui anda, porque reconhece-se o talento de muitos dos envolvidos noutras produções, tanto pré como pós aventura em Águas Altas. Uma entrevista em directo ao primeiro-ministro em véspera de eleições interrompida para dar uma notícia de última hora relacionada com um processo de uma empresa espanhola a uma terrinha do interior, diálogos e interacções que nem num palco de teatro seriam credíveis e um presidente de junta supostamente português que é claramente brasileiro. Mas que tenta passar por português e então parece um atrasito a falar. Vá-se lá perceber porquê.

sábado, abril 10, 2021

Ratatouille (2007)

Mais um capítulo da saga "mas porque é que toda a gente gosta tanto deste filme?". Falta a chama e o charme de tantos outros projectos da Pixar, falta química e profundidade à relação de amizade entre o Remy e o Linguini, falta coração apertadinho e, porque não, algum realismo no meio do irrealismo permitido a qualquer fábula de animação. Ou então sou só eu que não consegui sentir a vibe de um filme sobre o complexo mundo da restauração reduzido a estereótipos - sendo o crítico o mais óbvio e fácil de vilanizar. Tudo ok, desde que continue bem claro entre todos que, por melhor que seja a banda-sonora que os acompanhe, ratos na cozinha são um perigo para a saúde.

sábado, fevereiro 29, 2020

Los cronocrímenes (2007)

Aclamado pela crítica e pelo público, o filme que lançou o nome do espanhol Nacho Vigalondo para a mais respeitável roda dos apaixonados pelo sci-fi de todo o mundo revela-se uma série de acontecimentos e peripécias que, quanto mais se encaixam e começam a fazer sentido, menos astúcia e brilhantismo revelam. Há, sem dúvida, um mérito tremendo no modo como de forma tão apaixonada, simples e com baixo orçamento se monta toda uma teia de curtas viagens no tempo com consequências tão imprevisíveis quanto inevitáveis; mas, aos poucos e poucos, o misterioso torna-se expectável, o aparentemente aleatório afinal tem uma explicação mais simplista do que qualquer uma que as nossas altas expectativas tinham formulado e "Los cronocrímenes" acaba por cair algures naquela fina linha entre o genial e o vulgar, tornando-se repetitivo e entediante perto do fim. Não me levem a mal, mas não é qualquer Triângulo que me convence.

terça-feira, julho 08, 2014

Rise of the Footsoldier (2007)

"Rise of the Footsoldier" segue a ascenção impiedosa de Carlton Leach desde um dos hooligans mais temidos do futebol inglês até tornar-se membro de um gangue criminoso que espalhou o pânico e o terror em Londres durante o final dos anos oitenta e o início dos anos noventa do século passado. Interpretado por Ricci Harnett, Leach é retratado como um criminoso desequilibrado que encontra prazer nos seus actos violentos, os mesmos que, literal e metaforicamente, o irão levar à sua destruição. Realizado por Julian Gilbey, "Rise of the Footsoldier" custa a arrancar mas rapidamente se torna numa espécie de Goodfellas rasca de série B britânico, visualmente intenso e incómodo, que usa e abusa da violência para chocar (ou conquistar, dirão alguns) o espectador. Sem papas na língua - Scorsese teria vergonha -, não se percebe, no entanto, como é que numa biografia cinematográfica de Carlton Leach, o mesmo desaparece de cena a meio do filme. Drogas, sexo, pancadaria e mais drogas num filme em que a caracterização das personagens é baseada na quantidade de palavrões que cada um diz e não num aprofundamento lógico das relações entre as mesmas. Algumas referências culturais nostálgicas às saudosas décadas de oitenta e noventa não chegam para compensar outro filme de hooligans que se perde nos clichés do género. Ainda assim, justiça seja feita a algumas interpretações de qualidade, com destaqe para Harnett e Craig Fairbrass.

sábado, novembro 20, 2010

Meet Bill (2007)

Bill (Aaron Eckhart) está a ver a vida passar-lhe ao lado. Com um emprego sem quaisquer perspectivas futuras no banco do sogro, um casamento de aparências assombrado por um relacionamento extraconjugal da sua mulher (Elizabeth Banks) com um pivot da televisão local (Timothy Olyphant) e um vício ao chocolate que em nada ajuda a manter a forma, tudo vai, no entanto, mudar quando Bill é escolhido pelo patrão para ser o mentor de um adolescente confiante e destemido. Numa rápida inversão de papéis, Bill torna-se discípulo e, com a ajuda de uma jovem vendedora de lingerie (Jessica Alba), começa a transformar-se num homem independente e astuto.

Comédia? Drama? Dramédia? Provavelmente nem Melisa Wallack e Bernie Goldmann, dupla realizadora de “O Meu Nome é Bill” sabe ainda hoje o que queria fazer de uma narrativa potencialmente interessante e de um elenco mais do que hábil para gerar um produto final minimamente satisfatório. Infelizmente, a verdade é dura e crua: “Meet Bill” é desnecessário e inútil, as suas personagens são supérfluas e, sem apelo nem agrado, estampa-se ao comprido ao tentar reinventar o estilo de fitas como “American Beauty”, enquanto desenvolve clichés cómicos estúpidos e banais. Mais do que um desperdício de tempo, “O Meu Nome é Bill” é um desperdício de talentos. Próximo.

sexta-feira, outubro 01, 2010

Paranormal Activity (2007)

Katie e Micah são um jovem casal de classe média americana que acabou de se mudar para uma casa nos subúrbios da cidade onde trabalham. Com Katie desconfiada da presença de forças paranormais na casa ao final de algumas noites, Micah decide comprar uma câmara de vídeo de alta definição para filmar o casal enquanto dorme e, assim, descansar a paranóia sobrenatural da namorada. Mas não tardará ele próprio a ficar convencido de que algo demoníaco persegue mesmo Katie. Agora, o que fazer contra o que não se vê?

Com uma realização minimalista do desconhecido israelita Oren Peli, “Actividade Paranormal” é uma fita de terror ao bom estilo “Blair Witch”, numa receita vencedora que já provou conseguir transformar qualquer orçamento diminuto – neste caso, 15 mil dólares - num projecto milionário, com uma margem de lucro elevada a expoentes máximos. Mas o sucesso arrebatador de “Paranormal Activity” em todo o mundo deveu-se também, verdade seja dita, à sua qualidade e excelência enquanto thriller supernatural, agarrando o espectador à cadeira com uma trama equilibrada de suspense e falsas expectativas, que não se vende aos sustos baratos e a sons inesperados e elevados para provocar uma reacção apropriada ao contexto da obra. Produto criativo tão básico na sua premissa quanto original – finalmente um bom filme de terror norte-americano que não cedeu à onda recente de remakes/reboots que atingiu Hollywood na última década -, “Actividade Paranormal” é uma excelente proposta para qualquer casal com uma sala escura e uma boa televisão, numa sexta-feira à noite de chuva e lua nova. A inevitável sequela já está a caminho – desta vez com a realização de Tod Williams, o mesmo do intragável “The Door in the Floor” -, mas por aqui esperamos ansiosamente é pelo novo filme de Oren Peli, intitulado “Area 51”.

sexta-feira, setembro 10, 2010

Boot Camp (2007)

Adolescentes problemáticos de todo o mundo, ano após ano, são enviados pelos pais para um programa de reabilitação moral e social nas exóticas ilhas Fiji. No entanto, os métodos do ASAP – Advanced Serenity Achievement Program – estão longe de serem consensuais e, numa mistura de “Battle Royale” com “The Island of Dr. Moreau”, o conceituado médico e líder espiritual Normal Hail (sordidamente interpretado pelo brilhante Peter Stormare) aplica técnicas militares abusivas de treino para “endireitar” os jovens delinquentes.

Os fins justificam os meios? A resposta, durante o filme, ficará certamente ao critério de cada espectador. Numa espécie de documentário ficcional – estes campos existem na realidade e foram já motivo de vários debates públicos nos Estados Unidos da América -, o canadiano Christian Duguay, realizador de “The Art of War” e “Screamers” orquestra um thriller psicológico competente, com uma narrativa repleta de conflitos internos relacionados com questões de justiça, corrupção e poder. Além do já referido Peter Stormare, destaque positivo para a atraente Mila Kunis, que cumpre com sobriedade o seu papel.

segunda-feira, abril 12, 2010

My Kid Could Paint That (2007)

Em “A Minha Filha Podia Pintar Isso”, o documentarista americano Amir Bar-Lev propõe-se a acompanhar de perto um fenómeno extraordinário que começava a fascinar milhares de famílias norte-americanas, através de diversos talk-shows “Oprah style”, mas também os mais conceituados críticos de arte de todo o planeta: a história de uma criança de quatro anos, a pequena Maria Olmstead, cujos quadros abstractos rendiam já centenas de milhares de dólares (aos pais), sendo a sua técnica de pintura já comparada aos maiores artistas da história da arte moderna. No entanto, quando em pleno processo de filmagens do documentário, o conceituado “60 Minutos” elabora uma reportagem que lança a dúvida da autoria das obras - graças a uma gravação de uma câmara oculta de Maria a pintar - atribuindo o esmero ao pai, também pintor, Bar-Lev fica sem saber para onde se virar. E o que era suposto ser um documentário de exaltação de uma criança prodígio rapidamente transforma-se num projecto ambíguo sobre a verdade. Seja ela qual for.

Analiticamente, a verdade indiscutível é que acaba por ser esta revelação escandalosa que dita não só o sucesso comercial e mediático do filme, mas que também coloca a nu as fragilidades técnicas e narrativas de Bar-Lev, que não só não consegue descobrir – ou pelo menos supor - tal falcatrua após semanas a acompanhar os Olmstead, como depois de ser surpreendido pela reportagem da CBS não tem coragem suficiente para decidir um rumo a tomar, acabando o seu documentário por deixar mais dúvidas em relação à honestidade da genialidade de Maria do que respostas. Porque se os Olmstead não tinham mesmo nada a esconder, porque não pedir-lhes para instalar uma câmara oculta – já que na presença de estranhos, Maria supostamente distraí-se demasiado e não conseguia “fazer das suas” - que cobrisse as criações da pequena rapariga? Em suma, “My Kid Could Paint That” é uma história/conspiração fascinante que merecia no leme alguém com coragem suficiente para assumir um genuíno trabalho de investigação que respondesse a uma simples questão: seria – ou será ainda – Maria uma verdadeira criança-prodígio ou vítima ingénua de uma fraude parental?

sexta-feira, julho 10, 2009

King of California (2007)

Estreia absoluta na realização do desconhecido Mike Cahill – que até aqui não tinha feito nada mais na indústria além da edição de alguns documentários de segundo plano e a escrita de uma ou outra obra literária ficcional -, “O Rei da Califórnia” é uma película típica do cinema independente norte-americano, apadrinhada – que é como quem diz, produzida – por Alexander Payne, um dos nomes mais fortes desta corrente nos últimos anos. A história, para não fugir a uma das regras-chave recentes de sucesso para as fitas independentes, foca-se nas relações interpessoais de uma família disfuncional, neste caso entre uma uma filha que é adulta e um pai que é criança.

A razão para tal é simples. Miranda (a sensacional e então promissora, agora certeza, Evan Rachel Wood) é, aos dezasseis anos, uma rapariga que já sofreu todas as desilusões possíveis na vida e, mesmo assim, sobreviveu e continua a lutar por uma existência feliz. Abandonada pela mãe e sem a companhia do pai (Michael Douglas) – internado num manicómio -, abandonou a escola, comprou o seu carro pelo eBay e trabalha num McDonald’s para pagar a renda da casa. O pai, agora de regresso a casa, não parece ter melhorado. Aliás, muito pelo contrário: veio obcecado com a possível existência de um tesouro espanhol na região da Califórnia, onde os dois moram. Sem coragem para contrariar a felicidade e a odisseia do pai, Miranda vai acompanhá-lo numa aventura surreal que, aos poucos, vai ganhando forma.

A primeira nota – e logo de desagrado - vai para a distribuição nacional do filme. Com estreia absoluta internacional em Janeiro de 2007, “King of California” esteve inicialmente para estrear nos cinemas portugueses no primeiro semestre de 2008. Não o fez e foi sendo consecutivamente adiado, mês após mês, até Maio de 2009. Não há muito a ser dito que não fique explícito no intervalo temporal descrito. Para fechar a questão, basta relembrar que o filme foi lançado em DVD no restante continente europeu entre Janeiro e Maio... de 2008. Não será este “nim” das distribuidoras – que não deixa o filme estrear nos cinemas nem saltar logo para o mercado de DVD – o maior incentivo possível à tão combatida pirataria?

Outra consequência – e essa ainda mais desagradável – é não ter tido a oportunidade de acompanhar o crescimento de uma grande actriz. Evan Rachel Wood demonstrava aqui, ao lado do talentoso e multi-dimensional Michael Douglas, ser um das figuras de maior potencial na sua geração. A confirmação – “The Wrestler” -, no entanto, chegou primeiro que o testemunho de uma promessa. Em suma, uma comédia simples e simpática, que não deslumbra mas serve para espairecer dentro de um género cada vez mais comercial e rotulado por fórmulas de bilheteira.

terça-feira, março 10, 2009

Next (2007)

Ilusionista em Las Vegas, Cris Johnson (Nicolas Cage) tem um segredo que é tanto um dom como uma maldição: antever com frequência o que vai acontecer alguns momentos após as suas visões. Quando um grupo terrorista ameaça detonar uma bomba nuclear em Los Angeles, Callie Ferris (Julianne Moore) vê-se obrigada a convence-lo a ajudar o governo, de modo a que as intenções do grupo terrorista saiam furadas. O problema é que, mais cedo ou mais tarde, Cris terá que escolher entre salvar a vida da mulher que ama (Jessica Biel), ou a de milhares de norte-americanos.

Por mais interessante – apesar de batida – que pudesse ser a premissa do filme do neo-zelandês Lee Tamahori (“Die Another Day” e “XXX: State of the Union”), poucos minutos bastaram para se perceber que pior que a banalidade dramática da intriga, Cage só teria para oferecer outro dos seus intrigantes penteados. Repleto de lugares comuns no género, “Next – Sem Alternativa” é um fósforo em chama que rapidamente se incinera a si próprio, numa mistura insonsa de desenvolvimentos românticos com fogo-de-artifício artístico. Uma tentativa frustrada de filme-puzzle sem categoria para deixar marca no espectador.

segunda-feira, fevereiro 09, 2009

Teeth (2007)

“Todas as rosas têm espinhos”, afirma uma das premissas do filme. Uma noção simplista, no entanto, para aquilo que o realizador Mitchell Lichtenstein apresenta em “Teeth”, uma comédia de terror que surpreendeu o público e a critica independente no Festival de Sundance em 2007. De resto, a actriz principal Jess Weixler, detentora da mutação mitológica que dá asas à narrativa de Lichtenstein, acabou mesmo por vencer a categoria de melhor actriz dramática, contrariando todas as previsões que atiravam a estreante norte-americana para as segundas linhas da competição.

A sinopse é original – e realmente baseada, tal como uma rápida pesquisa confirma, num mito denominado “Vagina Dentata” - e assenta perfeitamente no género estilístico da obra. Dawn é uma rapariga católica que acredita que deve manter a sua virgindade até ao casamento, mesmo que os impulsos do seu corpo a incentivem em direcção contrária. Ao ser violada por um dos seus melhores amigos, descobre que os seus genitais não são bem como o de todas as outras mulheres, quando o capa impiedosamente (Lichtenstein não tem problemas em mostrar na grande tela o que resta e o que não resta), num festival femininista ambíguo que satiriza a noção de pureza cristã ao mesmo tempo que dá à mulher o poder bruto usualmente machista dos abusos sexuais. Uma proposta interessante para quem pretende fugir à normalidade, apesar de, enquanto comédia negra, “Teeth” ter sido claramente alvo de uma abordagem desequilibrada.

domingo, fevereiro 01, 2009

The Air I Breathe (2007)

O Ar qur Respiramos” - obra de estreia do realizador nova-iorquino Jieho Lee – é uma fábula cinematográfica que se baseia num egrégio provérbio chinês que divide a vida em quarto emoções principais: Felicidade, Amargura, Amor e Prazer. Desta forma, a película é composta por quatro segmentos conexos que se centram em personagens que representam cada uma dessas emoções. Aliás, os próprios segmentos podem ser tidos em conta como as emoções que simbolizam. Num estilo narrativo semelhante ao de “Babel” ou “Crash”, “The Air I Breathe” é um filme filosófico em muitos sentidos, que acompanha o romance arriscado entre Pleasure (Brendan Fraser), um gangster que consegue ver o futuro, e Sorrow (Sarah Michelle Gellar), uma estrela de música pop em ascensão. Mas também a história de Happiness (Forest Whitaker), um honesto banqueiro que anda a tentar escapar da morte lenta que é o seu trabalho quotidiano. E, por fim, o enredo que envolve Love (Kevin Bacon), um médico que está apaixonado por Gina (Julie Delpy), a mulher do seu melhor amigo. Apesar das personagens acreditarem que as suas vidas são subordinadas pela sorte e pelo o acaso, as suas decisões irão provar que o destino é construído pela personalidade e pelas escolhas de cada um. Em suma, a questão não é como vamos morrer, mas sim como vivemos até esse dia.

Entre muitas virtudes e alguns defeitos, pertence a Fraser a principal nota de destaque do filme de Jieho Lee: é a sua personagem que interliga todas as outras. É ele o anti-herói que prevê o futuro de todos aqueles com quem contacta, mas que não o consegue alterar por mais devastadoras que sejam as previsões. Numa interpretação poderosa, Fraser domina a narrativa com a atitude e o talento de alguém que gosta de se destacar nas produções independentes, só para mais tarde se afundar em aventuras megalómanas de estúdio, sem cabeça nem coração. Um desempenho de elite, filosófico na sua essência. Tecnicamente, a realização não desilude de todo, mas a forma como as diferentes narrativas acabam por ser interligadas demonstra alguma imaturidade e incoerência estrutural. E quando se dispõe de um elenco portentoso, com vários nomes capazes de envergonhar algumas das maiores produções de Hollywood, não se deve menosprezar nenhum deles, correndo o risco de, um pouco por todo o lado, alguém como eu apontar essa falha. É que deixa um pequeno travo de desilusão apenas sermos presenteados com alguns escassos minutos de actores com o calibre de Delpy ou Bacon.

sábado, janeiro 24, 2009

Son of Rambow (2007)

Will Proudfoot é um rapaz com uma originalidade criativa desmedida. O seu caderno, onde página após página esboça alguns desenhos que, em sequência, narram uma breve história, é exemplo maior disso mesmo. No entanto, Will vive sobre a alçada de uma família extremamente religiosa, que lhe interdita o acesso à televisão, ao cinema e a todas as restantes tentações do mundo moderno. O controlo é tão restrito que, mesmo na escola, Will é obrigado a sair da aula sempre que um documentário é passado na sala de aulas. E é numa dessas ocasiões, quando espera no corredor pelo fim de um visionamento, que conhece Lee Carter, um dos mais problemáticos rufias da escola. Entre artimanhas e ciladas de Carter – que precisava de alguém que o ajudasse num vídeo caseiro que pretendia mandar para um concurso da BBC -, Proudfoot acaba por ir passar a tarde à abundante mansão do “novo amigo”, onde vê pela primeira vez um filme: uma cópia pirateada de “First Blood”. Enamorado de imediato pela Sétima Arte, decide encarnar o herói da fita e ajudar Lee Carter no seu “filme”.

Filho de Rambow – Um Novo Herói” é uma obra encantadora mas também infantilmente desequilibrada. Com vários altos e baixos na sua linha narrativa – tanto somos presenteados com vários momentos de genialidade, como com alguns períodos ligeiramente prolongados de aborrecimento, com pouca substância que realmente contribua para o desenrolar dos acontecimentos ou para o estudo das personagens –, o britânico Garth Jennings volta a evidenciar algumas das lacunas estruturais que marcaram pela negativa a adaptação cinematográfica de “The Hitchhiker's Guide to the Galaxy”, a sua primeira experiência de realização. No entanto, a forte premissa de uma odisseia juvenil na era do VHS – e quantos de nós não nos identificamos com os desejos e as motivações da personagem principal – e um conceito artístico bem trabalhado, que mistura, por variadas vezes e de forma eficaz, a acção real com o mundo da animação asseguram que a verdadeira alma de “Son of Rambow” prevaleça sobre as eventuais falhas da fita.

Ainda para mais, ou muito me engano ou “Son of Rambow” será posteriormente recordado como o filme que lançou para as feras uma estrela do cinema britânico: não o principal Bill Milner, algo inseguro na primeira metade da obra, mas sim Will Poulter, que, apesar de interpretar uma personagem problemática, consegue conquistar o coração da audiência e executar na perfeição as transições entre as suas facetas ambivalentes de brigão e de “companheiro de sangue”. Esta sua auspiciosa performance de estreia valeu-lhe já inclusive um importante papel no próximo capítulo cinematográfico de “The Chronicles of Narnia”. Em suma, e apesar do caminho algo acidentado, o delicioso final da obra conquista os mais nostálgicos e justifica alguma sobrevalorização por parte da crítica virtual – território da geração da cassete pirata.

quarta-feira, janeiro 14, 2009

Captivity (2007)

Jennifer Tree - a promissora Elisha Cuthbert - é uma modelo em voga nos Estados Unidos. A sua imagem faz parte do quotidiano de milhões de pessoas, invadidas pela sua forte presença mediática e publicitária. No entanto, uma vida de sonho pode tornar-se motivo e razão para o mais caliginoso dos pesadelos: o de um cativeiro mórbido, aparentemente provocado por um admirador sem escrúpulos. Exercício pouco autoral do britânico Roland Joffé, responsável por obras tão importantes na década de oitenta como “The Mission” ou “The Killing Fields”, “Captivity” é, mais do que um projecto falhado de um realizador que perdeu-se pelo caminho, uma ode ao desaproveitamento de uma ideia interessante, sem bases de suporte num argumento atonitamente previsível.

Do desvendar do assassino - enquanto os motores ainda aqueciam - através do olhar característico do actor Pruitt Taylor Vince, à trivialidade e vulgaridade do desfecho, que devido à falta de personagens alternativas apresentadas é facilmente descortinado, tudo em “Cativeiro” parece artificial. Não há um pingo de inteligência ou sentido nos quebra-cabeças apresentados e nem a sensualidade de Elisha Cuthbert é suficiente para salvar o filme da calamidade narrativa. Resta esperar que Roland Joffé não cometa os mesmos erros e faça de “You and I”, uma vez mais, uma simples passadeira de exibição de uma actriz televisiva em ascensão – neste caso, Mischa Barton.

quinta-feira, dezembro 25, 2008

Awake (2007)

Por vezes quem pensa que tem tudo esquece-se que a sua condição de ser humano o coloca automaticamente numa esfera de fragilidades infinitas. Dinheiro, amor e felicidade podem, de um momento para o outro, ser supérfluos, quando um coração falha e a única hipótese de sobrevivência resume-se a um transplante urgente e perigoso. No entanto, Clay Beresford não esperava que a sua operação fizesse parte de um esquema que colocará em causa, não só os seus sentimentos, como sua a própria vida.

Acordado” foi mal recebido pela crítica um pouco por todo o lado. Classificado como irritante e pouco credível por alguns dos mais conceituados jornais norte-americanos, “Awake” baseia a sua linha narrativa na premissa supostamente verídica de que uma em cada quinhentas pessoas que são anestesiadas permanecem conscientes durante as cirurgias a que são submetidas. Com este interessante ponto de partida e um elenco jovem mas competente, a verdade é que “Acordado” acabou por ser, segundo uma perspectiva pessoal, uma das mais agradáveis surpresas do ano.

Sob a surpreendente batuta de Jody Harold, que com “Awake” estreou-se duplamente na indústria como realizador e guionista, a fita surpreende por variadas vezes ao revelar frequentemente segredos inesperados de várias personagens, que acabam por se interligar pelas piores razões possíveis. Com um espaço limitado de actuação – o bloco operatório e a sala de espera -, o talento da veteraníssima Lena Olin e do “anjo negro” Jessica Alba asseguram no entanto que a obra nunca caia em aborrecimento. Pena apenas que grande parte das intenções das personagens derivem de uma conjugação de factores demasiado fortuitos para serem aplicados a nível dramático.

sábado, outubro 11, 2008

Transformers (2007)

A guerra deles, o nosso mundo. Uma curta mas perspicaz premissa que sustenta a adaptação de uma das mais famosas sagas de animação dos anos oitenta, com ajuntamentos gigantescos de admiradores um pouco por todo o lado. Uma guerra, que, como tantas outras, opõe o Bem e o Mal. Autobots contra Decepticons. Extinção versus sobrevivência. Sam (Shia LaBeouf) e Mikaela (Megan Fox) são dois estudantes que, inconscientemente, se tornam peças fundamentais nesta batalha. Uma batalha visual delirante que, para infortúnio dos cinéfilos mais exigentes, derrota o desígnio do equilíbrio estrutural de uma narrativa cabal.

Entretenimento fantasista desmiolado com pinta revivalista. Eis uma boa síntese do que Michael Bay nos oferece em Transformers, um blockbuster em todos os sentidos – até na parte da rapariga de sonho, representada na perfeição pela lasciva Megan Fox -, carregado de sequências de acção que deleitam mesmo qualquer protestante activo dos baldes de pipocas na escuridão de uma sala de cinema. No seu estilo clássico de realização, Bay oferece um subtil toque de humor à película, tornando-a mais tolerável e menos esquecível. O conceito irrisório acaba por entranhar-se no espectador, privilegiando a recepção sensorial, mas também contribuíndo para uma maior desilusão devido à vacuidade dramática da fita. Em suma, estamos perante um filme trivial que, ao contrário do que é dito a certa altura no filme, não bate, nem de perto nem de longe, Armageddon. Fica o franchise.