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sábado, janeiro 03, 2026

The Battle of Chile: Part III (1979)

Não faz qualquer sentido numa perspectiva de continuidade das partes anteriores que este terceiro capítulo intitulado "O Poder Popular" recue novamente para os meses anteriores ao golpe militar, quando a segunda parte termina nesse mesmo momento. O que qualquer espectador pretenderia seria testemunhar o aftermath, as consequências do golpe, as perseguições políticas, as alterações profundas na sociedade. Não, voltamos atrás aos cordões industriais, às greves "furadas", aos motivos e às razões para a revolução. Foi voltar aos preliminares depois do coito, em vez do cigarrinho. Não funcionou.

quarta-feira, dezembro 31, 2025

The Battle of Chile: Part II (1976)

A classe média, unida, jamais será vencida. Quando ou enquanto existir classe média, claro. Esta segunda parte - intitulada “O Golpe de Estado” - centra-se nos acontecimentos que conduzem ao golpe militar e, inesperadamente, muito pouco no desenrolar deste, nas últimas horas de Allende e no papel "traidor" de Pinochet nisto tudo. O bloqueio do Parlamento, os debates na televisão - que satisfatório é descobrir na internet que alguns dos principais nomes de esquerda desta altura acabaram por ter vidas longas, ainda que exilados do Chile -, as manobras da direita e dos militares. Algumas imagens históricas do bombardeamento do Palácio de La Moneda, mas pouco impacto, pouca informação e imagens de "interior".

domingo, dezembro 28, 2025

The Battle of Chile: Part I (1975)

- "O que acha da escassez de recursos?" - "Acho que não existe, não consigo perder nem meio quilo!". Esta primeira parte (de três) do conceituado e premiado documentário de Patricio Guzmán retrata os meses que antecederam o golpe militar de Pinochet a 11 de Setembro de 1973. O crescente conflito político, económico e social provocado pelas reformas socialistas - a roçar, se não mesmo a abraçar, o comunismo - de Allende, acompanhando de perto ambos os lados da barricada: a oposição da direita e das "elites" que organizam protestos e sabotagens económicas e industriais; e, em contraste, a voz aos trabalhadores mais pobres, dos camponeses e dos movimentos populares, que defendem Allende e temem o fascismo e o capitalismo. Esta primeira parte de hora e meia termina com uma imagem fortíssima de uma morte em POV de um jornalista argentino que, confesso, não fazia ideia que existia. Segue-se o golpe de estado. Montagem fenomenal de tanto material disperso e qualidade impressionante de imagem e som. Guardo comentários pessoais ideológicos para uma análise final ao terceiro capítulo, mas deixo já um abraço apertado simbólico ao Mário Soares, que nos soube manter a meio caminho entre extremismos numa altura chave (tão diametralmente oposta como similar) da nossa história.

sábado, outubro 04, 2025

Foxy Brown (1974)

Era para ser uma sequela directa do "Coffy", mas em boa hora a AIP decidiu dar vida própria a uma nova personagem da mitíca Pam Grier, a primeira heroína negra de acção em Hollywood. Um guarda-roupa que é, em si, uma personagem capaz de chocar as psicadélicas na Feira de Carcavelos, uma mulher com atitude, uma pistola, vários rebarbadões rednecks e um valente par de seios, usados constantemente em prol da narrativa. Estou a brincar, usados só porque sim para nos manter entretidos, mas gostei. Ah e tal, estereótipos raciais e de género. O tempo era outro amigos, e sem estas pedradas no charco, esqueçam qualquer revolução - ou sequer evolução - nas mentalidades e na forma de olhar não só para questões sociais, mas principalmente para a própria indústria. Não é sobre sensualidade gratuita, é sobre empoderamento feminino. Banda sonora em jeito de cocktail explosivo de soul, funk e groove, vingança Tarantinesca, castração sugerida que nos faz, homens, apertar os glúteos e uma espécie de mito erótico para a posteridade.

quarta-feira, agosto 27, 2025

Superman (1978)

Luto? Enterro digno? Trauma clássico para a vida, tipo Bambi? Não, vamos meter a Terra a rebobinar, como se fosse uma cassete VHS. De cueca vermelha por cima das calças, não tinha velocidade para chegar a dois mísseis ao mesmo tempo, mas dá à volta ao planeta dezenas de vezes em meia dúzia de segundos, inverte o sentido de rotação da Terra, chama o Einstein de estúpido, e arranja uma solução fácil para qualquer coisa que lhe corra mal de agora em diante. Suspensão da descrença é uma coisa amigos; isto foi apenas uma ode ao absurdo, um pontapé nos tomates da lógica, um murro na cara das leis da física. E sim, é o pior capítulo dos quatro originais, sem vilão temível, longo e cansativo na sua história de origem, pateta em tudo o resto.

sexta-feira, julho 18, 2025

Mr. Majestyk (1974)

O Charles Bronson de boina dono de uma quinta de melancias. Uns saloios que não aceitam ser trocados por imigrantes mexicanos na apanha da melancia. Ah caramba, quem diria que se podia começar uma guerra por causa de melancias. O charme e o jeito para a sedução de um saco de batatas, para manter isto no ramo da agricultura. Em tempo de vindima, não se contam as uvas, mas Bronson na cidade semeou mais ventos e colheu melhores tempestades!

quarta-feira, julho 16, 2025

High Plains Drifter (1973)

Nunca, mas mesmo nunca interrompam o Clint Eastwood quando este está a fazer a barba. Erro de amadores. Pim, pam, pum por baixo do avental, cinema no seu estado mais puro. Segue-se Clint Eastwood a ensinar boas maneiras, à força num estábulo, a uma moçoila que acabou de conhecer. Hoje seria cancelado, mas belos velhos tempos em que uma violação inusitada a abrir um filme ainda era recebida com satisfação e prazer momentâneo pela vítima - e, admirem-se, pelo público. Chibatadas no escuro, tornando o som do seu impacto mais sombrio do que nunca. Cigarrilha na boca o tempo todo, até dentro da banheira. Um anão transformado em xerife e mayor da terreola por um estranho, o estranho de Eastwood. Incontáveis homenagens a Leone e a outros westerns que protagonizou, neste que foi o primeiro do género que realizou. Um mimo.

segunda-feira, maio 05, 2025

The French Connection (1971)

É um thriller muito mais cru, "realista" e violento do que era habitual, com laivos de genialidade na realização e na montagem de um jovem que representava então uma "nova Hollywood": William Friedkin. Tudo certo, e ainda dou de barato que há algum encanto inexplicável no Popeye de Hackman e na malevolência cínica do espanhol Fernando Rey, aqui cabecilha mafioso francês. Mas caramba, daí a isto ganhar o Óscar de Melhor Filme - fora os restantes - e ser considerado um filme de culto, vai uma grande distância, uma que não justifica ser percorrida nem através das perseguições a mil à hora entre carros e metros de superfície nem dissimilada nos muitos momentos à paisana que "enchem" a primeira metade do filme. Realização enérgica, história banal, final vazio.

sexta-feira, setembro 27, 2024

Opening Night (1977)

It's another powerhouse performance by Gena Rowlands, but this time the movie failed to make an impact on me as "A Woman Under the Influence" did. I just felt that all that emotional turmoil and fragility by her character met no equal power, heart and soul on the movie's narrative, structure and often apparently senseless conflicted dynamics between characters. Aging, identity and the pressure of being an actress do not beat marriage and motherhood issues as relatable topics, at least in this house. Add some slow pacing and story disorientation to it and you'll get this shameless rating.

sábado, setembro 21, 2024

A Woman Under the Influence (1974)

A interpretação da Gena Rowlands é de outro planeta, de um calibre e de uma natureza rara na história do cinema. Sim, leram bem, enfio mais de um século de vidas, filmes e personagens nesta expressão. Não há aparente exagero que envergonhe o que Rowlands fez aqui. Filme cru, como se não existisse uma única câmera em torno daquelas pessoas, daqueles jantares de amigos, daqueles momentos de amor e loucura de um casal, de ternura e cansaço entre pais e filhos - e aqui conto também com os pais dos pais. Cassavetes coloca-nos como meros observadores de uma história de vida, melhor, de uma fatia de uma história de vida, com uma cinematografia tão naturalista quanto tremendamente eficaz. A loucura, a sanidade mental e a forma como era tratada e abordada nos anos setenta, Peter Falk e Gena Rowlands sempre no limite, deixando-nos psicologicamente exaustos. Nem tudo é perfeito - o filme sofre longe de Rowlands, tanto a nível narrativo como rítmico, e o corte e costura nem sempre tem atenção a detalhes simples de posicionamentos -, mas tudo isso é absorvido pela performance de Rowlands. Um grito de guerra feminino contra uma sociedade patriarcal, um hino ao cinema.

quarta-feira, maio 15, 2024

Bananas (1971)

It's a classic example of his early, zany style, with jokes that still hold up today. Love his humor, his comedic timing, his satire and political commentary disguised almost perfectly in slapstick comedy and absurd situations. You cannot bash in the head of an American citizen without written permission from the State Department.

domingo, maio 12, 2024

The Mechanic (1972)

Arthur Bishop, assassino a soldo paciente e metódico, amante de música clássica, cuja principal dificuldade é ter que lidar com o bad acting do Keenan Wynn e com o seu próprio cabelo em cenas com muito vento. Faz todas as mortes parecerem acidentes, conta pulsações com os dedos no pulso - nada destas mariquices modernas de relógios que fazem tudo -, usa uma bola anti-stress para ganhar força nos dedos e veste um robe vermelho, qual playboy a quem só lhe faltam as coelhinhas. Felizmente, há sempre uma prostituta disponível quando é preciso. O Airwolf (Jan-Michael Vincent) antes de lixar a vida e a carreira com drogas e álcool e o bigodaças Bishop que gosta de responder a perguntas com... perguntas. Realização martelada e tosca do Michael Winner para não variar e uma relação de mestre-aluno que nasce de forma completamente aleatória mas que, ousadamente, termina num finale inesperado em que ninguém se ri por último ou sai por cima.

segunda-feira, abril 15, 2024

The Long Goodbye (1973)

A história é uma salganhada caótica de todo o tamanho apimentada aqui e ali por detalhes primorosos e extravagantes de realização de Altman e por uma performance fenomenal de Elliott Gould no papel icónico do detective Phillip Marlowe. Schwarzenegger brutamontes de cuequinha antes de ser o Schwarzenegger que todos conhecemos, festa dos marmelos a torto e direito no apartamento ao lado do de Marlowe porque sim e uma cena final memorável que acaba por salvar o filme de cair no eterno esquecimento. Pelo menos aqui em casa.

domingo, janeiro 28, 2024

Mean Streets (1973)

Scorsese had tons of filmmaking concepts he wanted to do, but no idea how to glue them all in a logical integrated narrative. It works aesthetically - some great cinematic shots and a wonderful score -, but fails as a whole. First movie collaboration of Marty and Bobby. I would say that "Mean Streets" walked so that "Taxi Driver" could run three years later.

segunda-feira, janeiro 08, 2024

The Parallax View (1974)

IMDb trivia page tells us that this movie started principal photography without a finished screenplay. Makes perfect sense: nice cinematography - awesome initial and closing sequences -, flat conspiracy/paranoia narrative. A movie that reflected the emotional strain of its time: Kennedy, MLK, the Pentagon Papers and Watergate all happened in the preceding years.

terça-feira, dezembro 12, 2023

… And Justice for All (1979)

- "O seu filho não presta!" - "É. Ele nasceu com cólicas." Há filmes assim, epilépticos, desiquilibrados no tom e no formato. Ora drama de tribunal repleto de dúvidas sobre o sistema judicial norte-americano, ora Malucos do Riso com o Jack Ward a fazer de Camacho Costa com o martelo da justiça numa mão e a manche de um helicóptero sem combustível noutro. Dá-lhe algum charme e identidade singular, na verdade, mas retira-lhe o peso que poderia desiquilibrar a famosa balança cega da lei para um retrato sério e pungente sobre como o tribunal não passa de um circo de vaidades e de poderes, onde dois lados lutam pela vitória, sabendo sempre que apenas um dos bancos, seja o da defesa ou o da acusação, defende a verdade. E a justiça, a tal justiça para todos, devia ser sobre a verdade, toda a verdade, e nada mais do que a verdade. Al Pacino a ser Al Pacino e "o meu horóscopo tinha dito que hoje ia ser um dia espetacular, e olha o que me aconteceu!"

quarta-feira, dezembro 06, 2023

The Getaway (1972)

It was a bumpy ride, but one not worthy of its hype. The storyline felt disjointed, transitions were abrupt most of the times and I just couldn't engage with the characters and their motivations. Didn't feel any chemistry between McQueen and MacGraw, and even if I can acknowledge some very well executed action scenes, that's simply not enough to salvage yet another Peckinpah movie from mediocrity. I know, i know, it must be my problem, not his.

domingo, novembro 05, 2023

The Last House on the Left (1972)

Que estreia marada de Wes Craven. Não percebi se o objectivo era ser uma comédia corrompida pelo horror ou vice-versa. Nem sei como é que não acabou a meter pornografia explícita pelo meio. Discussões familiares sobre não usar soutiens, a (provável) primeira vez que se usou o termo glândulas mamárias no cinema, a morte de um pastor alemão mais desconcertante para um jornalista do que a morte de dois guardas prisionais, a melhor imitação de sempre de um sapo, a música e a sonoplastia como se de um filme dos Monty Python se tratasse, constantemente em contradição com quase tudo o que a tela oferece visualmente. Foragidos num descapotável, bem visíveis, porque senão não tinha piada, um par de polícias totós menos importantes que um carregamento de galinhas, fatos e roupas que aparecem do nada para uma invasão domiciliária consentida e hospitaleira e a pilinha que não é pequena, apenas está assustada porque ficou presa no fecho éclair. Ah, e violações, dentadas um pouco por todo o lado, facadas e desmembramentos. Ah, os loucos anos setenta!

sexta-feira, outubro 27, 2023

Straw Dogs (1971)

It's a provocative exploration of human violence and the thin line between civilization and barbarity. That thin line is a beautiful girl with a short dress without a bra underneath it, of course. That being said, still not a fan of Sam Peckinpah's form of developing his characters and the way all his scripts seem to be missing a couple of pages for us to fully understand the how's and the why's of most of his characters' motivations. But hey, give him violence and a rape scene, and you won't get anything more realistic, repulsive and visceral for decades.

terça-feira, outubro 24, 2023

St. Ives (1976)

St. Ives, o Temerário, é um jornalista criminal reformado viciado em apostas desportivas que gosta de dormir até tarde e que não dispensa um whisky com refrigerante num qualquer bar. Um corpo numa máquina de secar, o Peter Thornton do MacGyver, a Jacqueline que gosta de camas desfeitas porque são mais quentes e o Freddy Krueger disfarçado de bandido. A primeira de nove colaborações de Bronson com o realizador J. Lee Thompson, um filme filho bastardo dos detectives de Humphrey Bogart com a febre de então em torno de "Chinatown". O hotel de capa do Hotel California dos Eagles, Bronson suspenso e pendurado, ele mesmo, em cabos de elevador e o patife do Jeff Goldblum a tentar dar cabo da vida do nosso protagonista uma vez mais - tinha sido ele a matar a mulher de Bronson no arranque da saga "Death Wish". Raccord complicadíssimo, história a despachar, inúmeras personagens que aparecem e desaparecem sem percebemos bem porquê e uma revelação de vilão à Scooby Doo - máscaras para fora, meus meninos! "Estás a pensar no quê? Na tua saúde", responde Bronson. Até senti um arrepio na espinha. Lição do dia do Sr. Bronson: ser honesto sai caro.