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segunda-feira, novembro 03, 2025

The Killer (2024)

O John Woo está para o cinema de acção como o Cristiano Ronaldo para o futebol. Quinze anos de uma carreira fenomenal em campeonatos competitivos - China e Hong Kong -, uma curta experiência que funcionou em Itália - "Hard Target", "Broken Arrow" e "Face/Off" - e depois o descalabro na Arábia Saudita. Fintas (slow motions) que não resultam em nada, imagens de marca como o SIUUU (pombos) a festejar golos de penalty contra manetas, palermices e caretas para as câmeras quando não lhe passam a bola ou perde um jogo (as histórias e os vilões sem chama nem profundidade). Juntem a este piloto automático à busca de um cheque para pagar contas o carisma nulo de um qualquer saudita que lhe centra a bola (Nathalie Emmanuel) e nem a extravagância do Jorge Jesus (Eric Cantona) o salva de fazer figura de camelo neste fim de carreira. Felizes eram os tempos em que suspirávamos por um "amanhã melhor, fervido à bruta".

domingo, setembro 28, 2025

Humane (2024)

Duas partes completamente distintas: uma primeira, assente no conceito semi-apocalíptico, num jantar misterioso, na construção de uma realidade e de um universo tão distópico quanto credivelmente assustador; aguenta-se bem, muito por responsabilidade directa da personagem - e do trabalho - de Peter Gallagher. Depois, o trambolhão. Narrativo, visual, conceptual. Tudo o que tinha sido construído pela filha mais nova de Cronenberg atirado ao lixo em troca de um slasher familiar manhoso, repleto de mini reviravoltas de facas e ferraduras sem sentido nem impacto emocional de qualquer tipo. O final, ainda pior, qual jumpcut para um futuro próximo, sem explicação do que aconteceu entretanto entre vitimas e vilões. Sim, porque aqui não há heróis. Jay Baruchel, horrível, sempre a arrastar o drama, mesmo que sem intenção, para a comédia. É o que dá ter cara de parvo.

quarta-feira, setembro 24, 2025

The Second Act (2024)

Já pensei que o Quentin Dupieux era um génio, um visionário, um louco que fazia falta ao cinema, ao nosso pequeno mundo nerd. Porque transformava de forma fácil, rápida, banal, pneus assassinos e moscas gigantes em filosofia de bolso, mas também por simpatia podcástica com o meu amigo Pedro Cinemaxunga, que morre de amores pelo Mr. Oizo. Acho que fui enganado. Segundo barrete consecutivo, desta vez num filme em piloto automático que parece escrito por inteligência artificial, para gozar/criticar a inteligência artificial. Ideias e palavras ao calhas com a mesma seriedade com que eu lavo as meias soltas em casa, uma espécie de fraude perfeita que aplaudimos mesmo sem funcionar com harmonia porque nos sentimos cúmplices do conceito, do génio, do seu passado enquanto realizador. O nada pode ter algum sentido... mas o algum sentido também pode ser uma valente mão cheia de nada.

sábado, julho 26, 2025

I’m Still Here (2024)

Certos filmes contam histórias, outros fazem-nas respirar de novo: "Ainda Estou Aqui" é muito menos drama histórico e politico do que seria expectável que fosse, e muito mais um acontecimento relativamente individual que se presta à memória colectiva - um oxímoro propositado num filme repleto deles -, costurado com amor, dor e uma resiliência silenciosa espelhada na perfeição pela Eunice de Fernanda Torres. Não há aqui cenas de tribunal, manifestações na rua ou aulas na universidade; não há um retrato convencional de heroísmo político/social; apenas um quotidiano cheio de vazios, de refeições partilhadas em família, de memórias na praia, de um passado em choque constante com o presente, que se prolonga, literalmente, até ao esquecimento - Alzheimer, seu filho da mãe. É no silêncio, entre lágrimas e sorrisos (es)forçados, que a dor se instala, que a memória, suportada naquelas sequências em Super 8, serve o luto. Não é perfeito, mas é extremamente necessário. Como cidadãos livres, mas especialmente como humanos.

segunda-feira, julho 14, 2025

Vincent (2024)

Sentado no avião, faltam cinco minutos para descolar e meter tudo em modo de voo. Abro a Amazon Prime rápido no iPad, e toca a escolher um filme para transferir. Vincent? Ah, isto é aquele que o tentam matar o tempo todo e ele não sabe porquê. Vai já este. Pois bem, não era, esse é o "Vincent Must Die". Produção australiana de fim de catálogo, numa esfera de sátira/comédia negra que não consegue efectivar com sucesso e, acima de tudo, ritmo e timing, uma única das suas ideias fora da caixa. Cenas que se arrastam sem piada para além do conceito, numa história que certamente funcionaria melhor no papel ou em gags de curta duração.

quarta-feira, junho 18, 2025

Madame Web (2024)

Um rebarbado como eu dar apenas uma estrela a um filme que tem a Dakota Johnson, a Sydney Sweeney e ainda a Isabela Merced como bónus, diz tudo o que precisam de saber sobre isto. Mais um prego no caixão da SONY nestas andanças, como se fosse um acrónimo para "Só Ofereceremos Nerdices para Youtubers". Tanta preocupação a preparar uma possível sequela, franchise, o que quiserem chamar durante hora e meia... e depois nem uma cena pós-créditos que sustente essa ambição. Tudo demasiado plástico, visual e narrativamente, tudo pateta, tudo terrível. É que nem um decotezinho na Sydney para ao menos lavar as vistas!

quinta-feira, maio 29, 2025

Lift (2024)

Como é que o realizador do "The Negotiator" ou do "Law Abiding Citizen" comete um crime destes? Não há desculpa possível, nem sequer aquela carta joker de culpar tudo na Netflix. Casting doloroso - Kevin Hart como líder galã em vez do pateta do costume -, o Sam Worthington, enfim, poderia ser o António ali da Padaria Portuguesa, dava ao mesmo, o Vincent D'Onofrio perdido entre disfarces, a Tokyo que passou de capital urbana a junta de freguesia de Mal Lavado em Odemira e o Jean Reno, Léon noutros tempos, Lapin para esfolar agora. Aqueles dez minutos iniciais em Veneza safam-se, tudo o resto é tão idiota e insultuoso à inteligência do espectador que o António Araújo deve ter ficado com as orelhas quentes de me ter metido a ver isto! Efeitos especiais, então, f*#asse, já vi melhor na Asylum.

sexta-feira, maio 23, 2025

The Brutalist (2024)

Brutalismo: querer ser sobre tudo, acabar por ser sobre nada. É sobre arquitectura mas não há um arquitecto que tenha apreciado; é sobre a vaga de imigração judaica para os Estados Unidos no pós-guerra, mas não só muito melhor já foi feito sobre o mesmo tema, como as suas ambições desmedidas na segunda metade do filme matam por completo essa vertente; é sobre jogos de poder e de classes, mas acaba por resumir-se ao desejo escondido de uma enrrabadela proibida. Poderia tudo isto ter algum valor e contexto se fosse uma história verídica, uma obra baseada na biografia de alguém? Claro que sim. Mas não, é tudo invenção, tudo cinema, daquele cinema que se foca na arte, na técnica, nos planos, em enfiar hora e meia de filme a mais sem necessidade nenhuma que não ter tempo para se ostentar. É cinema bruto na técnica, brutalista na sua sexualidade desavergonhada, brutal até nos acordes que acompanham as imagens? Talvez. Mas soube a muito, muito pouco. Aquela maçã Golden Brody impecável por fora, sensaborona por dentro.

terça-feira, maio 13, 2025

Venom: The Last Dance (2024)

Não sei quem é que teve a infeliz ideia de convidar a guionista dos dois primeiros capítulos para se estrear na realização neste terceiro, mas é quase certo que não vai comprar uma casa nas Caraíbas como o Michael Caine às custas de um quarto filme. Aliás, o mais provável é esta Kelly Marcel ter acabado de uma vez por todas com o SSU (Sony's Spider-Man Universe) quando decidiu fazer aquela montagem romântica de flashbacks perto do fim, nível máximo de azeite, mínimo de talento. Tudo acontece e aparece do nada, tudo mal encaixado, mal justificado, e até o raio do humor negro e sarcástico do Venom sucumbe perante tamanha salganhada de acontecimentos. Para compensar, banda sonora do caraças, com o Space Oddity à cabeça. Tudo fica melhor com o Space Oddity à cabeça!

domingo, maio 11, 2025

Joker: Folie à Deux (2024)

Ousado no tom, extremamente bem filmado, fora da caixa no género, a quebrar expectativas como sequela directa - redefine-se mesmo mantendo quase tudo (e todos), de Todd Phillips a Phoenix - e corajoso o suficiente para, inesperadamente, fechar qualquer porta para o futuro - nem era preciso ter sido um flop na bilheteira e na crítica. Para quem queria mais do mesmo - e o mesmo tinha sido muito bom -, é natural que a desilusão tenha sido enorme. Compreende-se: falta-lhe a intriga, a imprevisibilidade e a liberdade de "rua" do primeiro; e nem todos temos paciência para tanta cantoria desnecessária. Mas ainda está para chegar o dia em que me expliquem porque é que a Zoë Saldaña ganha uma estatueta careca dourada a cantar numa telenovela e o Joaquin Phoenix é nomeado a um razzie fazendo o mesmo numa performance muito mais crua, arrojada e ímpar aqui. Podia ser uma daquelas piadas sem piada do Joker.

sexta-feira, maio 09, 2025

Emilia Pérez (2024)

As expectativas eram baixíssimas e o arranque mostra logo ao que vamos. Não estivesse fechado dentro de um avião numa longa viagem de oito horas, provavelmente teria desistido no primeiro quarto de hora. Mas lá fui, entre o pão com manteiga e o café frio deslavado, música pós música, na onda da Zoë Saldaña. Não é definitivamente um filme para todos - chamemos-lhe uma mexicanada à francesa -, mas é muito mais interessante do que aquilo que lhe pintaram. Não sabe ser sensato e equilibrado nos momentos musicais, mas embala bem uma história complexa no meio destes seus tiques novelescos e destas suas manias musicais. E mil vezes a Zoë cantora que a Zoë verde com orelhas pontiagudas.

quarta-feira, maio 07, 2025

Conclave (2024)

É um filme muito sóbrio e competente na forma como consegue envolver o espectador, ateu ou religioso, numa intriga de conclave, de votação, de um jogo de poder e de aparências entre falsos moralistas sedentos de alcançar o patamar mais alto de uma vida dedicada à igreja católica. Faz o que eu te digo, não faças o que eu faço, com direito a uma interpretação irrepreensível - como costume - de Ralph Fiennes e a uma reviravolta tão ambiciosa quanto estranhamente gratificante bem perto do final. Todos percebemos que o homem ia ganhar a eleição para Miss Vaticano por ser o único que sabia responder às perguntas do Humberto Bernardo de forma assertiva, mas ninguém imaginou aquele twist!

segunda-feira, março 24, 2025

Sonic the Hedgehog 3 (2024)

O que é que é melhor que um Jim Carrey tresloucado? Dois. O que é melhor do que dois filmes super competentes e descontraídos para toda a família? Três. A saga que quase não arrancou depois de um primeiro trailer de lançamento visualmente catastrófico continua de vento em popa, de espinhos em riste, de electricidade em joules máximos. Não soou bem esta última, como provavelmente metade das ideias aqui presentes em papel - hologramas, traços aloirados à Dragon Ball, momentos à John Wick/Akira. Mas na prática tudo resulta, ou não estivéssemos nós enfiados naquele carrossel imparável de genialidade da família Robotnik em que um diz "vamos comer crianças" e o outro "vamos comer, crianças". Parece o mesmo, mas uma vírgula salva muitas vidas.

terça-feira, fevereiro 18, 2025

Alien: Romulus (2024)

Uma vez tive um instrutor que no final de um exercício de simulador de complexidade elevada já na última fase do curso, com um avião em emergência com fogo a bordo à mistura, disse-me isto no debriefing ao ver o meu ar de felicidade por ter acabado o mesmo sem mortos nem feridos a relatar: "se isto fosse o Ídolos e eu o Manuel Moura dos Santos, dizia-te assim: tu mexer mexes-te bem, mas cantar não cantas um car***o"!". Sinto que diria o mesmo ao Fede Alvarez hoje. Primeiro acto com o tom e timbre certo, tudo o resto a abanar o bumbum em homenagem aos anteriores, tentando-os imitar sempre que pode. Não há feridos nem morreu ninguém entre os fãs da saga, menos mal.

domingo, fevereiro 02, 2025

Smile 2 (2024)

É uma salganhada narrativa, sem grandes explicações para metade do que acontece e de como se foi de A para B - principalmente naqueles minutos finais que saltamos de uma cave frigorífica da Pizza Hut para uma arena lotada, assim, do nada -, com jumpscares a torto e a direito - quase todos previsíveis, mas não menos eficazes por isso - e duração exagerada. O que é real e o que não é fica à nossa descrição, mas o que não deixa margem para quaisquer dúvidas é o portento da interpretação de Naomi Scott, capaz de levar o filme inteiro às costas durante duas horas, praticamente sozinha, num caminho tempestuoso até à total insanidade. Intensidade, carisma e um sorriso de morrer. Pun intended.

quarta-feira, janeiro 01, 2025

Caddo Lake (2024)

Dois grandes trunfos deste "Caddo Lake": não denunciar pelo seu cartaz e material promocional o género e o tipo de filme em que nos vamos meter; e, abraçando a sua complexidade narrativa, conseguir desmontá-la e explicá-la de forma extremamente competente, para qualquer tipo de espectador, do mais atento ao mais distraído, sem sequer ter ou sentir a necessidade de justificar o mecanismo "sci-fi" que o suporta. Boa surpresa, com o Rodrigo Santoro americano.

quinta-feira, dezembro 26, 2024

The Ministry of Ungentlemanly Warfare (2024)

Um grupo de personagens interessantes, duas ou três cenas muito boas que funcionam e sobressaem das restantes graças ao humor e química entre o elenco principal - a do prólogo, por exemplo -, todo um espectáculo de acção boçal e repetitivo que toma conta da segunda metade do filme, qual filme em piloto automático que perde todo e qualquer resquício de identidade do cinema de Ritchie. Um Churchill que não convence nadinha e uma Cleópatra (Eiza González) de fazer cair o queixo, num "Sacanas sem Lei" para totós. Até devia ter levado com aquela faixa amarela e preta no cartaz.

terça-feira, dezembro 17, 2024

Canary Black (2024)

O realizador do primeiro "Taken" - "I will look for you, I will find you, and I will kill you." - e a Kate Beckinsale de voz grossa e roupinhas justas. Bonita cena de abertura numa penthouse japonesa e, de volta a casa, desta vez Pierre Morel decide que é o marido desta loba solitária da CIA com um historial de zero missões falhadas que deve ser raptado para dar pontapé de saída ao espectáculo. Acção bem filmada como seria de esperar, plot assim-assim que ainda assim não envergonha ninguém, uma máscara de silêncio, um drone gigante, um Citroen a alta velocidade (que perigo), uma reviravolta conjugal inesperada, um final bem sacado para deixar no ar um possível regresso e, porra, desculpem lá insistir nisto, mas esta voz de velha da Kate foi ideia de alguém ou uma inevitabilidade da PDI? PS: Caramba, dedicado ao Ray Stevenson? Que facada!

quinta-feira, dezembro 05, 2024

A Almería de Leone (2024)

Sob o sol ardente de Almería (tirando o dia que fez nevoeiro e tramou o Paulinho), ergue-se o silêncio que ecoa o oeste (com mulher e filhos, silêncio não houve certamente), onde o deserto se faz tela vazia (para tanta cativante sobreposição do passado com o presente) e o vento sopra histórias de homens de barba rija (e de um narrador a cumprir um sonho de criança). Em Almeria Sergio Leone desenhou o faroeste, em Almeria Paulo Fajardo escreveu um belíssimo poema de homenagem à sua carreira.

terça-feira, novembro 26, 2024

The Platform 2 (2024)

Como moderado apreciador do primeiro capítulo, pensei que estaria aqui uma bela oportunidade para expandir o universo original, dando resposta a tantas perguntas que ficaram com resposta suspensa então e, quem sabe, deixar tantas outras por responder num possível franchise de futuro, ao estilo do que aconteceu ao "Cubo" de Vincenzo Natali. Nada mais errado: esta sequela não passa afinal de uma espécie de remake, com novos personagens, novo planeamento, pior execução técnica, visualmente e narrativamente mais trapalhão e, porra, todas as mesmas dúvidas no ar que tinham sobrado do original. Estoy hasta los huevos.