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segunda-feira, dezembro 02, 2024

The Cutter (2005)

O Daniel Bernhardt com tatuagens nazis, mau como as cobras, rouba uma série de jóias antigas de um túmulo acabadinho de ser descoberto algures no deserto do Sinai. Instruções de um raptor num DVD-R da Memorex; bons velhos tempos em que o DVD era rei e senhor disto tudo. Chuck Norris, policia reformado, agora detective privado, fluente em russo e com conhecimentos profundos em mitologia ancestral judaica. Slow motions, silêncios prolongados e analepses narrativas a cada cinco minutos. A Tracy Scoggins, meu Deus, não dava conta daqueles olhos lindíssimos desde a sua personagem de jornalista atiradiça e sexy na redacção do Daily Planet nas tardes da TVI. Só por isso já valeu a pena.

segunda-feira, janeiro 24, 2022

Enron: The Smartest Guys in the Room (2005)

Se a malta que está a pensar votar na Iniciativa Liberal visse este documentário sobre como uma série de chicos-espertos aproveitou a desregulamentação dos mercados para fazer centenas de milhões de dólares à custa de necessidades e bens essenciais às populações, provocando, por exemplo, blackouts propositados de energia durante várias horas do dia para, desta forma, justificar o aumento do preço da electricidade que a sua empresa - Enrom - fornecia a toda a Califórnia, provavelmente a IL acabaria sem um único deputado na Assembleia. Acabou como sempre acaba em todo o lado, com o governo a ter que intervir para resolver o assunto e verificar o que se passava - declarou estado de emergência na Califórnia para ter acesso às centrais e ordenou investigações à "estranha" contabilidade da empresa -, e com a inevitável bancarrota daquela que já tinha sido uma das dez empresas mais lucrativas dos EUA, trinta mil trabalhadores desempregados e milhares de pequenos accionistas com as poupanças de uma vida queimadas. Os tubarões venderam tudo a tempo e horas, demitiram-se antes da queda e hoje, depois de meia dúzia de anos na prisão por crimes fiscais e corrupção, estão certamente a gozar a reforma "escondida". Sim, já sei que corruptos e chico-espertos há em todo o lado, seja qual for o sistema em vigor. Sim, até me dava jeito a taxa única de IRS a 15%, que desconto quase 50%. Não se chateiem comigo, betinhos liberais. Fugindo ao tema e numa análise mais técnica ao documentário do hoje conceituado Alex Gibney, imagens de arquivo, entrevistas a figuras secundárias e pouca ou nenhuma criatividade na forma de contar a história. Fica a curiosidade da tentativa de streaming da Blockbuster, demasiado cedo e sem recursos - banda larga - para ter sucesso.

terça-feira, junho 08, 2021

Elektra (2005)

Super-heroínas em fatos de cabedal, já sabemos no que dá, não é Halle Berry? Primeiro Marvel no "feminino", com a estrela em férias da extraordinária "Alias" de J.J. Abrams em piloto automático - obrigatoriedade contratual - numa personagem deslavada, sem o sainete de sensualidade e carácter que lhe tinha sido dada no "Daredevil" em que se apresentou dois anos antes. O que ganha em fugir ao vício apocaliptíco de "salvar o mundo", baseando-se numa narrativa mais íntima e familiar, perde no estilo demasiado sério com que tenta abordar uma história com motivações e decisões que raramente fazem sentido. E nem vou falar dos desaparecimentos mágicos em fumo verde dos "ninjas". Tom inconsistente - ora thriller psicológico negro, ora patetice quase sobrenatural de banda desenhada -, personagem enterrada para a eternidade. E ainda diziam que o "Daredevil" do Affleck era mau.

segunda-feira, abril 12, 2021

Walk the Line (2005)

Biopic completamente formulaico, tanto na realização como a nível narrativo, que só sobressai dos demais pelas interpretações tão exóticas quanto empenhadas - tanto Phoenix como Witherspoon tiverem seis meses prévios de aulas para tocarem e cantarem eles próprios no filme - da dupla principal. As histórias de bastidores são tão ou mais interessantes que o trabalho de Mangold em si - a relação conturbada entre os protagonistas fora de ecrã, os ataques de raiva e loucura de Phoenix que improvisou várias cenas que acabaram por entrar na edição, como aquela em que arranca o lavatório da parede -, trabalho esse que saltita constantemente entre momentos-chave na vida de Cash, criando todo um contínuo lógico confuso que seria facilmente resolvido com algumas artimanhas de realização. Faltou dar corpo a todo o caminho que levou aos sucessos e às desgraças da vida de Cash, desfocando por vezes a relação obsessiva com June em prol de tudo o resto. Não querendo ser mauzinho, o videoclip derradeiro do homem de negro num cover de "Hurt" dos Nine Inch Nails, faz melhor e mais sentida justiça a toda uma vida em menos de quatro minutos que Mangold em duas horas insonsas. Porque, como alguém escreveu um dia, aquele fechar do piano teve o mesmo peso do encerrar de um caixão.

quinta-feira, março 25, 2021

Imagine Me & You (2005)

Piper Perabo com sotaque britânico porque todos sabemos que não existem actrizes suficientes no Reino Unido. A Cersei, perdão, Lena Headey, com o mesmo carisma e vontade de interpretar uma personagem lésbica da Marine Le Pen. Um cacto de forma fálica como melhor piada de uma "comédia" romântica. Muito pouco tempo de ecrã dos pais da noiva, de longe as personagens mais interessantes e divertidas da narrativa, os únicos com química e timing para fazer sorrir. Enfim, faço fretes pelo Nalgas Film Club que não faria pela minha própria mulher.

quinta-feira, janeiro 14, 2021

Star Wars: Episode III – Revenge of the Sith (2005)

De longe a melhor das prequelas, a todos os níveis: efeitos especiais, sonoplastia, história coesa do primeiro ao último minuto, heróis e vilões com verdadeiros motivos e desenvolvimento calculado e cuidado das suas personagens, Hayden Christensen (finalmente) a convencer e, no geral, uma gestão mais do que competente de expectativas e ilusões dos fãs tendo em conta todo o "futuro que já era passado". Palpatine finalmente imperador, Dooku aprendiz traído, Grievous a quatro sabres, Anakin antes e depois do capacete, Padmé com "uma (ou duas) nova esperança" dentro dela, Yoda mestre do Fortnite (sobrevivência), Windu sem mãos a medir (pun intended) para tanta política, Kenobi o crente descrente do grande salvador, entre tantos outros, todos eles com tempo e espaço para finalmente brilhar. Assim terminou a liberdade da galáxia, e um ciclo na vida de Lucas: com um estrondoso aplauso.

terça-feira, março 03, 2020

Grounded on 9/11 (2005)

Documentário do History Channel sobre as mais importantes e determinantes acções tomadas pelos controladores de tráfego aéreo norte-americanos perante a incerteza, o pânico e as restrições impostas praticamente ao minuto no dia do ataque terrorista que mudou o mundo. O stress nos cockpits e nas salas de operações, os casos suspeitos, os mal entendidos e todas as divergências que levaram milhares de aviões e um milhão de passageiros a aterrar onde não planeavam. Uma perspectiva diferente do 11 de Setembro, que reconheço possa apenas ter interesse para qualquer apaixonado da aviação.

segunda-feira, janeiro 04, 2016

Brick (2005)

Um papelão de um muito jovem Joseph Gordon-Levitt, a estreia temerária na realização de Rian Johnson ("Looper" e o episódio VIII que aí vem), uma narrativa teen noir exótica, um raccord estranho, uma mão cheia de interpretações desastrosas, muito estilo, pouca plausibilidade. "Brick" é um objecto único, repleto de atitude, mas vazio de impacto emocional; interessante a nível técnico, aborrecido e descoordenado a nível estrutural. Quente e frio, ousado mas vítima da inexperiência do seu maestro.

quinta-feira, julho 17, 2014

The Game of Their Lives (2005)

Centrado na histórica vitória da selecção norte-americana de futebol, constituída na sua maioria por jogadores amadores, sobre a poderosa e aristocrata selecção inglesa, então considerada a principal candidata ao título no Mundial de Futebol de 1950 no Brasil, importa começar por afirmar que “The Game of Their Lives”, enquanto exemplar artístico e técnico desta arte que veneramos e à qual chamamos cinema, é uma miséria. Mesmo a nível factual, revelaram posteriormente alguns dos sobreviventes do jogo, quase tudo é romantizado para que uma vitória de um carteiro, dois ou três professores, um lavador de pratos e um director funerário sobre uma mão cheia de jogadores reputados na altura como sendo os melhores do planeta (principalmente Stan Mortensen e Stanley Matthews) se tornasse numa fábula de David contra Golias, ocultando detalhes, jogos e pormenores importantes no longo percurso dos norte-americanos que ajudaria a perceber um pouco melhor a forma como foi construído este resultado memorável. A maneira como o desporto em si é filmado dentro das quatro linhas, essa, é melhor nem falar; basta imaginarem Gerard Butler como um guarda-redes imbatível ou uma dúzia de jogadores à volta da bola na mesma jogada, vezes e vezes sem conta, e está tudo dito.

Porque escrevo tantas linhas sobre o mesmo então? Porque o feito norte-americano da década de cinquenta é provavelmente o melhor exemplo de que, no futebol, tudo é possível. E o leitor merece descobrir um pouco melhor o que realmente aconteceu em terras brasileiras a veteranos de guerra como Frank Borghi – que defendeu tudo o que havia para defender nesse jogo -, Pee Wee Wallace, o caceteiro Gloves – que perto do final do jogo placou um jogador inglês que se isolava como se de um jogo de rugby se tratasse - ou, acima de tudo, o haitiano que nem naturalizado norte-americano era e que marcou o golo que atirou aqueles onze desconhecidos para o panteão eterno da glória desportiva. É neste homem, Joe Gaetjens, que procuro colocar todas as vossas atenções.

Gaetjens, nascido e formado no Haiti, lavava pratos num restaurante nova-iorquino e recebia vinte dólares por jogo numa equipa local de futebol para conseguir pagar os estudos universitários, após ter arriscado tudo numa viagem solitária para a Terra dos Sonhos. Ninguém o conhecia e apenas se juntou à selecção norte-americana umas semanas antes da equipa rumar ao Brasil, por obra e graça de um colega de equipa que o indicou ao seleccionador de modo a resolver uma lacuna grave no conjunto norte-americano, sem a disponibilidade de um par de jogadores inicialmente convocados que não obtiveram autorização dos seus patrões para se ausentarem durante duas ou três semanas. Descobriu-se mais tarde, Gaetjens nem cidadão norte-americano era e viajou para o Brasil com um passaporte falso. A FIFA investigou o caso posteriormente mas aceitou a justificação norte-americana que, na altura, um visto temporário seria suficiente para considerar o jogador como homem da casa.

No filme, é retratado como um homem negro – na verdade, fotografias a preto-e-branco desse Mundial demonstram que, quanto muito, seria mulato – repleto de rituais e crenças voodoos. A família, entrevistada recentemente pelo ESPN, diz ser tudo mentira: Gaetjens era católico não praticante como tantos outros, um rapaz banal sem manias estranhas. Apenas uma das muitas incongruências do filme – omitem os restantes jogos dos EUA no Mundial, colocam a selecção no Brasil por convite quando na verdade tiveram que eliminar Cuba num playoff a duas mãos para garantirem a qualificação, etc. etc. Mas voltemos ao herói da história, aquele que foi carregado em ombros por milhares de brasileiros em Belo Horizonte, que viram no seu golo a solução para a selecção anfitriã não defrontar o temível conjunto britânico na fase seguinte da prova. O homem que depressa desapareceu, que entre ambiguidades e desinformações tornou-se num mito. Isto, claro, até a ESPN explorar o seu destino e a sua vida aquando do Mundial de 2010.

A glória efémera no Mundial de 50 não levou Gaetjens a uma caminho repleto de sorte e fama. Alguns meses após o fim do torneio, o haitiano deixou os estudos e rumou à liga francesa, ansioso por aproveitar a reputação que o golo acrobático impossível frente aos ingleses lhe proporcionara. Fluente na língua francesa, defende a sua família que a adaptação à Europa não se revelou difícil. Mas os míseros quatro jogos que disputou pelo Racing Club de Paris - com dois golos apontados - mostram que algo falhou nesta sua experiência fora-de-portas. A sua falta de utilização e uns joelhos problemáticos acabaram por o transferir para o Troyes AC, de uma divisão inferior, numa troca directa de jogadores. Poucos anos depois voltaria ao Haiti.

No seu País natal tornou-se um ícone. Recebido por milhares no aeroporto, Gaetjens foi contratado para ser a cara da Palmolive e da Colgate nas Caraíbas. Assinou pelo principal clube do país mas lesões recorrentes diversas obrigaram-no a terminar a sua carreira aos 29 anos. Antes disso, teve ainda tempo de jogar pela selecção nacional haitiana - como acabaria por não se naturalizar norte-americano, o Haiti aproveitou legalmente o facto - e foi titular num jogo decisivo de apuramento para o Mundial de 54, contra o México. O nariz começou a sangrar sem parar e Gaetjens teve que sair. Esse seria o último jogo oficial da sua carreira.

Arrumadas as botas, o herói de Belo Horizonte foi para casa descansar. Familiarmente relacionado com um candidato à presidência do Haiti - Louis Dejoie -, Gaetjens tornou-se uma bandeira política na conquista de votos. Mas não chegou. Perdidas as eleições para o médico François “Papa Doc” Duvalier, o seu destino ficou traçado: Papa Doc tornou-se um ditador sem escrúpulos e, paranóico com possíveis atentados à sua liderança, pouco demorou a encarcerar/assassinar todos aqueles que sabia serem contra a sua eleição. Gaetjens e o seu irmão foram dois dos que acabaram na prisão de Fort Dimanche, prisão onde todas as noites às 22:00 um prisioneiro era chamado para o pátio e executado. No dia 10 de Julho de 1964, calhou a fava a Gaetjens. Apenas mais um entre os trinta mil que foram assassinados durante o regime de Papa Doc. E é esta história de vida, tanto ou mais que o feito inigualável dos norte-americanos no dia 29 de Junho de 1950, que merece este destaque. Se o fraquíssimo filme de David Anspaugh ("Rudy") é o catalisador que precisam para a descobrir, que assim seja. Porque há males que vêm por bem.

sexta-feira, julho 04, 2014

El Penalti Más Largo del Mundo (2005)

Fernando é um zé-ninguém nos seus trintas, um tipo de mau aspecto que trabalha como repositor num supermercado de bairro e, sem mulher nem filhos com que se preocupar, passa os dias a beber cerveja e a sonhar com beldades que não pode ter. Além disso, é ainda guarda-redes suplente nunca utilizado num clube local – o Estrela Polar -, patrocinado e gerido pela direcção do supermercado onde trabalha, equipa que na última jornada do campeonato distrital enfrenta o adversário directo à subida no seu campo e, caso consiga pelo menos um empate, irá garantir pela primeira vez na história do clube uma presença numa divisão superior. Minuto noventa, tudo empatado e, num lance inacreditável em que o avançado derruba violentamente o guarda-redes mas a falta é assinalada ao contrário, penalty para os visitantes. Guarda-redes titular lesionado e, de cerveja na mão no banco de suplentes, Fernando é chamado para entrar e tentar um milagre, defendendo a grande penalidade mais importante da história do Estrela Polar. Mas eis que uma invasão de campo por parte de adeptos furiosos com a decisão do árbitro interrompe o jogo e a execução da falta é adiada para o domingo seguinte. Serão sete dias de angústia em que Fernando passa de um triste sem ambição para herói do bairro, venerado por todos de modo a motivá-lo para um momento que pode definir o futuro de várias vidas.

Comédia espanhola deliciosa sobre um meio social medíocre repleto de ilusões, um campeonato viciado pelo sistema e pela corrupção e, por fim, pela forma como o futebol é capaz de moldar as atitudes e os comportamentos daqueles que vêem no mesmo um tubo de escape às pressões do quotidiano – caso claro o jogador desempregado sem dinheiro para encher o frigorífico para o filho mas que gasta uma fortuna numas chuteiras de elite apenas para disputar meio minuto do jogo suspenso -, “O Maior Penalty do Mundo” consegue ainda manter-nos presos à narrativa devido à incógnita chave – tornar-se-á ou não Fernando uma lenda -, bem como ao magnetismo da belíssima Marta Larralde, que obrigada pelo pai (treinador) a sair com o monstro (esse mesmo, Fernando), proporciona os momentos mais divertidos da fita. Destaque final para Fernando Tejero, que com o seu guarda-redes escanzelado levou um Goya para casa.

sábado, fevereiro 07, 2009

The Aristocrats (2005)

“Os Aristocratas” é a mais famosa e reciclável anedota privada de uma elite de comediantes norte-americanos. Um mito com cem anos, desmitificado neste documentário, que nada mais revela do que uma pequena história ordinária e vácua na sua substância, condimentada com mais ou menos repulsa por cada um dos protagonistas que a reproduz. Uma desilusão tremenda e brejeira, sem o mínimo de piada, que ao invés de resultar como uma pedrada no charco dos tabus sociais, acaba por dar razão a quem defende que há assuntos que nunca resultarão como base de humor.

De Jon Stewart a Robin Williams, passando por Whoopi Goldberg, George Carlin ou Chris Rock, são dezenas as personalidades da indústria de comédia norte-americana que enclausuram-se na falta de discernimento e intenção de uma imagem bárbara e grosseira, comprometendo a sua imagem perante um público alargado que os respeitava pela sua inteligência. Não há barreiras morais e, mesmo os adeptos do estilo narrativo, não negam o tom monótono que a fita atinge a partir de um certo ponto. Adorado e aclamado pela crítica em Portugal – basta relembrar que nomes pesados como João Lopes ou Eurico Barros contemplaram o filme com uma rara pontuação de quatro estrelas, classificando a obra de Paul Provenza (actor sem mediatismo no meio) como espantosa e desconcertante -, “The Aristocrats” é, em duas palavras, completamente escusado.

sexta-feira, novembro 14, 2008

Lord of War (2005)

Yuri Orlov (Nicolas Cage) nasceu na Ucrânia, antes da divisão da União Soviética, mas cedo emigrou com a família para os Estados Unidos da América, onde os seus pais abriram um restaurante e, desde logo, ensinaram-lhe uma valiosa lição: “Abrimos um restaurante porque as pessoas terão sempre de comer”, asseverou o seu progenitor. Depois de assistir a um tiroteio entre gangues de leste, Yuri apercebeu-se, no entanto, que há outra necessidade humana que precisa de ser satisfeita... e que talvez possa render uns trocos mais interessantes: o negócio de tráfico de armas. Apesar do perigo, Yuri convence o irmão Vitaly (Jared Leto) a juntar-se ao esquema e esse será o primeiro passo para a decadência de uma família cujos laços de sangue pareciam inquebráveis.

“O Senhor da Guerra” é uma sátira dramática sobre o corrupto mundo do tráfico de armas. Cínica, precisa e, por vezes, raivosa, a película de Andrew Niccol – o tal que teve uma estreia auspiciosa com “Gattaca” – oscila entre o surrealismo burlesco do panorama que retrata e o dramatismo necessário para conferir ao argumento uma base sólida cinematográfica. Através do ponto de vista do “anti-herói”, brilhantemente interpretado por Nicolas Cage naquela que foi a sua melhor interpretação nos últimos anos, Niccol consegue passar a mensagem que pretende sem precisar de orquestrar um filme que caísse no registo documentarista habitual algo indolente. Uma provocação ao circuito comercial, que levanta questões importantes como o peso dos Estados Unidos da América no quadro político internacional.

sábado, novembro 03, 2007

Prime (2005)

Numa frágil e inquietante Manhattan, Uma Thurman é uma produtora fotográfica recém-divorciada, nos seus quarentas, que vive numa subtileza acutilante rodeada de dinheiro, mas desgostosa com um novo amor impossível: o de um jovem rapaz pintor que acabou de sair da universidade. Esse mesmo facto a faz consultar uma terepeuta sentimental (Streep), que mal sabe Thurman é nada mais nada menos do que a sua desgostosa nova "sogra". E se esta pequena linha orientadora seria um doce nas mãos de, por exemplo, Woody Allen, para o inexperiente Ben Younger foi apenas um pretexto para trabalhar com um excepcional elenco.

Isto porque "Terapia do Amor" não passa de um filme urbano que não consegue triunfar em nenhum dos géneros que almeja ser. A mistura de relações, desafios e atribulações de três personagens com tendências cómico-dramáticas acaba por resultar numa nulidade de tendências que exaspera e enfurece. O modo como Younger se afasta tanto da gargalhada fácil, mas garantida, como da lágrima ingénua, mas merecida, acaba por deixar no espectador a revolta de algumas - ou bastantes - oportunidades perdidas. Sorte a dele de o cinéfilo se sentir premiado e recompensado pelos desempenhos notáveis de duas actrizes sensacionais, que mereciam um realizador à altura. É que se com uma família judia com amigos homossexuais, uma sogra terapeuta da sua própria nora e os nomes de Streep e Thurman no elenco Younger não chegou lá, dificilmente o fará no futuro.

quarta-feira, setembro 26, 2007

Syriana (2005)

O petróleo movimenta rios de dinheiro. Dinheiro esse que estimula e instiga as mais variadas formas de corrupção entre todos os quadrantes do negócio. Dos políticos aos espiões, ninguém está imune. E quando num país do Golfo, um príncipe quer pôr termo às ligações privilegiadas com os Estados Unidos da América na venda de pretóleo, os interesses norte-americanos falam mais alto e Bob Barnes (Clooney), um agente do CIA à beira da reforma - como sempre - é chamado para uma última missão, que visa garantir o assassinato do chefe do principado.

Apesar da premissa interessante, mesmo que pouco original em termos de intriga conspiratória, e da realização pouco ortodoxa de Stephen Gaghan, o argumentista de "Traffic", quase todos os aspectos que tocam na relação com o espectador falham rotundamente em "Syriana". Se a fotografia deslumbrante parece indicar o contrário, a forma confusa e pouco convicente como a narrativa é filmada e tratada confirmam os receios iniciais que os primeiros minutos aparentam: uma obra que devia ter um impacto profundo de condenação da política norte-americana sobre o petróleo, acaba por ser tornar num desfile semi-monótono da câmara de Gaghan.

Faltou significado e faltou impacto à narrativa densa e, por vezes, confusa de Robert Baer, adaptada para o cinema por Gaghan. Mesmo os mais fanáticos do filme admitem que a ligação entre as diferentes histórias e personagens ficou longe da perfeição. No entanto, o complexo artístico da maioria defende que "talvez fosse esse o objectivo". A verdade, só o realizador óscarizado a saberá: terá sido um rasgo de lavor primoroso, ou incapacidade para ostentar uma melhor articulação?

terça-feira, maio 01, 2007

Batman Begins (2005)

Debilitado pelo sentimento de culpa mas fortalecido pela raiva inerente à morte dos pais, Bruce Wayne serve-se da sua principal fraqueza para combater os corruptos e criminosos de Gotham City que ameçam destruir o honesto e sincero legado deixado pela sua família. A sua arma é a sua fraqueza: o medo. Da frustração de uma vingança impossível, às privações auto-infligidas, tudo no “blockbuster” de Cristopher Nolan é um puzzle de fácil manuseamento e encaixe. Fácil mas com resultados eficientes e satisfatórios.

Em “Batman – O Início”, Nolan vê o Homem-Morcego com alguém extraordinário num mundo vulgar e sujo, numa valentia realista que retrata a inserção de uma das personagens mais marcantes da banda desenhada mundial, num mundo físico e humano. Não há poderes especiais, apenas explicações tecnológicas. É esta atitude de conformismo com o real que transforma “Batman Begins” no melhor capítulo da já longa saga.

Apesar dos vilões nunca assumirem um papel de elevado protagonismo, tal como acontecera nas obras anteriores, ao filme de Nolan não faltam motivos de interesse. Desde o excelente trabalho de Bale – que é, de longe, o melhor Batman cinematográfio da saga – ao elenco de excepção composto pelos excelsos Gary Oldman e Michael Caine e pelos não tão exorbitantes Morgan Freeman e Tom Wilkinson, tudo é articulado de forma equilibrada, com a clara sensação de que nunca o herói escondido por dentro da capa negra havia sido tão importante para o desenrolar da fita. Infelizmente, os complementares Cillian Murphy e Liam Neeson não estiveram à altura da restante comitiva.

Em suma, o Batman de Bale e Nolan é forte, duro e bem mais energético do que os anteriores. O que lhe falta em gótico e fantástico (numa alusão clara a Tim Burton, porque os de Joel Shumacher roçaram o rídiculo), esbanja em realismo. No fim, o resultado é muito mais consensual do que pessoal, superando todas as expectativas com brilhantismo. Esperemos que a sequela na altura descaradamente sugerida na cena final, e agora já confirmada cumpra de igual forma o desafio estimulante que “Batman Begins” deixou nos mais fanáticos da personagem.

terça-feira, abril 10, 2007

Boo (2005) / Scary Movie (2006)


São dezenas os filmes apontados aqui num bloco de notas que nunca chegaram a passar pelo Cinema Notebook na altura do seu visionamento. Para arrumar a casa, tenciono deixar-vos algumas breves notas, aos pares, tal como as meias são enfiadas numa gaveta: de forma rápida, mas organizada.

Boo (2005)

Na noite de Halloween, um grupo de amigos resolve ir dar uma voltinha a um sinistro hospital abandonado que, segundo contam os mais supersticiosos, mata misteriosamente quem por lá passa. E assim confirma-se, quando uma noite pintada em tons de diversão rapidamente se transforma num pesadelo sem saída, em que cada um tem que lutar pela sua própria vida e o azar parece explicar tudo.

Em poucas palavras, podemos afirmar que “Boo” de Anthony Ferrante - responsável pelo visual de alguns títulos conhecidos de terror, como “The Dentist” ou “Arachnid” - é pavorosamente funesto e insultuoso. Insultuoso porque trata o conceito do filme, mais do que banal, e o próprio espectador como qualquer coisa entorpecida e infértil, que não conhece ou reconhece os esquemas e artimanhas do género. Apesar do visual cuidado e sombrio, Ferrante claudica mais uma vez na escolha do elenco, que com interpretações excessivamente teatrais, fazem com que um filme assumidamente tenebroso se transforme numa risada pegada. Das tristes.



Scary Movie 4 (2006)

Quatro. Número mágico deste quarto capítulo da saga “Scary Movie”. Quatro foram os filmes parodiados, burlescamente transformados (“Saw”, “The Village”, “The Grudge” e “War of The Worlds”), quatro foram o número de tentativas de esboçar um sorriso durante o filme, quatro – mil! - foram as vezes em que desejei estar a rever o primeiro invés de visionar este último. Porque nenhuma maldição é forte demais, nenhuma vila é suficientemente segura, nenhuma serra eléctrica é afiada demais para impedir o descalabro total de um dos mais promissores realizadores de comédia dos anos 80. Sim, porque foi Zucker quem nos trouxe comédias hilariantes como “Airplane”, “Top Secret” ou “The Naked Gun” e custa associar a este currículo “Scary Movie 4”. Para não dizer que é preciso paciência para ver Leslie Nielsen fazer a mesma careta em trinta anos de carreira.

sábado, fevereiro 03, 2007

Match Point (2005)

“Match Point” de Woody Allen não tem Woody Allen como protagonista, não tem Nova Iorque como cenário e nem sequer conta no seu enredo com o maior dom do seu autor, que o catapultou para a eternidade: o inconfundível e abstracto sentido de humor. É sim um melodrama surpreendente sobre o destino e a sorte, com traços negros de suspanse, traição e morte. Chris é um jovem professor de ténis que sonha pertencer à alta sociedade britânica. Sonho esse que começa a tomar forma quando um dos seus alunos, Tom, o apresenta à família, aos pais e à irmã, que ficam fascinados com o seu gosto pela ópera e pelas artes. Mas Chris, que rapidamente começa um romance com a irmã de Tom, cai também ele rapidamente em tentação com a namorada de Tom (Scarlett), uma americana aspirante a actriz que transpira sensualidade por todos os poros. Entre as duas mulheres, Chris terá de recorrer a medidas extremas para não perder tudo o que instantâneamente ganhou.

Com uma considerável carga dramática e sempre em crescendo emocional, “Match Point” foi o regresso ao minimalismo mais primitivo e fulgurante de Allen, sem a necessidade deste de recorrer às suas marcas mais autorais. Bem filmado, com Londres como contexto e não como fundo, “Match Point” é uma obra extremamente sóbria sobre a imparcialidade moral da sorte e, por consequência, do destino. Com um argumento cruelmente real, repleto de culpa e desejo, Allen voltou a alcançar a notoriedade que desde os anos 80/90 lhe escapava iniquamente.

No entanto, o filme é demasiado repartido em termos de ritmo. Se temos uns quinze minutos finais absurdamente arrebatadores, do melhor que Allen fez na sua já longa filmografia, somos durante vários períodos do filme comparecidos com uma apatia quase asfixiante, que enrola e enrola o que de mais básico a obra produz e acaba por cansar e desanimar um pouco o espectador mais impaciente. O “casting”, como já é habitual nos filmes de Allen, é adequado e apropriado. Rhys Meyers surpreende e Scarlett Johansson confirma. Em suma, a ópera iguala o jazz, e Allen prova, de uma vez por todas, ser muito mais do que apenas um comediante de sucesso.

quinta-feira, setembro 28, 2006

The Skeleton Key (2005)

O horror, meus senhores, o horror. Quando penso que o cinema comercial norte-americano de terror já tinha batido no fundo com filmes como “The Grudge”, “The Fog” ou “The Ring 2”, eis que dou de caras com “A Chave”. Rotulado na capa como, e passo a citar, “um thriller tenso com arrepiantes volte-faces”, a história roda em volta de Caroline (a ténue Kate Hudson), uma jovem enfermeira contratada para tomar conta de um casal idoso, morador numa arrepiante e assombrosa mansão.

Com uma receita mais do que cozinhada, “The Skeleton Key” é uma verdadeira abominação cinematográfica. Aliás, desconfiei logo disso quando apanhei Peter Sarsgaard (para mim, o actor mais sobrevalorizado da última década) no ecrã por volta dos dez minutos. Apesar da ideia ser suficientemente interessante para resultar, todos os caminhos seguidos por Iain Softley foram os piores imagináveis. O rumo previsível roça a comédia trágica grega e apenas John Hurt (mesmo calado!) e uma direcção de fotografia semi-cuidada conseguem salvar “A Chave” da classificação nula.

“The Skeleton Key” é, então, um filme altamente impertinente, sem uma única cena digna de ser chamada de “assustadora” e em que nenhum dos “truques” tentados pelo realizador resulta. A própria Gena Rowlands, que nada precisa de provar no seu ramo (basta relembrar “The Notebook”), perde-se na sua interpretação. Demasiado esforçada. Dispensável!

terça-feira, julho 18, 2006

House of 9 (2005)

Nove estranhos, sem qualquer relação aparente entre eles, são raptados, drogados e fechados numa casa. As portas estão trancadas e as janelas tapadas com tijolos. Desorientados e furiosos, são recebidos por uma voz no intercomunicador que lhes diz que estão a ser observados e que competem para um prémio de cinco milhões de dólares. Como ganhá-lo? O último sobrevivente fica com o prémio e será liberto. E enquanto não começarem as mortes, a comida servida será cada vez mais escassa.

Há o Jay, o polícia, que decide que vai manter a paz. Há o Vince, um padre que se recusa a aceitar que vão atacar-se uns aos outros. Há o Francis, o compositor fracassado e a mulher Cláudia. Farida, uma jovem perturbada, e Claire, uma antiga estrela do ténis que se transformou numa acompanhante de luxo. Max, o estilista gay. Al-B, um aspirante a estrela de rap, e Lea, uma bailarina exótica. São nove personalidades completamente diferentes fechadas numa casa, sem possibilidade de fugir e que sabem que apenas uma pode sobreviver. A desconfiança instala-se e o ambiente de paranóia e suspeita torna-se cada vez mais pesado. A tensão transforma-se em violência e a violência em morte. De repente, passa a ser cada um por si, numa luta pela sobrevivência. Por que estão ali? Quem vai sobreviver? E o que é que isso irá custar-lhes?

Ora bem, este “House of 9” é a versão inglesa desfocada de dois filmes de sucesso norte-americanos: “Saw” e “Cube”. Se tem comparação possível com algum deles? Nem por sombras. Isto porque neste temos as mamocas de Kelly Brook, a barba de Hopper mas nem metade do talento de montagem, realização e direcção sonora das obras americanas citadas. Começemos mesmo pelo som e coordenação deste com as mais diversas cenas e momentos. Miseravelmente... miserável. Seria o mesmo que os momentos dramáticos do conceituado “The Shining”, de Stanley Kubrick tivessem sido acompanhados com uma música qualquer do vasto reportório de Emanuel, Toy ou Agata. A comparação está longe de ser desajustada, acreditem.

O argumento por sua vez, era uma laranja repleta de sumo, mas que não foi esprimida. Com um conceito tão multidimensional como o que é dado à partida, muito mais imaginação e criatividade era obrigatória. Um excelente final não basta quando todo o resto só atraiu pela ideia e pela agradável fotografia saturada em tons de cinza e branco. As personagens extremamente esteriotipadas permitem, logo de início, adivinhar os bons, os maus, o futuro vencedor e o bronco de serviço. O minímo esforço para fugir a esta inevitabilidade não é sequer esboçado. Não fosse o seu estrondoroso final e “House of 9 – O Rapto” iria directamente para o esquecimento. É que ao contrário de “Three”, nem sequer foram aproveitados os apêndices mamários de Kelly Brook para salvar algumas partes do filme.

sábado, julho 08, 2006

Hard Candy (2005)

“Hard Candy” é um thriller provocador baseado num encontro entre um predador sexual pedófilo de 32 anos e a sua “presa”, uma rapariga aparentemente inocente de 14 anos. Mas o “doce” esconde uma armadilha de difícil evasão, numa autêntica inversão de papéis, em que o capuchinho vermelho mostra os dentes e o lobo mau é preso no armário.

Longe do habitual drama tipo sobre a pedofilia, a principal virtude de “Hard Candy” é o revelar de uma grande actriz para o futuro, Ellen Page. Com uma grande segurança a todos os niveís, um olhar fixo e penetrante e poucos tiques corporais, Page promete ser, já em breve, um nome que vai dar que falar. A última vez que vi algo do género, se bem que numa fase mais precoce, foi em “Leon”, e a rapariga era, nada mais nada menos, do que a agora conceituada Natalie Portman.

Provocador e intrigante, “Hard Candy” esbanja, já perto do seu final, todos os atributos que constrói ao longo da história. Com um jogo psicológico entre as personagens bem montado, David Slade, tenta no fim “enfiar-nos” cenas completamente incompatíveis com o estatuto da predadora, ou seja, de Hayley (Page). Tornar o aceitável “pouco provável” num cenário completamente irrisório é o grande problema de “Hard Candy”, que tenta ser gigante quando só tinha condições para ser enorme. Consequência? Nem grande chega a ser. Só mesmo ao nível dos diálogos, todos eles dignos de merecer uma estatueta própria.

Com alguns truques baratos de realização, Slade consegue mesmo assim efectuar um bom trabalho atrás da camerâ nesta sua estreia cinematográfica. Certo que é notório algum amadorismo nas transições, mas não fosse a ambição desmensurada deste, e “Hard Candy” teria sido facilmente considerado um filme de culto. A escolha final de transformar Hayley numa justiceira de sangue-frio, invés de apenas uma pré-adolescente inteligente e matreira, acaba por tirar toda a credibilidade ao que tinhamos visionado anteriormente e acrescentar uns quantos buracos ao argumento. Slade ainda há-de me explicar como é que Hayley conseguiu pendurar um homem com mais 40 Kg do que ela no tecto da cozinha. Este e tantos outros que só aparecem porque Hayley é transformada, perto do final, em justiceira adivinha, que calcula todos os seus passos com uma antecedência genial, mas convencional.