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terça-feira, dezembro 13, 2022

1ª Vez 16 mm (2008)

Os rasgos de U2 nas passagens rápidas entre cenas, as baladas de Celine Dion nas autoestradas, de descapotável e cabelo ao vento, o Albertini que arruma carros e faz part times como actor, o toureiro que quer ser poeta, o Venâncio produtor que é meio fanhoso e a sua mulher, com o riso mais Lynchiano proveniente dos confins de Twin Peaks. Veneza, Paris, Madrid, Lisboa, Porto, Alentejo, Figueira da Foz. "Com a tua idade, já tinhas idade era para ter juízo", diz a mãe da personagem de Rui Goulart, actor, aqui Miguel. Segue-se o Rui Goulart guionista, que faz questão de filmar sem argumento. E o Miguel/Rui Goulart, realizador no sentido figurativo mas também literal, que junta tudo isto no produto mais bizarro, excêntrico e misterioso do cinema português recente. Tão misterioso quanto a própria figura e suposta carreira, que tantos sites noticiosos mencionam por essa internet fora mas que, aparentemente, ninguém viu ou conhece patavina. Uma vaca à entrada de um bar de karaoke - ou não, foi apenas mais um dos momentos de montagem caótica com que somos bombardeados de trinta em trinta segundos -, nomes conceituados como João D'Ávila, Adelaide João, Marisa Paredes ou mesmo o do maestro António Victorino d’Almeida completamente perdidos entre takes, maminhas que rodam, idosos aos saltos em cuecas brancas e uma mão cheia de citações para a posteridade. O que custa não é saber amar, mas sim saber mamar. Torre Eiffel em todos os planos parisienses - não vá alguém duvidar que foram mesmo lá -, o kitsch que é andar de gôndola em Veneza, o pai que era pescador porque pescou a mãe, um Ferrari vermelho e o Rui Goulart sempre a fumar e a olhar para o chão. Entrada violentíssima a pés juntos sobre o "engenheiro electrotécnico" Jorge Leitão de Ramos do Expresso. Terá sido vingança? Ou homenagem? Tudo tão amador e mal feito que quase parece de propósito. Não terá sido mesmo? Será esse o seu encanto secreto, qual sátira que se consome e corrói a si própria? Cheira-me que não, mas nunca saberemos. Inserir riso da mulher do Venâncio. Ha Ha Ha Ha Ha Ha Ha. O Tommy Wiseau que se cuide. Atchimmm. Corta. Obrigado. Gracias.

sexta-feira, dezembro 17, 2021

Die Welle (2008)

Há aqui todo um empirismo sociológico muito interessante em torno da autocracia/monocracia, uma experiência académica cuja mensagem e propósito se revela cada vez mais pertinente nas sociedades contemporâneas. A execução cinemática e prática da ideia está longe de ser perfeita - o final é exagerado, previsível e desnecessário, acabando por personalizar uma conclusão que deveria manter-se grupal -, mas ficam vários tópicos para discussão posterior: a forma como o ser humano é facilmente manipulado, a sua necessidade de liderança, de regras, de seguir uma linha comum, de se sentir integrado. A forma como os problemas - na época do nazismo, o desemprego e a inflação; nesta situação, a desmotivação, o isolamento na escola, a família que não lhes dá atenção em casa - são o combustível perfeito para o fascismo germinar. E como a sensação de poder pode corromper o mais puro dos idealistas, aqui representado pelo professor que finalmente se vê reconhecido por pares e alunos. Olho vivo amiguinhos, já Chega de problemas.

sexta-feira, outubro 29, 2021

Doomsday (2008)

A Rhona Mitra é o Snake Plissken numa Escócia isolada dominada pelos gangs do "The Warriors", num panorama apocalíptico pós-pandemia do "28 Days Later", com uma sociedade caníbal fã de show cookings numa espécie de Thunderdome e de perseguições automóveis - toda a saga "Mad Max" resumida numa frase -, com tempo ainda para uma facção medieval sob o reinado do Malcolm McDowell, qual "Army of Darkness" inesperado a entrar pelo "Braveheart" adentro. "Siouxsie and the Banshees" aqui e ali, um bruto Bentley modernaço no meio do ferro velho, efeitos práticos maravilhosos - os de CGI nem por isso - e uma intriga política maior, centrada em Londres, que nunca convence. Como se precisasse. Faltou-lhe a mesma sujidade e arrojo dos elementos visuais na dinâmica narrativa entre (anti)heróis e vilões, mas eis mais um exercício quasiculto de Neil Marshall que perdurará na memória colectiva dos aficionados do género.

quarta-feira, setembro 08, 2021

The Strangers (2008)

Pobre Haneke, o que foste tu inspirar? Zero razões para tanta tormenta, mesmo que aparentemente alguém estivesse à procura de uma Tamara. Decisões ridículas atrás de decisões ridículas por parte do casal massacrado, tão estapafúrdias que a certa altura questionamos se um deles não faz mesmo parte do esquema. Mãos que aparecem e desaparecem no banco traseiro de um carro com a mesma velocidade de um qualquer espírito ou fantasma... mas que afinal não, é tudo mesmo humano, vá-se lá perceber como. Cinematografia bonitinha e tal e aquele feeling muito niilista que muitas vezes passa como arte. Nada mais errado aqui: setenta minutos a ver Tyler e Speedman sem química nenhuma a deambular pelos cenários a pensar na vida, dez minutos com três palermas com máscaras e sacos na cabeça, ora parados ao longe, ora a entrar e a sair de casa só porque sim. Matar? Só pela manhã, que de noite é para meninos.

sexta-feira, junho 11, 2021

Tokyo! (2008)

Três histórias isoladas com Tóquio como único elemento em comum. Começamos com Gondry a transformar uma mulher numa cadeira. Sabemos mesmo quem somos? Somos o que queremos ser ou o que a sociedade quer que nós sejamos? Somos nós que transformamos as cidades em que vivemos ou as cidades que nos moldam a nós? Segue-se o pateta do enfant terrible do Carax com um monstro humano - o "Merde" - que não é nada mais do que o reflexo da sociedade que o rodeia. Politicamente incorrecto, japoneses e franceses caricaturados no seu pior, a guerra ao terror individualizada de forma tão ousada - sequência de abertura contínua e caótica, as mensagens escondidas à vista de todos - quanto presunçosa. E, por fim, Bong Joon-ho, mais pés-no-chão - ainda que a tremerem -, uma espécie de previsão apocalíptica do isolamento humano com doze anos de antecedência: seremos mesmo apenas livres, como Fernando Pessoa escreveu um dia, quando podemos isolar-nos do mundo que nos rodeia?

quarta-feira, outubro 14, 2020

Pontypool (2008)

Mais uma interessante variação d'A Guerra dos Mundos de Orson Welles, desta vez numa pequena vila canadiana. Um radialista maior que uma estação - o vocalmente hipnotizante Stephen McHattie -, um vírus estranho e enigmático que transforma a população numa espécie de zombies da linguagem - faz tanto sentido a ler como na execução prática do conceito, acreditem - e uma série de acontecimentos tão criativos quando frustrantemente indecifráveis e sujeitos às incertezas de um (aparente) acaso. Falta contexto, falta uma qualquer mitologia que sustente tão bizarros acontecimentos, falta uma estrutura consolidada que permita uma mão cheia de ideias singulares e arrojadas brilhar para além da confusão que se cria na mente do espectador. O tom e o estilo estão no ponto, mas metade das peças do puzzle acabaram viradas ao contrário.

segunda-feira, agosto 10, 2020

The Ruins (2008)

Um filme sobre heras assassinas e um grupo de turistas norte-americanos no México burros que nem uma porta. Personagens uni-dimensionais, processos de decisão ridículos e plantas que imitam sons de telemóveis para atrair vítimas. É o que é amigos. Um grupo de malta de uma aparente civilização Maia aparece no percurso da turistada mas, em vez de impedir que estes cheguem ao templo maldito, lá esperam que não haja volta a dar. Sabe-se lá porquê, talvez porque estavam com vontade de ficar uma semana de plantão a controlar qualquer saída possível da zona. Nada, quase nada que se aproveite, nem o raio daquele final que não é aberto nem fechado, apenas disparatado.

domingo, março 22, 2020

The VICE Guide to North Korea (2008)

Documentário surreal filmado por dois jornalistas da VICE, numa altura em que era ainda mais raro e complicado conseguir entrar (e recolher imagens) em Pyongyang, "The VICE Guide to North Korea" mostrou ao mundo várias facetas de um país que parecia estar noutro planeta. Ainda com Kim Jong-Il no comando, acompanhamos uma visita guiada preparada pelo governo norte-coreano para os dois jornalistas que tem tanto de anedótico como de intimidatório. Um hotel gigantesco vazio aberto só para eles, restaurantes e lojas de portas abertas apenas para os receber, motoristas e guias que não passam de actores num guião estudado ao pormenor. Locais exóticos ao lado de prédios decadentes, sem electricidade. Uma rapariga apaixonante numa loja de chá, que não tinha um cliente há oito meses, radiante por conhecer alguém de fora. Uma série de histórias em torno do poderio militar norte-coreano. O Festival de Arirang, o maior espectáculo coreografado do mundo, uma demonstração impressionante de um povo manietado ao milímetro pelo poder político. Vemos apenas a ponta do iceberg; mas percebemos que se trata de um iceberg tão belo quanto devastador.

terça-feira, fevereiro 18, 2020

The Horribly Slow Murderer with the Extremely Inefficient Weapon (2008)


Que maravilha. Dez minutos de puro deleite em torno de uma entidade demoníaca que não descansará enquanto não assassinar um homem aleatório com uma colher. De sobremesa. Um falso trailer para um filme que nunca existiu - reza a lenda que a vítima ainda não morreu dos ferimentos da colher, pelo que enquanto isso não acontecer, não haverá desenvolvimentos nesse sentido -, uma piada repetida vezes sem conta - and again, and again, and again, and again - mas que não cansa; não cansa porque Richard Gale muda constantemente de cenário, acrescenta pequenas reviravoltas no ataque e na defesa, terminando tudo num momento de esperança que rapidamente se desvanece. Original e hilariante, eis uma curta que não envelhece.

sexta-feira, fevereiro 01, 2019

Lakeview Terrace (2008)

Samuel L. Jackson, Patrick Wilson e Kerry Washington num thriller competente(zinho) sobre um polícia negro racista que inferniza a vida dos seus novos vizinhos apenas porque, na sua visão distorcida, leão branco não devia acasalar com pantera negra. Sob o manto protector do seu crachá e do seu estatuto profissional, Abel Turner - o intratável Jackson - tem tudo a seu favor para rapidamente correr com a nova vizinhança do bairro. Neil LaBute não é grande realizador - isso nota-se bem em vários personagens introduzidos, de filhos a pais, que caiem pelo caminho sem qualquer razão ou explicação aparente - mas também não precisa: a equipa sabe jogar sozinha e isso chega-lhe para não perder.

terça-feira, outubro 23, 2018

Religulous (2008)

"A verdade é que a religião tem de morrer para que o Homem possa viver. O tempo começa a escassear para podermos permitir que as decisões mais importantes sejam tomadas por pessoas religiosas, irracionalistas; por aqueles que conduzem o governo não fazendo uso de uma bússola, mas do equivalente a ler as entranhas de uma galinha. George Bush rezou muito pelo Iraque, mas não aprendeu muito sobre o país. A fé significa fazer da ausência de pensamento uma virtude; não é motivo de orgulho. E aqueles que pregam a fé e permitem a sua ascensão são, na realidade, esclavagistas intelectuais que mantêm a humanidade manietada por fantasias e despautérios que geraram e justificaram muita loucura e destruição. A religião é perigosa porque permite que seres humanos, que não têm todas as respostas, pensem que as têm. E aqueles que vos disserem que sabem o que acontece depois da morte, garanto-vos que não sabem. Como posso ter tanta certeza? Porque não sei. E vocês não têm poderes mentais que eu não tenha. A única atitude apropriada para o Homem em relação à grande questão não é a certeza arrogante que é apanágio da religião, mas sim a dúvida. A dúvida é humilde. E é isso que nós precisamos de ser, tendo em conta que a História da humanidade é uma sucessão de erros e enganos. É por isso que as pessoas racionais, anti-religiosas, devem perder a timidez e começar a fazer-se ouvir. E aqueles que se consideram religiosos moderados devem olhar para o espelho e perceber que o consolo e conforto que a religião lhes proporciona tem um preço muito elevado." Ámen Bill Maher.

domingo, setembro 20, 2015

The Escapist (2008)

Realizado pelo britânico Rupert Wyatt ("Rise of the Planet of the Apes" e "The Gambler"), "A Fuga" é uma variação curiosa de um tema mais do que explorado pela sétima arte: a evasão prisional. Com a velha raposa Brian Cox a brilhar e o insonso Damian "Brody" Lewis a enjoar - vilão fraquinho, sem carisma nem presença -, Wyatt joga constantemente com duas linhas temporais distintas que terminam numa só, numa reviravolta metafísica inesperada que compensa alguma passividade narrativa e emocional durante grande parte da fita. Pragmático, eficaz q.b., mas nem por sombras digno de ficar na memória.

sexta-feira, junho 13, 2014

Cass (2008)

Esta é a história verídica de como um bebé órfão jamaicano adoptado por um casal típico britânico se tornou, numa zona dominada por brancos e com graves problemas associados ao racismo e ao xenofobismo nas suas camadas sociais mais profundas, num dos homens mais respeitados e temidos do submundo londrino. Carol "Cass" Pennant passou de jovem oprimido pela sua cor de pele a líder dos ICF (Inter-City Firm), claque de futebol do West Ham United, um dos grupos organizados de hooligans mais violentos de Inglaterra. E acaba mesmo por ser nesta dualidade de interesses - o ser negro numa altura em que era díficil sê-lo vs a violência sem limites dos hooligans - que o realizador/guionista Jon Baird se perde, não sabendo bem em qual das vertentes se focar. Há uma fase inicial em que parece que o que lhe interessa é o conflito de relevância racial, mas rapidamente deixa-se levar pelo lado de influência social dos hooligans em gerações de adolescentes, baseando grande parte da narrativa em actos insensatos e desmesurados das claques. E, nesse capítulo, não traz nada de novo ao cinema e, no meio de tanto palavrão, acaba por ser uma repetição quase desnecessária de vários outros títulos britânicos recentes dedicados ao hooliganismo. Interpretações sem grande relevo - o vilão interpretado por Nonso Anozie acaba quase por ser demasiado simpático para ser credível enquanto alguém que racha cabeças por passatempo - fazem deste "Cass" uma biografia cinematográfica cujo potencial individual desvairou-se no colectivo.

quinta-feira, novembro 28, 2013

Il divo (2008)

Giulio Andreotti, sete vezes Primeiro-Ministro italiano, oito vezes Ministro da Defesa e cinco vezes responsável pela pasta dos Negócios Estrangeiros, entre muitos outros cargos que ocupou durante cerca de cinquenta anos de actividade partidária. Sem dúvida alguma uma das figuras políticas mais importantes e controversas do pós-Guerra em Itália, o "divino" é relembrado agora após o seu falecimento pelo seu sentido de humor e carisma, mas também pelas acusações e suspeitas de ligações à Máfia e a diversos crimes cometidos em prol de uma governabilidade sustentável. "Il divo", realizado pelo excêntrico Paolo Sorrentino, recria em tom satírico-biográfico o seu sétimo e último mandato enquanto Primeiro-Ministro, aquele em que enfrentou a justiça, perdeu a eleição a Presidente da República de forma contundente e viu a sua credibilidade ser totalmente devastada pela imprensa e pelo Senado.

Vencedor do Prémio do Júri no Festival de Cannes de 2008, "Il Divo - A Vida Espectacular de Giulio Andreotti" condensa o bem e o mal de uma personalidade singular num retrato de estilo caricato, que arranca em dificuldade - muitas personagens e demasiados simbolismos dificultam a compreensão do contexto e da narrativa a quem é apresentado pela primeira vez a todo este "circo" sociopolítico - mas termina em beleza, com magníficos diálogos - destaque para o duelo entre o fruto do acaso e a vontade de Deus -, provocações ao espectador e várias zonas cinzentas na história de um Homem cujo poder se alimentava na sombra. Sorrentino brinca com os planos e com a respectiva sonoplastia, toma partido em enigmas ainda hoje factualmente misteriosos - como o encontro d'O Papa Negro com "A Besta" - e choca o espectador contrariando imagens a desmentidos verbais. Andreotti acaba por servir a Sorrentino enquanto espelho ustório de uma Itália cujo sistema político continua autista, fechado em si próprio, acima da justiça e dos tribunais; prova disso mesmo foi Andreotti, condenado posteriormente aos acontecimentos relatados no filme a mais de vinte anos de prisão pelo envolvimento com a Máfia em vários crimes, mas que acabaria no entanto por ver a sua sentença ser anulada pelo Senado, que o considerou intocável. Destaque final para o papelão de Toni Servillo, napolitano cuja carreira neste género criminal tem-se revelado intocável.

quinta-feira, novembro 21, 2013

La siciliana ribelle (2008)

"La siciliana ribelle" narra a história verídica de Rita Atria, uma rapariga cujo testemunho e diários de adolescência foram fundamentais para colocar atrás das grades dezenas dos mais influentes mafiosos sicilianos, naquela que foi até hoje uma das operações antimáfia de maior sucesso em Itália, decorria o ano de 1992. O que começou como uma demanda por vingança de uma jovem rapariga cujo pai e irmão - também eles mafiosos respeitados no meio - tinham visto o feitiço virar-se contra o feiticeiro em disputas locais, acaba por acompanhar o crescimento interior e exterior de Rita, contra tudo e contra todos - inclusive família, amigos e namorado - até o único objectivo em vista ser a justiça e o desmantelamento de um mal que a sociedade sempre tomou como inevitável.

Aparentemente bastante fiel à história que lhe dá origem, "The Sicilian Girl" revela-se uma experiência cinematográfica que presta tributo de forma muito competente à curta mas significativa vida de uma heroína para muitos desconhecida. Partindo de um documentário do final dos anos noventa também realizado por Marco Amenta, o realizador italiano oferece agora uma versão ficcionada de uma epopeia judicial e criminal que comoveu um país, dando tempo às personagens para criar laços com a audiência, focando-se sempre no ponto de vista de Rita, deixando quase todos os crimes relatados pela mesma ao critério da imaginação do espectador. Não há distracções com planos violentos ou chocantes, deixando toda a atenção numa mão cheia de interpretações fenomenais, como as dos experientes Gerard Jugnot ou Marcello Mazzarella. Curiosamente, acaba por ser a protagonista Veronica D'Agostino a deixar algo a desejar, muitas vezes num overacting desnecessário pouco adequado à fragilidade emocional em que a sua personagem se encontrava. Ainda assim, nada que o deva afastar de um relato fidedigno obrigatório para qualquer curioso sobre a relação desavergonhada entre a máfia siciliana e o estado italiano.

sexta-feira, setembro 27, 2013

Largo Winch (2008) & Largo Winch II (2011)

Fundador e accionista maioritário do bilionário Grupo W, o misterioso Nerio Winch (Miki Manjojlovic) sempre foi conhecido como um homem solitário que, no seu iate, manteve-se afastado do mundo e dos perigos do poder sempre que pôde, depois de uma infância pobre e problemática que deixou marcas severas na sua personalidade. Quando é encontrado afogado - terá sido suicídio ou assassinato? -, a luta pelo controlo do Grupo W entra numa fona, com vários abutres a quererem uma fatia do bolo. Só que, para desconhecimento de todos, eis que no seu testamento aparece o nome de Largo Winch (Tomer Sisley), um filho adoptivo que ninguém sabia que Nerio tinha, a quem entrega todos os seus bens e acções. Com o objectivo de doar todos os fundos da empresa a instituições de solidariedade, Largo vai enfiar-se numa conspiração gigantesca cujo o único objectivo é afastá-lo do poder, custe o que custar.

Saga adaptada ao cinema pelo francês Jérôme Salle ("Anthony Zimmer"), "Largo Winch" foca-se na construção da sua personagem principal e processo de herança, enquanto que o segundo capítulo que lhe sucedeu três anos passados dá continuação ao jogo de traições e duplas traições, desta vez com um pano de fundo ligeiramente diferente - a Birmânia e a transformação do Grupo W numa instituição de solidariedade. Produções europeias ao bom nível artístico de um qualquer blockbuster norte-americano, eis duas aventuras de espionagem empresarial com narrativas sólidas e vários volte-face inesperados e bem orquestrados. As cenas de acção são puras - vários foram os segmentos de alguns segundos que demoraram semanas a treinar - e, rezam as crónicas, as histórias de ambas as fitas são saudavelmente fiéis aos dois primeiros álbuns da banda desenhada de culto nos países francófonos. Curiosamente, acaba por ser um actor alemão a dar vida a Largo, com muita personalidade e uma dedicação extrema - Sisley aprendeu sérvio para os filmes e dispensou duplos nas cenas de acção. Uma vez pensada como a saga que iria rivalizar com a franchise de James Bond, os direitos das adaptações cinematográficas de Largo Winch caíram durante décadas no esquecimento, renascendo agora com resultados convincentes. Com uma linha narrativa que oscila eficazmente entre o presente e o passado, destaque positivo ainda para a interpretação prodigiosa do já falecido Laurent Terzieff na sequela e negativo para a falta de carisma de Olivier Barthelemy enquanto Simon, fiel amigo e companheiro de aventuras de Largo. Venha daí ou não uma trilogia, o certo é que troco qualquer Bourne frenético por um Winch engenhoso.

Largo Winch (2008)

Largo Winch II (2011)

terça-feira, fevereiro 12, 2013

Being W (2008)

Descrito como a biografia cinematográfica não oficial e não autorizada do quadragésimo terceiro presidente norte-americano, "Na Pele de George W.Bush" é uma sátira em formato de documentário ao percurso tão imperfeito quanto trágico e preocupante do republicano que antecedeu Barack Obama naquele que é considerado por muitos como o cargo mais importante do planeta. Com narração do próprio Bush - pronto, é mentira, trata-se de um actor com uma voz muito semelhante, mas para melhor proveito o espectador deve abstrair-se dessa batota - e com recurso apenas a imagens de arquivo, navegamos durante oito anos de trapalhices políticas, gaffes em discursos ou puros momentos de descontracção pouco comuns para alguém com tamanha responsabilidade, orgulhosamente apresentados pelo próprio - ou quase -, de forma jocosa. Da autoria do francês Karl Zéro - que já tinha ganho um Cesar com um documentário do mesmo género intitulado "Dans la peau de Jacques Chirac" e já usou a mesma fórmula posteriormente para o cubano Fidel Castro e para o russo Vladimir Putin -, "Being W" é hora e meia de humor à Jon Stewart, revelando e colocando a nú assuntos sérios e vários tiros nos pés de forma hilariante. Esperemos que a imagem de marca de Zéro continue a dar frutos; assim de repente, Sarkozy, Blair e Chavez parecem-me excelentes próximas vítimas.

sexta-feira, janeiro 04, 2013

French Roast (2008)


Num luxuoso café parisiense, um homem de negócios apercebe-se que não tem a sua carteira consigo, não tendo assim forma de pagar um miserável café. Para não dar uma de pobre ou pedinte, vai tentando ganhar tempo até arranjar uma solução, pedindo cafés atrás de cafés. Com a conta a crescer, o horário de encerramento a aproximar-se e vários personagens a passarem pela sua mesa, da freira distraída ao vagabundo, do detective ao empregado de mesa, "French Roast", obra de Fabrice O. Jubert, ex-ilustrador da DreamWorks, nomeada em 2009 para o Óscar de Melhor Curta de Animação, oferece-nos, de forma simples, divertida e eficaz, uma lição de que nenhum livro deve ser julgado pela sua capa. Touché.

quinta-feira, agosto 23, 2012

Vantage Point (2008)

Numa visita do Presidente norte-americano a Santiago de Compostela para assinar um tratado anti-terrorista numa badalada cimeira política internacional, Thomas Barnes e Kent Taylor são os agentes secretos principais responsáveis pela segurança do seu Chefe de Estado. No entanto, poucos segundos no palco são suficientes para o Presidente ser vítima de um atentado a tiro. No meio do pânico e da confusão, oito pontos de vista, do polícia ao turista de máquina de filmar, da mãe de uma criança ao repórter de imagem de um canal televisivo, todos eles serão decisivos para descobrir o que se passou e, mais importante de tudo, o autor do crime.

Ou, pelo menos, é esse o conceito com que nos tentam manipular, tentando que, no final, o espectador acredite que só através da articulação das várias peças do puzzle foi possível descobrir o mentor do atentado terrorista. Na verdade, analisando friamente a narrativa, este foi descoberto logo nos primeiros quinze minutos de "Ponto de Mira", quando Thomas Barnes apanha o mau da fita numa gravação de um canal de televisão, sendo tudo o que acontece daí em diante apenas uma desculpa cinematográfica para "encher chouriços" e levar, pouco a pouco, a essa descoberta. Longe de ser uma ideia inovadora ou original, o formato multi-perspectiva acarretava ainda assim consigo algum potencial que, infelizmente, foi desaproveitado de forma tão banal quanto inglória. No fim, a sensação de termos visto várias vezes as mesmas cenas, com os mesmos planos, sem nada de novo a surgir da sua repetição constante. Uma obra em constante reset, quando tudo o que queríamos era um antivírus - ou, por outras palavras, realizador - eficaz.

quarta-feira, maio 04, 2011

The Incredible Hulk (2008)

Bruce Banner é um cientista desesperado à procura de uma cura para o seu “Hulk”, um monstro verde furioso – um Shrek versão musculada - que nasce de dentro de si sempre que se irrita um bocadinho. A viver nas sombras, longe da sua amada Betty Ross, foge da perseguição do general Thunderbolt Ross e do exército que pretende capturá-lo e explorá-lo cientificamente para fins militares. E, como em qualquer filme banal de super heróis, para cada grande monstro herói existe uma besta vilã com proporções semelhantes. Quem irá levar a melhor a guerra de titãs?

Numa espécie de mistura indecisa entre sequela e remake da versão de “Hulk” de Ang Lee, “O Incrível Hulk” consegue decepcionar as já modestas expectativas dos fãs e mostrar-se na tela como uma obra ainda inferior à que colocou Eric Bana nos calções super-elásticos do herói verde. Realizada pelo francês Louis Leterrier (responsável pelo ritmado “The Transporter” mas também pelo angustiante “Clash of the Titans”), apelidado por alguns como o discípulo sucessor de Luc Besson, “The Incredible Hulk” não aprende com os erros do seu antecessor e, mais grave ainda, repete-os estupidamente, inclusivamente na escolha do elenco, colocando o desinteressado Edward Norton numa personagem que se pretendia emocionalmente intensa.

Se a versão de Ang Lee parecia falsa, a de Leterrier parece demasiado infantil. O vilão não convence, o CGI é absurdo, as personagens vazias e a história banal. Um insulto à inteligência, um desperdício de aproveitamento de um herói que podia dar tanto ao cinema mas acaba sempre limitado a esmagar carros em ruas de amargura. É caso para dizer que, de incrível, este Hulk não tem nada.