quinta-feira, maio 07, 2009

Marley & Me (2008)

São muitos os casos em que a adaptação cinematográfica de um sucesso literário fica aquém do esperado. “Marley e Eu” não é excepção a essa regra e serve de testemunha a todos aqueles que defendem que é impossível captar e traduzir numa tela as intensas palavras de um escritor, tantas vezes carregadas de sentidos vários com múltiplas interpretações. Quando o desafio colocado a um qualquer guionista é transformar doze anos de travessuras caninas e mais de trezentas páginas de memórias de colunas de um jornal em cento e vinte minutos de filme, torna-se praticamente impossível agradar a quem leu o livro e, por isso, ficou à espera de ver no cinema muitos dos excertos literários esquecidos ou colocados de parte por David Frankel, realizador de “Marley & Me”. E é Frankel, autor de “O Diabo Veste Prada” e de alguns episódios de “Sexo e a Cidade”, o elo mais fraco desta transição.

Falta talento a David Frankel para consagrar a versão cinematográfica de “Marley & Me” de uma identidade própria. Raramente o realizador nova-iorquino consegue juntar harmoniosamente as facetas dramáticas, românticas e cómicas da escrita de John Grogan num produto consistente e espirituoso. Assim, limita-se a gerar cenas específicas para cada uma das vertentes, arruinando as bases de uma história afoita e tremendamente eficaz. O resultado é simples: o que há de divertimento canino em “Marley & Me”, o filme, está no trailer da fita. O resto é uma história mal amanhada de um casal, quase desunida por completo da influência do cão – apenas é dada importância à presença do mesmo em todas as fases -, coisa que no livro não acontecia. Em suma, Marley foi erradamente tomado como parte neutra durante hora e meia de narrativa.

As lacunas são, então, muito mais evidentes que os pontos fortes da obra. Há um sentimento de desilusão, que leva a lamentar, entre outras, a ausência cinematográfica da parte literária em que Marley se torna uma estrela de cinema. Mas desengane-se quem pense que “Marley e Eu” não é um filme obrigatório. A razão é simples: apesar da simplicidade excessiva da fita de David Frankel, sem pés nem cabeça nos saltos temporais que executa na vida das personagens, o final melodramático não deixa de ser um tratado de excelência suprema, uma ode ao amor e à importância das pequenas coisas. Não é preciso ser um amante de cães para sentir o impacto do destino de Marley. Com uma banda-sonora agradável – de R.E.M e The Verve – e uma dupla de actores convincente, é no entanto a moral da obra que quebra todas as barreiras cinematográficas auto-induzidas e torna “Marley & Me” num filme muito melhor do que ele realmente o é. Para memória futura, “um cão não se preocupa se és rico ou pobre, letrado ou iletrado, inteligente ou pouco inteligente. Dá-lhe o teu coração e ele dará o dele”.

14 comentários:

Tiago Ramos disse...

Também fiquei bastante surpreso pela qualidade do filme, apesar de lhe dar menos classificação que tu...

dianamatias disse...

Um filme domingo à tarde, com traços de grande doçura e afecto.

E é quase impossível adaptar algo para cinema de forma imbatível.

(um quatro depois desta crítica? Um pouco desproporcionada.)

Peter Gunn disse...

Apesar de ainda não ter lido o livro também achei que a estrutura narrativa do filme não era a melhor, pelo que a dada altura pensei se o livro também sofria do mesmo problema... mas pelo que li na tua critica já vi que não.

É bem verdade que o filme dava saltos no tempo quase tão confusos como os da ultima temporada de lost... o que nos deixava a pensar: mas os putos já estao deste tamanho? mas afinal ele sempre mudou de trabalho?... enfim. vou esperar para ler o livro para saber as respostas ;)

Cumprimentos

Cinema Paradiso disse...

Não percebi bem a crítica e a classificação.

Eu gostei do filme mas sim, não é nada de mais e apesar do final ser excelente, parece que sai um bocado do filme.

Artequianos disse...

Sim, é verdade, estou aqui a publicitar a nossa peça intitulada: NU.

6as e sábados às 22h no Bar Novo da Faculdade de Letras de Lisboa. Reservas: 221 799 0530.

Porque gostamos de letras e de nos descobrirmos!

Saudações Teatrais! =D

AddCritics disse...

Permite-me discordar. Entendo que o filme pode tentar ter um pouco mais de profundidade que uma comédia romântica típica, mas falta-lhe ritmo. Não é um filme capaz de agarrar o espectador e foi em muitos momentos algo enfadonho.

2,5/5

RB disse...

Também não percebi a classificação final. Na crítica dizes mal do filme e no final dás-lhe 4 estrelas? Não te terás enganado?

Saudações!

DAGC disse...

Por acaso gostei do filme, fui meio ás cegas ver o filme e acabei surpreendido porque esperava uma comédia e o filme é muito mais que isso.

Dei-lhe um 7/10, o que para filmes com o Owen Wilson deve ser um record :D

Cumps ;)

JB disse...

Bem, sou mais um que nao percebe a lógica das notas. Realmente falas numa série de pontos negativos e depois dás 4??? Eu sei que isso das notas é subjectivo, mas...

Em relação ao filme, tenho de confessar que gostei bastante. Para já tem o prémio de "Filme mais fofo do ano".

Dona Mãe Babada disse...

uiii... falar sobre este filme e este livro não me é fácil...

ADOROOO o livro, mais que não seja porque soa-me mesmo muito muito familiar. muito muito muito familiar ehhehe Não tenho nenhum problema em dizer que é um dos meus livros preferidos de sempre.

estava há montes de tempo ansiosa pelo filme (a estreia em Portugal foi adiada várias vezes não sei muito bem porquê...) e a expectativa era alta. talvez tenha sido esse o problema.

não digo que NÃO GOSTEI, porque apesar das falhas que tão bem apontaste, de facto, concordo que o final é bom. está é desajustado. porque durante todo o filme o Marley é um acessório, mais do que um protagonista, e depois é que se lembram dele.

o livro é muito mais sobre a relação do John Grogan com o Marley do que sobre a relação do John Grogan com a mulher, e é pena que o filme tenha deturpado isso.
(além disso, a Jennifer Aniston está estranhíssima neste filme).

Beijinhos,
Margarida Pitt

PS - ontem vi a estreia do star trek (confesso que fui arrastada porque nunca tinha visto nenhum dos outros nem sequer a série... ahaha) Adorei. Não estava nada à espera. Fiquei viciada e agora vou ter de ir ver tudo o que já havia...

Agata disse...

algo enfadonho não, bastante enfadonho. não tem pinga de originalidade. filmes de domingo à tarde há muitos e melhores.
4 estrelas????

Anónimo disse...

Confesso, que adorei o filme, confesso mais.. "tenho uma lágrima no canto do olho".. acho que era assim a música!!

Um abraço do VILA

Carlos M. Reis disse...

Grande confusão que aqui se criou. Vou tentar explicar a classificação:

Como podem ler na análise, quase todas as falhas que apontei ao filme foram feitas em comparação ao livro. No entanto, não posso classificar uma obra por comparação e outras também baseadas em livros, mas que nunca li, sem ser por comparação. Há que haver um critério único para as classificações terem algum sentido. Por isso, é a nota do filme enquanto produto de um guião e não de um livro.

O objectivo do filme é emocionar o espectador, e comigo conseguiu, o que a maior parte dos filmes de domingo à tarde não consegue. E esse final, uma ode à excelência da simplicidade, justifica e atenua, para mim, quase todos os defeitos do filme. Que são muitos, é verdade.

Obrigado a todos pelo feedback. É bom saber que alguém lê linha por linha o que escrevemos sobre um filme. Dá muita vontade para continuar ;) Abraços e beijinhos!

F. disse...

Não dava nada por este filme e adorei

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