sexta-feira, abril 02, 2010

Invictus (2009)

Invictus”, título do mais recente filme do mestre Clint Eastwood, é originalmente o nome de um poema escrito pelo britânico William Ernest Henley no século XIX. A sua escolha é óbvia: rezam as crónicas que foi nos seus versos que Nelson Mandela encontrou força para viver – e sobreviver - durante os vinte e sete anos em que esteve aprisionado na Ilha de Robben, devido às suas revoltas políticas contra o Apartheid na África do Sul. Libertado em 1990 e eleito presidente sul-africano em 1994, é exactamente esse o momento que Eastwood utiliza para dar o pontapé-de-saída da sua narrativa, através do contraste entre um pobre campo onde as descalças crianças africanas jogam futebol e a verde arena de rugby onde os brancos de origens inglesas temem por um futuro negro, literalmente. Exactamente no meio, a estrada onde o carro de Mandela passa. E ao contrário de todos os que o acompanham, brancos ou negros, o novo líder sabe que está na conciliação dos dois lados dessa mesma estrada a resposta para o futuro risonho e glorioso da sua nação. E o que para muitos era apenas um desporto e um evento desportivo, para Mandela era uma oportunidade de ouro para quebrar as tensões raciais que existiam no país e juntar os mais de quarenta milhões de sul-africanos numa só voz, num só hino, numa só batalha.

Esse evento foi o Mundial de Rugby de 1995, realizado na África do Sul. É este que serve de base para um exercício relacional constante entre a política e o desporto, entre Mandela e Francois Pienaar, capitão dos Springboks. É no rugby e na relação dos sul-africanos com a sua selecção que o Apartheid é retratado. Tudo o resto – e não é pouco, como a história demonstra – é propositadamente desfocado, de modo a manter o ponto de convergência da fita na importância e no significado profundo que uma odisseia desportiva teve na história de um Estado.

Na terceira vez que trabalha com Eastwood, depois de “Unforgiven” e “Million Dollar Baby”, Morgan Freeman arranca uma interpretação soberana enquanto Nelson Mandela, captando na perfeição os mais pequenos detalhes da sua figura, suficientes para o confundir em planos mais distantes com o histórico Nobel da Paz. Da postura à maneira de falar, Freeman encarnou Mandela durante as filmagens e é agora um dos principais candidatos ao Óscar de Melhor Actor. A nível técnico, não temos os tradicionais jogos de luzes e sombras de Clint Eastwood – à excepção do jogo das meias-finais contra a selecção francesa, que o norte-americano aproveita, durante a noite e sobre chuva intensa para poetizar a dureza e a determinação daquele grupo de heróis – nem a excelência narrativa a que o velho justiceiro nos habituou. A própria continuidade do entusiasmo entre eliminatórias parece viciada, mas nada que seja suficiente para danificar a força de uma fábula memorável. Porque mesmo uma obra mediana de Eastwood bate aos pontos – ou aos ensaios – o que frequentemente habita nas salas de cinema de todo o mundo.

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