segunda-feira, novembro 29, 2010

Tom Selleck


Conceituado restaurante italiano numa das ruas perpendiculares à movimentada Oxford Street, na fria mas sublime Londres. A menos de um metro de distância, a partilhar a mesa, na cadeira ao lado, Tom Selleck. Com muito menos cabelo que o seu mítico Thomas Magnum, mas com o bigode inconfundível de sempre, fazia-se acompanhar por uma jovem loura norte-americana de olhos esverdeados, na casa dos vinte e poucos, tão esbelta e atraente quanto intelectualmente desinteressante e grosseira. Com um vinho dez vezes mais caro que o meu, o charme e o carisma de Selleck eram óbvios a milhas de distância (à boa maneira inglesa, não há cá quilómetros).

De forma rude, mas sem qualquer alternativa devido à localização momentânea, fui ouvindo todas as conversas do pseudo-casal - pseudo porque pareceu-me ser apenas mais uma aventura digna de um qualquer galã cinquentão de Hollywood. Numa pequena mas comprometedora distracção, relembro à minha namorada, em bom português, que se tratava do "Richard, dos Friends, aquele que teve um caso com a Mónica". Ao ouvir estas palavras-chave, que careceram de tradução, mesmo que fosse soar pateticamente mal - "é o Ricardo, dos Amigos" -, Selleck vira a cabeça na minha direcção e, com um olhar obsequioso, esboça um sorriso. Devolvo o sorriso e, até porque tudo isto pode estar a começar a soar um bocado efeminado, fico imediatamente a pensar porque raio é que esta situação não me aconteceu com a Natalie Portman, por exemplo.

Sem saber se aquilo ia dar conversa ou não entre casais, pego no telemóvel e começo a fazer uma googlagem ao homem, não fosse depois eu dizer, por simpatia, que era um fã e não saber nada mais do que os básicos cinéfilos sobre o homem e o actor. Primeira informação que apanho, quase por acidente, é que Selleck era um homem casado, com filhos. "Olha olha, és fresco", pensei. O jantar prolongou-se e, saltando momentaneamente para o fim, acabei por sair do restaurante tal como entrei: sem conhecer o grande Tom Selleck, actor.

No entanto, numa postura evidente de vedeta, com claro objectivo de impressionar a jovem que o acompanhava, Selleck acabou por demonstrar-se uma autêntica desilusão enquanto Homem. Tratando com desprezo e desconsideração a empregada que o servia, ao dizer "oiça lá querida, preciso de um prato assim, de um copo assado, para hoje, e não de sal e pimenta", acabou por levar uma resposta tão corajosa como merecida: "percebi o que me pediu a primeira vez que o fez, há menos de dois minutos, e já transmiti ao meu colega".

Como se de um filme se tratasse, Selleck sentiu-se desrespeitado por tão justa resposta e disse-lhe, literalmente aos berros, com uma voz pesada: "Você foi muito rude agora... mesmo uma cabra (bitch), desapareça-me da frente, vá chamar o seu chefe e nem sequer se arrisque a voltar a passar por perto desta mesa". Resumidamente, e porque isto não se trata propriamente de um guião para uma novela, lá veio o chefe, lambeu as botas ao pequeno Selleck, Homem - que relembrou-lhe que era um cliente regular da casa -, ofereceu-lhe tudo e mais alguma coisa e ainda caiu no ridículo de, a pedido de Selleck, tomar uma atitude em relação à empregada. No ridículo, porque o fez em pleno restaurante, à frente de dezenas de mesas - e de Selleck, obviamente -, colocando a destemida empregada a chorar que nem uma Maria Madalena. Quando isso acontece, Selleck volta a sorrir e a jantar de ego cheio, bem disposto. E a jovem loura tem, finalmente, um motivo de conversa, um autêntico quebra-gelo para tão pequeno cerebelo.

A conclusão é simples: no fim, e no meio de tudo isto, quem se tramou foi aqui o português, sem bigode inesquecível e carteira da Armani, que esteve mais de meia-hora à espera para pedir a conta, pois não havia um único empregado que tivesse coragem de passar junto a Selleck, à excepção do bajulador do chefe, que nem sei se reparou que tinha lá mais dois clientes mesmo ao lado até eu dirigir-me ao graxista e perguntar-lhe se podia sair sem pagar, já que não via ninguém preocupado com a minha mesa. O lado positivo? Poupei na gorjeta e simbolicamente apenas lá deixei um centavo inglês. Provavelmente mais do que Selleck acabou por pagar pelo jantar, à custa da polémica com a empregada.

4 comentários:

Carlos Martins disse...

Sem palavras... o_O

cinemapongal disse...

lol! Que grande palhaço, pá. Podias ter aproveitado a tua estadia aí para vender essa "estória" ao The Sun ou ao Daily Mirror. Sempre ganhavas umas coroas extra para pagar uns copos nos TCNs. ;)

É estranho, sempre tive uma imagem positiva do Selleck, também pelo modo humilde como responde nas entrevistas à questão do Raiders of the Lost Ark. Mas até que se entende, né? O homem deve ter uma azia daquelas por passar à história como o "quase-Indiana Jones", ou o "Richard que teve um caso com a Monica no Friends". Não desculpa a atitude, mas há que condescender um pouco com pessoas frustradas. ;)

Nuno disse...

Tenho-me cruzado com alguns desses, mas basta uma estrela simpática para me esquecer de todas as menos merecedoras de atenção.
Podias ter dito que ele se tinha oferecido para te pagar e acenavas-lhe. Isso nos filmes funciona.

Miguel Reis (Knoxville) disse...

Cumprimentos a todos ;)

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