Numa noite como tantas outras, uma equipa de reportagem de uma estação espanhola de televisão decide acompanhar a vida de um quartel de bombeiros local. Durante a madrugada – que estava a ser demasiado calma e apática para o gosto da jornalista de serviço - eis que surge finalmente uma chamada de emergência. Apesar de ser, segundo o telefonema, apenas uma senhora de idade presa no seu apartamento, sempre era algo para mostrar mais tarde. Mal sabiam eles que acabariam por ser encarcerados no prédio pelas autoridades, que isolam o edifício de forma célere e tresloucada. “Mas que raio se passa aqui?”, pergunta, a certa altura, o operador de imagem. “Não faço ideia! Mas não desligues essa camerâ, aconteça o que acontecer, ouviste?”, replica a jornalista. E é esta mesma a perspectiva que nos é dada: imagens aparentemente não editadas, com uma tremedeira intolerável, num estilo semelhante ao recente “Nome de Código: Cloverfield” ou ao semi-pioneiro do modo artístico representado, “O Projecto Blair Witch”.“[Rec]” foi o heróico vencedor da última edição do Fantasporto ao arrecadar o Grande Prémio de Melhor Filme, batendo o favorito à partida “El Orfanato” - outra produção espanhola - na corrida final pelo galardão. Apesar da sua curta duração – cerca de setenta e cinco minutos limpos (sem contabilizar os créditos finais, portanto) -, “[Rec]” é um mockumentário de zombies eficaz e compacto, que consegue criar, de modo incessante e de forma equilibrada um nível de tensão que se torna mais angustiante a cada minuto que passa e que culmina numa cuidada cena dramática final, que oferece ao espectador o que havia sido preterido até então: o domínio da paranóia de sugestão ao invés do medo violento e carnal que tomou, a certa altura, a fita por completo. E deste modo, Jaume Balagueró – responsável pelos levianos “Darkness” e “Fragile” - e Paco Plaza conseguem ofuscar algumas debilidades estruturais que colocavam “[Rec]” ao nível de tantas outras obras modernas de terror.
Sem grande preocupação em levar as personagens a uma plataforma mais íntima, a dupla espanhola não cai por isso mesmo no erro de recorrer a uma ligação excessivamente sentimental entre as personagens principais para dar qualquer tipo de profundidade emocional que seria desnecessária à trama. Com um elenco de cariz realista comandado pela berrante Manuela Velasco – que conquistou o Goya de Melhor Actriz com este papel -, resta regozijar o formidável esforço colocado ao serviço da sonoplastia da fita, bem como o muitas vezes desprezado trabalho de caracterização estética das monstruosidades perversas de “[Rec]”. Com remake norte-americano já com estreia marcada – e pelo que o trailer dá a entender, muito fiel à produção espanhola -, “[Rec]” é a prova de que o cinema espanhol está a ganhar notoriedade (merecida) em várias frentes, ficando cada vez menos dependente do rótulo “Pedro Almodóvar”.














































